A lâmina deslizou profunda e verticalmente por meu pulso e depois disso restou-me somente o silêncio. A dor que no início pinicava, cessou. A respiração que queimava aos poucos se apagou. Os impulsos para tentar sobreviver diminuíram gradativamente. Tudo ao meu redor se tornou um borrão e os sons se converteram em ecos, mas eu ainda conseguia chorar. As lágrimas eram frias e duras, mas pesadas, pois o peso de minha vida caía juntamente com cada uma delas.
Ao lado de meu corpo, encontrava-se a própria Morte. Ela me encarava como uma mãe que olha seu filho pela primeira vez. O olhar calmo e avaliador daquela forma não me assustava, mas de alguma maneira acalentava meu espírito. De repente, em meio ao caos silencioso ao meu redor e minha aceitação em ser levada, ouço-a dizer:
— Não, criança, ainda não é sua hora. Negocie com seu corpo para encontrar forças e sobreviva, pois seu destino é ser salva e extraordinariamente amada.
A Morte desaparece e, subitamente, minha vida passa diante de meus olhos. Dizem que isso só acontece quando você está prestes a morrer, mas naquele momento descobri que, na verdade, a vida passa diante de nossos olhos quando o coração grita desesperadamente por ela. E naquele instante, meu coração não batia, mas sim saltava. Quero viver para te ver mais uma vez, era tudo o que eu conseguia pensar.
O banheiro voltou a tomar forma, assim como os sons ao redor. Minha mente me bombardeava com lembranças nossas e ao meu lado, podia ver a tela do celular brilhando com uma chamada sua ativa. Precisava me despedir, penso, mas como dizer adeus a você?
A nossa casa era enorme, mas ainda assim eu podia ouvir ao fundo o som da sirene de uma ambulância e… a sua voz me chamando no andar de baixo, enquanto todas as portas eram abertas com violência. Minha voz não saía e um desespero se apossou de mim, pois queria viver para entender o que é ser extraordinariamente amada. Minha garganta estava fechada e minha alma me alertava que se eu não reagisse rápido, meus últimos segundos dados de presente, seriam desperdiçados.
Neste instante, as palavras da Morte são sopradas em meu ouvido, misturadas com seus gritos desesperados. Respiro fundo e peço uma última vez ao meu corpo ajuda, mas não para morrer, e sim para viver.
— AQUI! — É tudo o que consigo gritar, com todas as forças que não possuo.
E antes que o mundo se apagasse, você surge diante de meus olhos, como se fosse o próprio Sol iluminando a noite mais escura.
— Está tudo bem agora — Ouço você dizer ofegante, enquanto me pega no colo e corre para fora da casa, para que eu seja socorrida — Estou aqui, meu amor. Vou te salvar.
E meus olhos se fecharam, enquanto meu coração se aqueceu e sorriu.
Sim, digo para mim mesma, você me salvou com o seu amor.