A coisa mais peculiar sobre os sentimentos é como eles nos deixam mais irracionais, selvagens. O nosso primeiro instinto é apenas segui-los. Aparentemente, na primavera, os guaxinins e todos os outros animais da floresta tem seus sentimentos aflorados. A vontade de conhecer algum ser correspondente é algo que surge naturalmente. Mas nem todos os sentimentos que afloram nessa estação são considerados naturais.
Agora eu quero falar um pouco sobre o que aconteceu naquela primavera. Eu naturalmente deveria me apaixonar por algum espécime macho, o que era muito comum para fêmeas da minha idade. Porém, a minha nova amiga me chamava muito mais atenção que qualquer outro macho jamais chamaria. Agora, eu entrava num dilema: seguir meus instintos ou seguir aqueles que deveriam ser meus instintos. Claramente a primeira opção, rumo à minha felicidade, era a mais plausível. Aparentemente, naturalidade e moralidade caminham juntas. Sempre ouvi que a natureza não erra e sempre castiga aqueles que desafiam uma chamada ordem natural das coisas.
Na tentativa de reprimir tudo o que sentia, busquei me interessar por algum guaxinim que pudesse ser um chamado "tipo compatível". Até que conheci alguns interesantes, mas nada dava certo. O problema, eu repetia, é que eu não estou me esforçando o suficiente. Decidi que iria encontrar um e me apaixonar por ele. Isso depois de ouvir que às vezes, quando repetimos uma mentira muitas vezes, ela pode se tornar verdade. Então eu decidi que estava apaixonada por um determinado guaxinim, o qual era o tipo perfeito. E melhor: ele não se interessava por mim. Era a desculpa perfeita para nunca me relacionar com ninguém, obviamente. Presa num amor platônico irreal, eu seguia reprimindo um sentimento vergonhoso e pouco natural.
Mais a frente, descobri da maneira mais cruel que mentiras contadas diversas vezes não passam de mentiras. Naquela altura da estação, minha família e amigos já tinham se convencido do meu sentimento pelo jovem que nunca me notaria. Mas eu não tinha me convencido. Nunca me convenceria, não era real. Porém, isso já não era um problema. Na minha ingenuidade, minha felicidade significava aprovação dos que estavam ao meu redor. Eu estava em aparente tranquilidade.
Naquela rotina de escola os dias eram sempre parecidos. Para os meus novos amigos, tudo aquilo era uma bobagem e que velhas regras escritas por velhos idiotas deveriam ser burladas. De tanto insistirem, um dia conseguiram me convencer a fugir com eles em uma das atividades. Não sei se foi o desejo de experimentar algo novo ou a certeza de que ela estaria lá, nunca vou saber o que me levou a acompanhá-los. Provavelmente um pouco dos dois.
Meu sentimento por ela? Obviamente que ainda existia. E me consumia quase que como um incêndio em folhas secas. Uma pequena fagulha já seria suficiente para um grande desastre. E naquele dia, só foi necessário um pouco de privacidade. Duas guaxinins sozinhas, o que poderia dar errado? Meio que numa atitude irracional, eu me aproximei dela, sem jeito. Ela, por sua vez, não recuou. Beijá-la parecia tão certo, que foi o que eu fiz. Ela retribuiu. Sentia como se houvesse um incêndio dentro de mim, e era a melhor sensação possível.