Estávamos sentados na nossa escada. Você comia uma barrinha de cereal, enquanto meus olhos estavam atentos na tempestade que caía. O céu negro me encantava e os sons dos trovões soavam melodiosos. Havia uma certa ordem naquele caos assustadoramente bonito e por mais que eu sentisse que seus olhos estavam sobre mim, o meu olhar não conseguia deixar de admirar a turbulência bela do outro lado da janela.
Ouço o barulho do vento batendo violentamente contra os vidros, enquanto vários ecos de vozes se assustam no pátio pelo estrondoso trovão que iluminou o céu, mas ainda assim, escuto suas palavras aleatórias:
— Uma tempestade.
Pisco algumas vezes tentando encaixar sua frase nos mais diversos contextos, mas permaneço sem entender. Você solta uma risadinha e se aproxima um pouco de mim. Nós dois parecíamos minúsculos naquela escada enorme de apenas dez degraus quando nossos corpos estavam tão próximos, pois parecia que eu e você, virávamos um nós.
— Outro dia — Você diz, quebrando meu devaneio — Você perguntou qual tipo de garota eu gostaria de ter e eu não soube responder. Lembra?
— Sim, lembro. — Respondo calmamente, ora olhando para você, ora para a sua mão, que acariciava a minha. Odiava isso, pois eram gestos assim que provavam o quanto você me tinha fácil demais, mesmo que eu estivesse ciente de que você não me amava.
— Eu gostaria de ter uma garota que fosse uma tempestade.
Antes que eu pudesse responder que isso era impossível, você vira gentilmente meu rosto e deposita um suave beijo na minha testa. Sinto minhas bochechas queimando e escuto um trovão alto ao mesmo tempo que sua boca se abre, dizendo palavras caladas pela onda de choque que acabara de iluminar o céu.
Você se afasta com as bochechas levemente coradas e, para disfarçar, coloca a cabeça no corredor para verificar se a porta da nossa sala está aberta. Fico parada, acompanhando com os olhos seus movimentos. Nunca imaginei que um simples “gostaria de ter você” pudesse calar uma tempestade tão barulhenta como eu.