i.
a primeira vez que nerio o encontrou era outono. o vento era gelado e o céu não passava de uma pintura melancólica sem feixe de vida. o ar tinha cheiro de incenso e rosas vermelhas, mas nerio deduziu que o aroma suave proviesse dali da lojinha de especiarias que se ligava à própria casa.
o problema é que a loja estava fechada e as luzes apagadas e ainda assim ele conseguiu se infiltrar nas entranhas de um momento solitário e vazio num redemoinho plúmbeo de cheiro de incenso. ele usava roupas coloridas, em quê de cigano instigante, mas a expressão era sem vida. abaixo dos olhos haviam bolsas arroxeadas. olheiras eram feias, porém o rosto era bonito. o rapaz passou pela porta trancada de uma forma que não conveio ser explicada, pois não havia como fazê-lo, e derrubou a plaquinha de bem-vindo ao entrar. o sino da porta não tocou. mas aí, novamente sem causa, o incenso se apagou naquele exato momento e só deixou um rastro de perfume de flores no ar junto aos três graus de temperatura que pareceu cair.
era uma bela figura, o rapaz. ele e nerio trocaram um olhar especulativo, numa avaliação mútua porém silenciosa, e, tão logo ele apareceu, a única lembrança de sua existência foi um coração batendo forte dentro de um peito dolorido e uma mão trêmula que por muito pouco não derrubou a caneca de café.
a bebida era tão preta quanto o cabelo dele.
ii.
a segunda vez foi no inverno. nesta noite chovia. havia o som dos pingos contra a janela e novamente o café presente pingando do passador para o bule. nerio estava na cozinha, embolado numa camisa de lã grande demais para o próprio corpo, mas não sozinho. o rapaz estava para além da janela sem cortina e embora não usasse guarda-chuva, a água parecia temer sua existência e portanto o evitava ao cair dos céus. o cabelo de café estava tão seco quanto na tarde de outono e a expressão permanecia a mesma; olhos de faca que retalhavam a alma e lábios rosados que davam vontade de sentir com a língua. ele tinha uma pinta abaixo do olho direito e unhas curtinhas com metade de um esmalte preto que um dia já esteve intacto. talvez na estação anterior. e então tinha o cheiro de rosas também — o cheiro que parecia ultrapassar o vidro e imbuir as vias respiratórias de nerio, deixando somente como recordação sentidos inebriados e um calor não muito reconfortante no meio das pernas e na curvatura do pescoço.
o lojista terminou a noite com as bochechas da cor dos lábios cor-de-rosa.
ele não tomou o café recém-passado por medo de derreter com a própria temperatura.
iii.
foi na primavera que o rapaz sumiu. nerio o aguardou todos os dias e a esperança de sua aparição acabou ficando para o verão de clima de casamento de viúva. as plantas há pouco tinham nascido e nerio havia plantado rosas vermelhas no quintal de casa e enchido as prateleiras da loja. o incenso era de morango com champanhe. ele substituiu o café, pois o café o recordava do cabelo de mesma cor do rapaz e o verão o forçava a beber limonada.
nerio odiava limonada.
iv.
o nome do rapaz era acheron, nerio descobriu. mas só no outono do ano seguinte. ele jogou os incensos de morango com champanhe no lixo e retornou a queimar os de rosas. a lojinha estava novamente fechada, mas a passagem para a sala de estar, uma portinhola entre duas estantes, nunca foi fechada.
acheron o visitou pela terceira vez. “você não deveria me ver,” ele disse. a voz era rouca apesar de suave. parecia machucar a garganta ao ser exposta.
nerio franziu o cenho.
“há coisas no mundo,” continuou acheron, “que não estão aqui para ser vistas. mas você é diferente.”
nesta noite nerio descobriu que de delicado o rapaz nada tinha porque acabou se excedendo ao deitar-se com um íncubo que salivava por sexo.
inconscientemente, ele também salivava.
v.
no segundo inverno, nerio permitiu entrada livre para a própria casa,
e foi durante as duas estações mais frias de todos os anos que o corpo dele mais queimou.