O buraco negro era algo assombroso de se observar. Uma gigantesca espiral em lento movimento, com inúmeras cores alaranjadas, douradas e até mesmo azuladas se misturando ao escuro profundo que era predominante. Inúmeros pontos brilhantes que eram atraídos até o centro adicionavam uma beleza ainda maior ao evento.
Apesar dos pesares, Icaro sentia-se grato por ao menos ter o privilégio de contemplar aquilo. Um massivo e expansivo buraco negro, engolindo toda uma galáxia. Mesmo longe como estavam, não se perdia detalhes, a magnitude do evento preenchendo toda vista que era possível ter da pequena nave.
O tripulante solitário contemplava pela ampla janela de sua cadeira de comando, com um misto de fascínio e espanto, toda a movimentação cósmica que formavam o turbilhão, sentindo-se miseravelmente pequeno e insignificante. A nave onde estava, um ponto diminuto entre planetas e asteroides, estrelas e cometas viajantes, pairava quase sem propósito.
Gostava de começar seus dias assim, observando tudo aquilo enquanto tomava uma boa xícara de café, sentado em sua confortável cadeira de comando. E gastava facilmente neste ritual quinze ou vinte minutos, quando o café em sua xícara se esgotava, trazendo-o de volta de seus devaneios.
Levantou-se vagarosamente, as juntas estalando em protesto. Deixando tudo aquilo de lado, checou os status do cérebro artificial que coletava dados do buraco negro, analisando cada milésimo de segundo daquele evento. Era para isso que Icaro estava ali. Enquanto a máquina calculava e coletava, analisava e observava, usando todo seu poder de processamento, cabia ao humano manter as coisas em ordem.
Checou os níveis de energia. Algumas baterias estavam baixas, demandavam troca. Checou um relatório da parte mecânica do computador, que acusou circuitos queimados e placas lógicas precisando de manutenção. Os relatórios da nave mostravam falha no sistema de refrigeração e na captação de energia pelos painéis solares.
Seria um belo dia de trabalho. Primeiro, foi até o sistema de refrigeração da nave, uma pequena sala que gostava de chamar de câmara fria, responsável por manter a temperatura regulada em todos os setores. Desmontou alguns rotores que estavam funcionando abaixo do esperado, lubrificou as peças e remontou o sistema, que passou a funcionar de forma mais satisfatória.
Vestiu o traje externo, um grande macacão branco que o fazia se sentir um boneco inflável. Sair da nave era algo que demandava tempo e paciência. Ajeitou a mochila propulsora nas costas, fixou bem o cabo de segurança em sua cintura e se lançou na escuridão do vazio. Os painéis solares precisavam de manutenção constante, algo minucioso e demorado. Mas Icaro era hábil com as mãos, terminando o trabalho sem maiores problemas.
De volta ao interior da nave, sentiu-se grato por retirar todo o equipamento externo. Mantinha consigo um relógio de pulso, das antigas, ainda de ponteiro, que marcavam onze horas. Não se lembrava de qual fuso era aquele horário, mas utilizava-o para orientar toda sua rotina.
Foi até a cozinha, preparar seu almoço. Com o avanço da exploração espacial, o incremento da gravidade artificial, passou a ser possível cozinhar no espaço. Icaro sentia-se grato por isso, embora suas opções de alimento fossem reduzidas a pequena horta que mantinha em uma estufa artificial e seu bem suprido estoque de alimentos em conserva. Mas legumes e vegetais cozidos com carne em conserva eram melhores que ração em tubo.
Após a refeição, continuou a ler seu livro. Era uma história interessante, envolvia grandes reis, dragões, princesas e heróis. Leu por aproximadamente uma hora, e então deu continuidade aos serviços do dia.
Trocou as baterias que mantinham todos os sistemas da nave funcionando. Elas eram recarregáveis, utilizando a energia solar para isso. Depois, desmontou a central do computador, reparando os circuitos defeituosos e trocando as placas lógicas que haviam estragado. Eram os dois serviços mais importantes, e que demandavam mais tempo. Quando por fim terminou, seu relógio de pulso marcava quatro e meia da tarde. Em alguma cidade, era uma bela tarde agradável.
Foi então se exercitar. A nave, apesar de pequena, era muito bem equipada, trazendo em uma de suas salas vários tipos de equipamento para ginástica e musculação. Era bom manter o corpo em forma, especialmente na gravidade artificial da nave.
Depois disso, foi até sua estufa, onde dedicou uns bons quarenta minutos cuidando de suas plantas, até mesmo conversando com algumas. Já aproveitou e apanhou alguns rabanetes frescos, ideais para o jantar.
Depois de comer, praticou um pouco seu talento com o violão. Estava melhorando notavelmente. Quando seu relógio marcou nove da noite, encheu um copo de whisky e sentou-se outra vez, observando o gigantesco evento que enchia sua vida de propósito. As dez e meia, como todas as noites, ia pra cama, a mente um pouco turva, as ideias se embaralhando, caia na cama e tinha uma bela noite sem sonhos...
Uma noite abstrata, delimitada por seu relógio de pulso. Em algum lugar, uma linda noite de verão chegava ao fim. E assim terminava mais um dia de sua vida...
Ícaro despertou, como sempre, quando o relógio marcava 7:30 da manhã. Mas é claro, não era exatamente manhã no pedaço vazio do espaço em que sua nave estava. Sentou-se como de costume na cadeira de piloto, com bastante café e um fascínio mórbido pelo evento estudado por seu computador.
Ficou ali observando, até que não houvesse mais café para ser tomado. Começou então suas checagens de rotina, que lhe revelaram uma necessidade de troca de baterias, manutenção em circuitos, manutenção no sistema de refrigeração e realinhamento de painéis solares.
Concertou o sistema de refrigeração. Botou o traje externo. Realinhou os painéis solares. Refogou legumes para o almoço. Continuou seu livro. Sua manhã estava concluída.
A tarde seguiu a todo vapor. Trocou baterias. Fez reparo em circuitos. Fez seus exercícios. Cuidou da sua pequena horta, aproveitando para fofocar um pouco com as verduras. Jantou, uma bela salada temperada acompanhada de carne em conserva. Tocou violão. Quando se deu conta, já estava esvaziando uma garrafa de whisky sentado na poltrona, olhando para o evento.
Dormiu. Acordou. Café, relatórios, manutenção do sistema de refrigeração, manutenção nos painéis solares. Pausa para o almoço. Leu seu livro. Manutenção nas baterias, manutenção nos circuitos. Exercícios. Conversou com sua pequena horta. Jantou mais uma salada. Violão. Devaneio. Dormiu. Acordou. Café novamente. Mais manutenção no sistema de refrigeração. Outra vez botou o maldito traje externo. Fez o que tinha que fazer nos painéis solares. Almoçou. Seu livro começava a irritá-lo, os personagens pareciam idiotas demais, o autor enrolava demais. Trocou as baterias, consertou os circuitos. Exercícios, um pouco de conversa com as plantinhas. Jantar, outra salada. Violão. Whisky, muito Whisky. Dormiu. Acordou...
Naquele dia, embora não soubesse exatamente que dia exatamente era aquele, se permitiu acordar um pouco mais tarde. Em algum lugar era uma bela manhã, com um agradável sol matutino dispersando a neblina da noite anterior. Mas não ali. Ali naquele meio do nada eram 8:30 de acordo com um estúpido relógio de pulso.
Bebeu uma água escura que tinha a ousadia de se passar por café. Enquanto observava o evento, percebeu o quanto o odiava. Odiava do fundo do coração aquele tom de laranja. O maldito computador ainda calculava e analisava. Talvez estivesse travado.
Puxou seus relatórios, sem prestar mesmo atenção nos detalhes. Já imaginava o que precisaria fazer do seu dia. Consertou o sistema de refrigeração. Isso era importante. O computador não gostava de sentir calor enquanto calculava.
Pensou em se lançar lá fora sem o desconfortável traje externo. Mas o que isso lhe causaria? Talvez morresse... imaginou se os legumes de sua estufa iriam sentir sua falta, sem terem com quem fofocar. Mas quando se deu conta, já estava lá fora, com toda a parafernália equipada e trabalhando nos painéis.
Preparou o almoço. Percebeu que não tinha lá muita fome. A comida parecia papel na sua boca. O livro o deixou de mau humor. Mas aí se deu conta de que estava quase terminando a parte chata. O final seria bom. Sabia disso pois já havia lido aquele livro. Era o único livro que tinha ali. Precisava aguentar firme os devaneios do autor sobre uma sociedade que não demonstrava emoções com expressões, mas com gestos... por que ele achou que isso seria interessante depois de setecentas e muitas páginas?
Trocou as baterias que haviam descarregado. Imaginou se o sistema que as recarregava não estava defeituoso. Vai ver o computador estivesse na verdade desligado. E ele trabalhando igual um idiota. Pensou profundamente nisso enquanto consertava os circuitos. E enquanto se exercitava. Seria tudo aquilo uma bela perda de tempo?
Resolveu expor as ideias aos legumes. Na estufa, contou para eles o que havia pensado. Contou quais eram seus medos. Mas aqueles carinhas enterrados estavam silenciosos naquele dia e não disseram nada. Pensando bem, eles sempre estiveram muito quietos. Icaro os deixou plantados, indignado demais para se despedir.
O jantar não fora melhor que o almoço. E notou que estava desleixado com o violão, mais parecendo dois gatos brigando do que uma música. Novamente olhava para o buraco negro. Praguejou, gritou insultos e foi dormir. Eram onze horas, uma bela noite de inverno em qualquer outro lugar que não fosse ali.
Acordou. Os ponteiros marcavam 7:30. Sentia-se cansado, muito cansado. Quando se deu conta, fazia manutenção do sistema de refrigeração. Não que houvesse perdido algo importante. Mas queria ter saboreado melhor o café. Quando seguia para colocar o traje externo, o relógio marcava dez em ponto. Não prestou muita atenção nos painéis, nem no almoço. Muito menos no livro. A parte chata ainda continuava.
Trocou as baterias. Consertou os circuitos. Seguia para sua pequena academia particular, quando olhou para o relógio. Dez em ponto. Botou o traje externo e se lançou lá pra fora realinhando os painéis. Fez um almoço rápido, não estava com fome. Leu seu livro sem prestar muita atenção. Trocou as baterias. Olhou para o relógio. Dez em ponto.
Em algum lugar era uma bela manhã. Mas não ali. Ali era hora de arrumar os painéis solares. Colocou o traje. Fez o serviço. Almoçou. Dez em ponto. Colocou o traje. Dez em ponto. Colocou o traje...
Já havia arrumado os painéis umas quatro ou cinco vezes quando se deu conta de que seu relógio estava parado. Em algum lugar seriam que horas? Quanto tempo se passara desde que o relógio congelou no tempo? Que horas eram agora? Qual tarefa viria a seguir?
Aquilo foi demais para Icaro. Arrancou o relógio de seu pulso com brutalidade e o atirou contra a parede mais próxima. Em seguida, correu até sua estufa. Seus queridos vegetais teriam a resposta para aquela situação. Irrompeu pelo pequeno espaço climatizado, perguntando de forma frenética que horas seu relógio deveria marcar.
Perguntou, gritou, berrou, e como não houve resposta, surtou. Arrancou as beterrabas, pisoteou as alfaces, destroçou as cenouras... em poucos minutos havia destruído tudo. A satisfação que sentiu o deixou eufórico e enquanto ria histericamente, saiu da estufa, correndo feito um louco.
Apanhou uma barra de ferro qualquer e com ela começou a golpear a grande e irritante máquina do sistema de refrigeração. Destruiu tubos que liberaram uma fumaça branca e gelada, quebrou painéis que começaram a entrar em curto, bateu tanto na máquina que a barra em suas mãos se dobrou.
Não estava satisfeito ainda. Foi até o maldito traje externo. E com todo o prazer sádico do mundo, o despedaçou, apreciando cada pequeno corte, cada parte arrancada. Nunca mais teria que vestir aquele trambolho desconfortável e isso o fazia se sentir bem!
Aproveitando o embalo, encontrou outra barra de ferro qualquer, foi até a estação de comando, onde o computador continuava em seu absoluto silêncio, e golpeou os terminais. Alguns estouraram em faísca e vidro, outros irromperam em uma fumaça preta e escura.
Por fim, destruíra toda sua estação de comando. Lançou a barra o mais longe que conseguiu, deitou-se no chão abraçando seus joelhos e chorou copiosamente.
Os buracos negros eram eventos ainda não compreendido pela humanidade. Em teoria, podia ligar dois pontos distantes do universo, como um portal. Icaro havia sido puxado por um massivo buraco negro enquanto fugia das forças do império. Tudo acontecera tão rápido que ele mal havia entendido o que acontecera. Não sabia dizer se havia entrado mesmo na coisa, ou só chegado muito perto.
Mas havia sido lançado em uma galáxia totalmente desconhecida. Desde então a inteligência artificial de sua nave usava todo o poder de processamento para calcular uma forma de voltar para casa. A máquina poderia ficar trabalhando por muitos anos ainda, só restando a Icaro a esperança de que um dia ela conseguisse.
Levantou-se contemplando toda a destruição que causara. Estava mais calmo. A primeira coisa que fez foi encontrar seu relógio. Tudo dependia dele. Por sorte, as engrenagens estavam apenas enguiçadas, e logo estava funcionando outra vez.
Para não enlouquecer, Icaro criara uma lista de tarefas, que ele chamou de Roteiro. Isso ocupava sua mente, criando uma rotina que o impediria de enlouquecer, embora a própria rotina o fizesse surtar em algum momento. Parte das tarefas do Roteiro nem eram realmente necessárias, mas serviam para preencher seu tempo.
No atual estado da nave, um novo Roteiro deveria ser criado. Achou aquilo ótimo, já havia se cansado do anterior. Já era o quinto Roteiro, e analisando a destruição, Icaro concordou que aquele fora o pior de todos.
Começaria o dia tomando seu café e observando o evento. Depois, iria reparar o sistema de refrigeração que havia destruído. Na sequência, faria os reparos nos terminais de sua central de comando, talvez até mesmo redecorasse o lugar. Depois do almoço, iria cuidar das baterias. Riscou os circuitos e os painéis solares deste Roteiro. Iria consertar o traje externo, talvez redesenhá-lo para não ser tão incômodo. Também queria refazer sua horta, pensando em ampliar a estufa. Faria seus exercícios, depois do jantar não iria ler mais, nem praticar violão. Ao invés disso, iria desenhar e assistir alguma coisa que tivesse nos inúmeros hds dos computadores.
Seria uma bela rotina. Mas o relógio marcava dez horas. Em algum lugar, uma bela noite de verão, com uma linda lua cheia. Talvez algum dia conseguiria voltar para casa. Mas enquanto isso, havia trabalho a ser feito. Depois é claro, de uma bela noite de sono. No fundo do coração, amava e odiava aquela rotina.