Os poucos pingos de antes eram agora uma chuva que fazia barulho no telhado e escorria pela calha, formando um pequeno riacho ao cair na calçada.
O jovem deitado abriu os olhos, em um misto de cansaço e resignação, e sentou-se na cama. O relógio na mesa marcava meia noite e quinze. Havia se deitado fazia quase duas horas, mas não conseguira pegar no sono. Isso sempre acontecia quando chovia.
Nesse momento, através da janela um relâmpago iluminou a noite, trazendo um flash fantasmagórico ao quarto na semi-escuridão. Com um suspiro, o jovem levantou da cama e foi até a janela. Abriu-a e sentiu o ar frio e úmido trazido pela chuva.
Pensou em como gostava da chuva antes. De correr todo molhado pelas ruas, de pular nas poças, de sujar-se de barro. De aconchegar-se no sofá, depois de um banho quente, comendo seu rámen. De dormir com o barulho das gotas de chuva embalando seu sono. Ah, ele adorava isso...
Mas tudo mudou. Naquele dia, estava chovendo. E, por isso, ele nunca mais gostou da chuva.
Ele nunca conseguiria esquecer aquele dia, mas, quando chovia, a lembrança era ainda pior. O barulho no telhado parecia seu coração naquele dia. O vento da chuva, por mais fresco que fosse, sempre lhe parecia ter cheiro de sangue. Os relâmpagos eram como aqueles olhos, que pareciam observá-lo com um estranho brilho. E os trovões... Os trovões lembravam seus próprios gritos de desespero.
Aquela guerra. Todas aquelas mortes. Toda aquela tristeza. E tudo por causa dele. Ele tentou de tudo para que as coisas acabassem de uma forma diferente. Tudo em vão.
Ele havia feito aquela promessa. Para sua amiga. Para o amor da sua vida. Uma promessa para si mesmo. Trazê-lo de volta. Foi a primeira e única promessa que ele não conseguiu cumprir.
A chuva caía, os relâmpagos riscavam o céu e os trovões ribombavam quando tudo havia acabado. Ele estava ali, de pé. E, à sua frente, estendido no chão, estava o corpo dele. Coberto de sangue. Ele mesmo também estava coberto de sangue. Com o sangue de seu amigo.
Um novo relâmpago o fez voltar ao presente. Sentiu seu rosto molhado e, ao tocá-lo com a mão, percebeu que eram suas lágrimas. Secou-as com o braço e, enquanto a chuva acalmava lá fora, ele fechou a janela e voltou para a cama.
Antes de fechar os olhos, ele imaginava se um dia seus amigos iriam perdoá-lo pelo que ele havia feito. Se um dia ela iria perdoá-lo. E será que ele, estivesse onde estivesse, o perdoaria?
- Era a única maneira de salvá-lo de toda aquela escuridão. – ele murmurou, pela milésima vez, tentando se convencer, enquanto fechava os olhos e, ouvindo os pingos no telhado, lembrou-se de como, antigamente, gostava da chuva.