Sobre a margem da janela, cabiam quatro cotovelos: dois de Arti e dois de Sila. Os irmãos gêmeos, um menino e uma menina, conversavam sob o céu já azul-escuro quase preto. “Sila, veja o quanto o Papai Noel deixa bonita a noite de 25 de dezembro. Olhe para o céu!”, disse Arti à irmãzinha, “O quê? As estrelas?”, ela respondeu, “Não são estrelas, Sila, são pisca-piscas de natal, e é o próprio Papai Noel que os pendura, amarrando uma ponta na lua lá em cima e outra no sol, que agora está no Japão, LÁ embaixo”, explicou Arti, “Uau”, mais milhares de pisca-piscas ligaram-se nos olhos dela nesse momento.
A casa estava decorada por fora com pisca-piscas percorrendo por todos os lados, contornando as janelas e terminando na pequena varanda quadrada, norteando a porta da frente. Dentro, somente uma árvore de natal, maior que a convencional na verdade, com um pequeno presépio ao lado. Sila, a mais nova, brincava com o bonequinho de porcelana do recém-nascido Jesus Cristo, até seu pai a pegar no colo e deitá-la na cama de cima do beliche que dividia com o irmão, o qual reparava, através da sua retangular janelinha particular, como a lua crescente no céu lembrava um trenó pra ele.
Assim que o primeiro pisca-pisca pareceu falhar e a lua firmou-se exatamente no meio do breu, Arti viu um raio de luz voar perto da sua janela particular quase que o cegando. O vidro faiscou nos olhos dele e se tornou quente ao toque do menino quando este foi se apoiar às cegas, tão quente que o menino deixou um grito ecoar pelas quatro quinas do quarto, e pelos ouvidos da irmãzinha, a qual acordou de imediato. “Papai Noel!”, foi a primeira coisa que fugiu da boca de Sila depois de ser despertada involuntariamente, “O quê?”, indagou Arti, e logo virou os olhos para o relógio digital no balcão encostado à cama: era meia noite. “Papai Noel”.
“Fique aí”, disse Arti, como o irmão mandão que era, para Sila, “e em silêncio”. A irmãzinha ficou ajoelhada no colchão de cima com as mãos segurando um pequeno corrimão de ferro que impedia ela de rolar um pouco mais pro lado e quebrar a cabeça no chão de noite, uma ideia muito eficiente da mãe. “Não abra meu presente”, disse ela baixinho o suficiente para Arti ouvir e os pais não, o irmão mais velho fez shhh com a boca e dobrou para o corredor. Não havia pisca-piscas no corredor nem depois do corredor para ajudar na iluminação do caminho, e naquela época não tinham inventado as lanternas dos celulares, muito menos os celulares. Arti, com a atenção e o foco que conseguia manter por muito mais tempo que o convencional, ouviu confusos ruídos intercalados e desejou que fosse mesmo o Papai Noel e não o seu típico papai, como seus amigos o disseram um dia. Na vez que Arti se pôs a espiar, da aresta da porta, a sala com a árvore de natal, ele deparou-se com uma figura que parecia mais uma rena do trenó do que o próprio Papai Noel: com a silhueta contornada pelas luzes dos pisca-piscas, a sua fisionomia era magra e saliente, ossuda quase que afiada; pela silhueta negra, com uma estranha luz a destacando de trás, o cabelo parecia longo e parecia usar uma espécie de manto quando Arti prestou mais atenção. Arti demorou a assimilar o que rondava pela sua sala mal enfeitada, mas, logo que seu senso de urgência acordou, ele disparou de volta ao quarto onde jazia Sila. A irmã permanecia estática em cima do beliche. Arti entrou correndo pela porta, “Sila, Sila, Sila”, disse o irmão ofegante perto de balbuciar, “O quê, o quê?”, ela perguntou rápido porque queria a resposta rápido, Arti tomou um tempo para recuperar um pouco de ar antes de continuar, “Como é o Papai Noel, Sila?”, ”O quê? Por que vo...”, “RESPONDA! RÁPIDO!”, “Ah...Ah....Pelo o que o papai me contou, ele é gordinho, barbudo e usa uma roupa toda vermelha com um cinto branco...Ah! E ele usa um chapéu...Não, Não, um chapéu não, um GORRO DE NATAL!”, finalizou a irmã. Arti, ainda recostado na porta, pausou para escolher as palavras mais diretas para Sila entender, “Então não foi o Papai Noel o que eu vi.”. Aquele era o fim do natal pros irmãos.
Depois do que Arti disse, o irmão mais velho subiu a escadinha do beliche e ficou abraçado com a irmã por alguns minutos na cama de cima, até eles ouvirem a voz mais afinada e perfeita de todos os mundos. Ela estava cantando uma composição musical que se podia ouvir pelos cinco sentidos do corpo, de tão maravilhosa que era, e estava vindo da sua sala. Os irmãos não resistiram, na verdade, ninguém resistiu. Todos os cristãos jornadearam em direção à casa de Arti e Sila. O bairro deles dali em diante seria a Meca cristã, e a sua casa a Caaba. Quando todas as almas que conservavam dentro de si sequer um pingo do espírito natalino estavam ao redor do pinheiro de natal dos irmãos, a figura sombria que Arti tinha visto antes revelou ser Jesus Cristo, o Seu Filho, e distribuiu presentes a todos, enquanto falava com um tom de voz baixo, limpo e equilibrado, quase severo, algo que todos escutaram minuciosamente:
- Espalhar o amor, o afeto e a união sempre foi rudimentar para Ele e para Mim. Todavia, Ele sabia, e Eu sabia que com nossos nomes não seriam todos, como sempre quisemos, que nos seguiriam nessa missão de propagar a irmandade e a paz. À vista disto, Ele e Eu nos tornamos a figura do Papai Noel, que sempre visou unificar todos os diferentes pontos de vista por apenas uma noite de festa e comemoração. Desde os primórdios deste feriado, fui eu quem entregou os presentes a todas as crianças. Exatamente por isso que nunca ninguém viu o Papai Noel, porque ele nunca existiu fisicamente. Vocês acham mesmo que um velho acima do peso caberia e DESCERIA por uma chaminé? – todos gargalharam genuinamente – Enfim – Jesus também riu um pouco e seguiu com o Seu sorriso – Venho-lhes avisar que nosso festival continuará para sempre do jeito que sempre foi, e que nos veremos da próxima vez que eu me deixar ser visto por alguma criança curiosa. Tenham todos um Feliz natal! – disse Ele rindo pouco, só que uma risada verdadeira e que todos gostaram de ouvir.
Após Jesus Cristo cessar sua fala e todos voltarem às suas devidas casas, Ele caminhou em direção a Arti e Sila, que já estavam em casa; o irmão presenteou Jesus Cristo com um biscoito e um copo de leite; a irmã o presenteou com o boneco do Jesus recém-nascido do presépio. Não era ouro, incenso e mirra, mas era o que tinha. Os três sentaram-se sob o pinheiro e conversaram:
- Sabe, Arti, você está certo. – disse Jesus.
- Sobre o quê? – questionou Arti.
- Sobre as luzes no céu, são pisca-piscas mesmo – Jesus riu alegre.
- Pisca-piscas tipo os da árvore de natal? – agora a pergunta advinha de Sila, a mais nova.
- Exatamente como os da árvore de natal, Sila – respondeu Jesus Cristo – Aliás, o pinheiro de natal é uma representação perfeita do céu, particularmente do céu sob o qual nasci, sabiam?
- Sério? – Indagaram os dois irmãos em uníssono.
- Sério. Se você puser o presépio de baixo da árvore pra mim, Sila, será melhor pra eu explicar. – foi o que Sila fez de súbito. Não era todo dia que Jesus te pedia um favor pessoalmente. – Vejam, o presépio vai embaixo, que representa o cenário onde nasci, junto aos presentes, que simbolizam, obviamente, os presentes dos Três Reis Magos. Acima, estão os pisca-piscas retratando as Estrelas daquela noite, e, mais pra cima ainda, é onde é posta a estrela, que significa a Estrela De Belém.