Quando éramos jovens... Até hoje consigo me lembrar do sol daquela tarde, do aroma fresco das folhas secas de outono que amareladas tocavam o chão, a tarde se tingia de laranja. Ah sim, era como seus cabelos, alaranjados e sedosos, os mais lindos que meus olhos já viram, e os mais macios que minhas mãos já tocaram. Ela sorria, o mais belo sorriso. Ela possuía o riso fácil, não precisava de muito para impressiona-la. Um simples abraço, um simples toque, um afago sutil, uma palavra boba, um copo de sorvete.
Ela sorria com qualquer gesto meu, qualquer frase minha. Meus poemas simplórios, minhas palavras afáveis, minhas juras no meio da noite, meus braços quentes que a envolvia, minhas ligações inesperadas no meio da madrugada. Ah quando éramos jovens e cheios de vigor. Sua risada ecoava invadindo meus ouvidos, quando no meio da tarde pegávamos nossa bicicleta e corríamos para qualquer lugar que fosse só nosso.
Me lembro bem que você roubava meus livros, e enquanto eu brincava com meus dedos nos seus embaixo do cobertor, você os lia silenciosa, eu apenas a observava. Sua beleza se acentuava ainda mais sob a luz do abajur. Hoje os livros estão amarelados, o tempo passou e nós não percebemos, não é querida? Estávamos tão preocupados nos amando que nem demos conta de que os cabelos brancos apareciam, que a pele aos poucos perdia sua beleza, e os passeios de bicicleta se tornavam mais cansativos. Ah quando éramos jovens e cheios de vigor...
Mas ainda assim, você continua a mesma. Seus cabelos ainda são os mais macios que eu poderia tocar, seu riso continua fácil, e minhas palavras bobas ainda a impressiona. Ah querida, me prometa que vamos nos encontrar logo do outro lado do rio. Prometa que seu sorriso será o mesmo.