Nós somos lambedores de cicatrizes, temos corpos grandes. O colchão ficava pequeno, nem respirar dava, mas a gente se abraçava, até o abraço ficar dormente, até deixar de ser.
E então você se virava, com todo o direito que se tem de dormir bem, e eu por algum motivo, sempre deixava mais espaço pra você. Minhas coxas beijavam o azulejo frio, mas tudo bem, estávamos a salvo. Dois corpos quentes, num rio abastecido de um possível contentamento.
E agora, sabe, minha coluna dói menos quando durmo em minha própria cama, me sinto menos morta quando estou sozinha dentro de todo o meu vazio.
Fico me indagando se é o mesmo com você.
Como eu poderia saber?
Como você poderia saber?
A ausência do essencial, é a nossa mais dolorida morte.