Os cachos estavam amassados, a maquiagem borrada e a pele marcada pelas mãos dos clientes. Roxanne era uma mulher de pele dourada, convidativa, bunda grande e seios medianos, cabelos longos, cheios de cachos que iam até metade das costas, pretos como a noite que a acolhia todos os dias, olhos amendoados com um quê de inocência e sensualidade inimagináveis, lábios cheios sempre pintados de vermelho sangue. As mãos finas com unhas compridas sempre seguravam um cigarro de boa qualidade, que levava aos lábios sempre que sentia uma lágrima querendo escapar de seus belos olhos. Os clientes a adoravam; o ar latino da mulher realmente cativava, assim como seu rosto bonito e muito bem delineado. “Feita por Deus, melhorada pelo Diabo", um cliente chegou a dizer.
Roxanne sabia que sua vida não era fácil, porém era necessária. Precisava se sustentar, pagar suas contas, ainda mais depois da decepção e traição que teve em sua adolescência, quando ainda era ingênua e pura.
Ele estava no mesmo lugar de sempre, estacionado frente ao prostíbulo que a jovem de olhos amendoados ia todas as noites dos fins de semana trabalhar; a jovem que despertava seus desejos mais primitivos e também seu amor. A via requebrando os quadris largos no vestido curto e saltos pontudíssimos, a maquiagem amadora destacando as belas feições, sempre iluminada pela luz vermelha do local. Já haviam passado algumas noites juntos, trocado beijos apaixonados e juras de amor enquanto embriagados por uma bebida qualquer de um estabelecimento barato. Mas quando acordou, ela não estava mais em sua cama, não havia deixado resquícios de sua presença; a não ser pelas marcas no corpo e mente do homem com quem passara a noite.
De pele bronzeada e lábios cheios, ela chamava a atenção de muitos homens no local, que a viam, literalmente, como um depósito para suas frustrações e noites mal resolvidas com a esposa. Ele não suportava a ver com outros homens – homens esses mais velhos, alguns que ele mesmo conhecia, homens de negócios, casados, com família -, andando nas ruas frias em busca de dinheiro, sensualizando e realizando fantasias para ter que pagar as contas e se sustentar. Ele queria fazê-la entender o amor que sentia por ela, queria protegê-la e ajudá-la, mas Roxanne não deixava.
Já fora muito machucada na vida, enganada por quem mais amou e deixada na situação crítica que vivia. Não queria se envolver com mais ninguém, afinal, jamais amariam uma puta como ela; mas ele amava. Amava mais do que imaginava, mais do jamais amou outro alguém.
- Você não liga se isto é errado ou se isto é certo? – perguntou num fio de voz, enquanto retirava alguns fios grossos de cabelo do rosto da mulher.
- Não – respondeu também num fio, evitando o olhar profundo do homem que a prometia uma vida nova, um amor.
- Não vista este vestido hoje à noite. Fique comigo. – encostou sua testa na dela, fechando os olhos e suplicando para ela. A queria para si. Queria acordar com ela todas as manhãs ao seu lado, com os cachos bagunçados e o sorriso maravilhoso dela. Queria cuidar dela, como aquele outro merda não havia feito – o ex da jovem havia a deixado com dívidas e cicatrizes impossíveis de curar.
Roxanne não sabia o que dizer. Queria chorar e abraçá-lo, beijá-lo como jamais beijou outro alguém, mas não conseguia. O maldito homem que acabou com sua vida ainda no auge de sua adolescência ainda estava vívido em sua mente, lembrando-a constantemente que não podia confiar em ninguém, não mais. Nunca.
- Eu... – balbuciou, sem encontrar as palavras certas. Quais eram elas, afinal? Amava-o, fato, mas poderia confiar novamente em alguém? Assim como confiou no passado? Tinha medo de tudo se repetir. Mas ele era diferente, não era?
Levou o cigarro aos lábios e tragou, soltou a fumaça junto ao vento frio da noite que a acolhia todo final de semana – nos dias comercias era apenas uma jovem atendente de telemarketing na pequena cidade vizinha que mantinha a fachada de boa moça. Seus olhos, marcados pelo preto da maquiagem, estavam fixos no local onde ele sempre estacionava e a esperava. Sabia que ele logo chegaria – sempre chegava. As unhas vermelhas e compridas contrastavam com o vestido preto justo, marcando o corpo bronzeado e curvilíneo que ela possuía. Sorriu minimamente quando reconheceu o carro do homem virando a esquina e estacionando calmamente – estava ansiosa para vê-lo. Após tragar uma última vez e soltar a fumaça calmamente, jogou o cigarro num bueiro qualquer e seguiu desfilando até o carro – precisava fingir que era apenas um cliente costumeiro, tentava fazer si mesma acreditar nas próprias palavras. Os saltos finos faziam um barulho comum àquela região até a porta do carona, que já estava destrancada. Entrou sensualmente, empinado a bunda gorda e estufando o peito, mas assim que sentou no banco, bateu a porta e encarou aqueles olhos verdes que tanto gostava, sua pose de puta gostosa e quente caiu por terra. Aquele homem de cerca de 30 anos, cabelos lisos, olhos verdes como aquarela e ombros largos a deixava de queixo caído e pernas bambas. A barba por fazer e a camisa sem três botões na casa a deixavam desnorteada, doida para montar nele e bagunçar aquele cabelo sempre perfeito, beijá-lo até perder o fôlego. A vontade de tê-lo sexualmente só não era maior que a de abraçá-lo e chorar em seu ombro como uma criança traumatizada e confessar seu amor, seus desejos e seus maiores medos. E ele sabia disso, sabia de seus traumas, inseguranças e desejos. E, principalmente, sabia que não poderia deixá-la escapar – queria aquela mulher tanto quanto ela o queria. E precisava da resposta para a questão que havia levantado há cerca de dois meses atrás.
- Está disposta a largar tudo isso, meu amor? Está disposta a lutar por nós? – perguntou baixo, principalmente as palavras carinhosas, enquanto movimenta seus dedos circularmente pelas costas nuas da mulher e beijava sua testa suavemente. Tão linda...
- Você sabe que não posso te responder isso. - Ajeitou-se no abraço quente do homem, encaixando sua cabeça no peito do mesmo – Pelo menos não agora...
- Eu sei que estou decidido. Eu te amei desde o dia que te conheci, mas eu não tinha coragem de falar com você e... – fez uma pausa, procurando as palavras certas, sempre cauteloso para não afastá-la, temendo o pior – Eu tenho que falar como me sinto.
Ela o olhou, cautelosa, os olhos amendoados doces, não parecendo pertencer a uma mulher da vida. O corpo curvilíneo emaranhado às cobertas e ao corpo firme do homem que a olhava com paixão e a segurava como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo – e, para ele, de fato era. Assim como a mais linda, fazia questão de ressaltar a ela sempre.
- Eu te amo, Roxanne. Muito. Por favor, não duvide desse meu amor, nosso amor. – Ele podia jurar que viu os olhos dela marejarem e um sorriso se formar em suas feições bem delineadas. Ela o amava.
- Não será fácil – disse mais para si mesma do que para ele, mas ele a ouviu.
- Eu nunca disse que seria – ajeitou uma mecha dos cabelos escuros dela, olhando com uma intensidade jamais demonstrada. Ele era assim: intenso, impulsivo, tinha o defeito de amar demais. – Nós podemos fazer dar certo. Juntos.
Roxanne ajeitou os cabelos com as mãos trêmulas, o olhar sempre evitando o dele. Já tinha sua resposta, mas como dá-la? Como dizer a ele que o amava? Como ela poderia ser amada por alguém como ele, primeiramente? Foi invadida pelo nervosismo e insegurança de uma adolescente inexperiente em frente ao crush. Aquilo não era comum à ela, há muito, muito tempo.
- Olhe pra mim – disse suavemente enquanto virava o rosto da jovem para encará-lo. Ela desviou o olhar mesmo assim, encabulada, ainda meio imersa em seus próprios pensamentos. – Você tem sua resposta?
- Tenho – disse, surpreendentemente, de forma firme, parecendo ter tomado consciência da situação e do aquilo representava. – Eu quero ficar com você. Eu cansei de me esconder, de tentar evitar isso. Eu tô cansada dessa merda de vida, desses filhos da puta que vêm aqui todos os dias com o mesmo sorriso nojento de sempre nos foder. Eu cansei. – uma lágrima escorreu, e ela pousou uma das mãos finas e frias na bochecha marcada do homem. – Eu quero você, só você. Independente dos riscos e das merdas que podem querer falar. Eu tô pouco me fodendo. Eu amo você, por mais improvável e clichê que isso seja...
O sorriso dele era nítido, chegando até os olhos bonitos, cheios de amor por aquela mulher. Jamais imaginou amar uma moça como ela, uma vadia, como sua mãe faria questão de ressaltar se estivesse viva. Fora criado numa família de classe média, extremamente conservadora por parte do pai, principalmente, que sempre fora severo na educação do único filho homem; queria ele um homem decente, de negócios, que não levasse qualquer uma para casa. O que seu velho pensaria de si? Ele não se importava, não quando a puxou para um beijo, tentando transmitir toda a felicidade que estava sentindo. Aquela mulher era certa demais aos seus olhos, perfeita para si. E todo aquele caso deles parecia mais um filme antigo falando de um amor impossível que via quando era um adolescente internamente rebelde, sonhando com o dia que viveria um romance assim. Ele era, de fato, um romântico extremamente clichê.
E ali estava ele, beijando Roxanne, jurando seus amor à ela entre beijos e sorrisos apaixonados, apertando-a contra si e imaginando seu futuro junto àquela mulher dos olhos felinos, cabelos cheios e pele dourada que o cativara desde o primeiro olhar. Sua mão branca emaranhou-se aos cabelos dela, aprofundando o beijo e a puxando para seu colo. Era uma posição levemente desconfortável por conta do espaço pequeno entre seus corpos excitados e o massivo volante do carro, mas não importava. Nada importava naquele momento. Depois de muitas juras de amor e olhares apaixonados, iriam para o apartamento dele, certamente. Iriam começar a nova jornada que, em momento algum, seria fácil. Mas estavam dispostos a lutar. Sempre.
Estavam Juntos, finalmente. Roxanne teve o final feliz com o qual sempre sonhou. Era sim, afinal, uma merecedora do amor.