führe mich
flamelily
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 18/03/18 14:55
Editado: 26/03/18 22:57
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 4min a 5min
Apreciadores: 7
Comentários: 5
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Palavras: 700
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Capítulo Único führe mich

i.

a primeira vez que nerio o encontrou era outono. o vento era gelado e o céu não passava de uma pintura melancólica sem feixe de vida. o ar tinha cheiro de incenso e rosas vermelhas, mas nerio deduziu que o aroma suave proviesse dali da lojinha de especiarias que se ligava à própria casa.

o problema é que a loja estava fechada e as luzes apagadas e ainda assim ele conseguiu se infiltrar nas entranhas de um momento solitário e vazio num redemoinho plúmbeo de cheiro de incenso. ele usava roupas coloridas, em quê de cigano instigante, mas a expressão era sem vida. abaixo dos olhos haviam bolsas arroxeadas. olheiras eram feias, porém o rosto era bonito. o rapaz passou pela porta trancada de uma forma que não conveio ser explicada, pois não havia como fazê-lo, e derrubou a plaquinha de bem-vindo ao entrar. o sino da porta não tocou. mas aí, novamente sem causa, o incenso se apagou naquele exato momento e só deixou um rastro de perfume de flores no ar junto aos três graus de temperatura que pareceu cair.

era uma bela figura, o rapaz. ele e nerio trocaram um olhar especulativo, numa avaliação mútua porém silenciosa, e, tão logo ele apareceu, a única lembrança de sua existência foi um coração batendo forte dentro de um peito dolorido e uma mão trêmula que por muito pouco não derrubou a caneca de café.

a bebida era tão preta quanto o cabelo dele.

ii.

a segunda vez foi no inverno. nesta noite chovia. havia o som dos pingos contra a janela e novamente o café presente pingando do passador para o bule. nerio estava na cozinha, embolado numa camisa de lã grande demais para o próprio corpo, mas não sozinho. o rapaz estava para além da janela sem cortina e embora não usasse guarda-chuva, a água parecia temer sua existência e portanto o evitava ao cair dos céus. o cabelo de café estava tão seco quanto na tarde de outono e a expressão permanecia a mesma; olhos de faca que retalhavam a alma e lábios rosados que davam vontade de sentir com a língua. ele tinha uma pinta abaixo do olho direito e unhas curtinhas com metade de um esmalte preto que um dia já esteve intacto. talvez na estação anterior. e então tinha o cheiro de rosas também o cheiro que parecia ultrapassar o vidro e imbuir as vias respiratórias de nerio, deixando somente como recordação sentidos inebriados e um calor não muito reconfortante no meio das pernas e na curvatura do pescoço.

o lojista terminou a noite com as bochechas da cor dos lábios cor-de-rosa.

ele não tomou o café recém-passado por medo de derreter com a própria temperatura.

iii.

foi na primavera que o rapaz sumiu. nerio o aguardou todos os dias e a esperança de sua aparição acabou ficando para o verão de clima de casamento de viúva. as plantas há pouco tinham nascido e nerio havia plantado rosas vermelhas no quintal de casa e enchido as prateleiras da loja. o incenso era de morango com champanhe. ele substituiu o café, pois o café o recordava do cabelo de mesma cor do rapaz e o verão o forçava a beber limonada.

nerio odiava limonada.

iv.

o nome do rapaz era acheron, nerio descobriu. mas só no outono do ano seguinte. ele jogou os incensos de morango com champanhe no lixo e retornou a queimar os de rosas. a lojinha estava novamente fechada, mas a passagem para a sala de estar, uma portinhola entre duas estantes, nunca foi fechada.

acheron o visitou pela terceira vez. “você não deveria me ver,” ele disse. a voz era rouca apesar de suave. parecia machucar a garganta ao ser exposta.

nerio franziu o cenho.

“há coisas no mundo,” continuou acheron, “que não estão aqui para ser vistas. mas você é diferente.”

nesta noite nerio descobriu que de delicado o rapaz nada tinha porque acabou se excedendo ao deitar-se com um íncubo que salivava por sexo.

inconscientemente, ele também salivava.

v.

no segundo inverno, nerio permitiu entrada livre para a própria casa,

e foi durante as duas estações mais frias de todos os anos que o corpo dele mais queimou.

❖❖❖
Apreciadores (7)
Comentários (5)
Postado 19/03/18 15:43

Terrivelmente Lindo

Postado 26/03/18 20:42

aaaa muito obrigada!

Postado 26/08/21 23:17

Caramba! Eu não esperava por esse final~~

Que obra! Que desenvolvimento apaixonante! Que personagens mais agradavéis... e que final mais quente, hahahahah.

Como leitora eu fui ficando cada vez mais curiosa sobre o rapaz de cabelos negros e o amor a primeira vista do lojista — lojista esse que tomei a liberdade de imaginar usando óculos e de cabelos ruivos —, conforme a situação vai se desemrolando e o climax chega, você fica enbasbacado.

Pergunta rápida, esses nomes são bastante diferentes, de qual origem vem?

Agradeço por compartilhar sua obra, eu me apaixonei por esse casal!!!

Assinado uma pequena vampira, <3

Postado 14/10/22 21:38

Mas gente, eu não imaginava que seria assim. Gostei bastante do desenvolvimento da trama.

Parabéns!

Postado 15/10/22 14:07

Que história bem construída!

Que personagens interessantes!

E que nomes maravilhosos!

Muito bom! Gostei <3

Postado 19/10/22 00:02

Tudo é muito bem construído e elaborado nessa obra. Sua escrita é daquelas que encanta.

Obrigada por compartilhar conosco!​​​

​​Parabéns ♥