Não havia mais ninguém no recinto
Quando ele se manifestou de súbito
Pois enquanto os demais dormiam
Ele permanecia acordado na escuridão
Sozinho.
Desde sempre foi assim. Exceto que...
Existia algo a mais ou a menos
Ocorrendo em seu âmago sombrio.
Contemplou tudo o que construiu
E o que ele próprio se tornara
Ao longo do tempo em que permaneceu
Usufruindo de todo aquele espaço
Que agora parecia-lhe desconhecido.
Cansaço? Desprezo? Apatia?
Não sabia. Só... Sentia
(Aquilo)
(A Doença?)
Como centenas de vermes se banqueteando
De uma alma e um coração
Em plena decomposição.
Não que tal sensação
Fizesse para outrem qualquer sentido:
Havia algo errado dentro de si
E não era culpa de ninguém;
Talvez, nem de si mesmo.
Olhou para aquele local
Que costumava ser um refúgio
E não encontrava mais seu lugar
Ali.
Fitou cada imagem dos semblantes
Que antes lhe pareciam próximos
E não conseguia mais reconhecer
Ninguém.
Encarou suas criações, uma centena delas,
E ao fazê-lo não conseguiu sentir mais
Nada.
Toda aquela carnificina e depravação
Outrora motivo de orgulho e celebração
Não lhe rendia mais uma pulsação
Sequer.
O desejo de silêncio, de distância, de abandono
Era tão dominante que parecia sempre ter estado lá,
Sussurrando como um velho demônio em seu ouvido
Tão eloquente,
Tão... Convincente.
Lembrou das promessas que fez
E percebeu que seria incapaz de cumprir
Todavia, o pior foi conceber
Que realmente não mais se importava
E que nem mesmo isso o demoveria:
Afastando-se de vez de seu reduto,
Encobriu tudo o que fizera com trevas
(As mesmas que vicejavam em su'alma)
Deixando uma única criação
(Última),
Abandonou seu Título
(Que nunca de fato almejou)
E apenas foi embora
(Sem olhar para trás):
O Inferno o aguardava
(Faminto e de braços abertos).