— Ryan, o sol nunca mais nasce. Ele está a fazer pouco de nós
Ryan arrastara Eleanor até ao rio Cam, com uma London Pride na mão e as chaves do carro da rapariga na outra. Tiveram de sair do Revolution, bar que costumavam frequentar, por serem as horas que eram, para que este fechasse.
Porque a amiga de longa data não estava em condições de conduzir, e porque dissera a Ryan que o queria fazer, depois de tentar fazer um quatro com as pernas e de falhar miseravelmente, este tirara-lhe as chaves do carro da mão e dissera que era uma melhor ideia irem ver o nascer do sol ao rio Cam.
Por isso, agora os dois amigos estavam sentados no centro de uma ponte de cimento, sobre o rio, cada um com uma London Pride na mão, suborno dos empregados do bar, para que saíssem deste.
— Ryan. Estou sem gás em casa. Preciso de mudar a botija do gás. — Lembrou-se Eleanor, no seu estado ébrio, com a mão direita gelada, por causa de estar a segurar na cerveja. Como a universidade que frequentava era longe de sua casa, há já um ano que vivia sozinha num T0. — Eu não sei fazer isso.
Ryan deixou de contemplar o céu sem estrelas e olhou para Eleanor, com o cabelo castanho arruivado e encaracolado a emoldurar-lhe a cara, um pouco desgrenhado por ela se ter fartado de dançar, e depois por se ter, literalmente, fartado de dançar e adormecer com a cabeça numa das mesas do bar.
— Não te preocupes, eu empresto-te a botija do gás de minha casa. — Respondeu ele, com a voz arrastada. Voltou a olhar para o céu sem estrelas, e a contemplá-lo como se este tivesse milhares delas.
— Ryan. — Eleanor arrastou o rabo no chão, para se aproximar mais de Ryan. Vestia uma saia aos quadrados e collants azuis escuros e opacos, que era milagre ainda não estarem rasgados. Por cima da camisa branca agasalhava-se com o casaco da universidade, que se assemelhava ao dos jogadores de baseball. — Acho que isso não funciona assim. Tu não me podes emprestar a bilha do gás. Eu preciso de comprar uma. Eu preciso de tomar banho amanhã. — Concluiu, com um tom monocórdico, a olhar para a frente, para o caudal do rio, iluminado parcamente pelos candeeiros de rua.
Ryan olhou para a amiga; mesmo com pouca luz, notou-lhe as bochechas coradas, provavelmente por causa da bebida, ou do reflexo dos cabelos dela. Franziu as sobrancelhas e estendeu o braço para a frente, com a palma da mão esticada.
— Mas tu podes tomar banho no rio Cam.
Ela abanou a cabeça em negativo, solenemente, e os caracóis agitaram-se suavemente à volta da cara.
— Não posso. Assim assusto os patos.
Ryan estreitou os olhos e olhou para o rio, que corria vagarosamente.
— Aqui não há patos, Eleanor.
— Há sim. Eu vi-os no verão. Eu dei-lhes pão! — Esticou o dedo indicador para cima e agitou-o, para mostrar como tinha razão.
— Se calhar eles migraram por causa do frio. — Respondeu Ryan, pensativo, depois deu um gole na cerveja.
Eleanor virou o pescoço para Ryan e piscou os olhos castanhos, expressivos, múltiplas vezes.
— Os patos migram?
— Eu acho que migram. Ou se calhar estão só a dormir.
Eleanor puxou os joelhos contra o queixo e sorriu satisfeita, como se o facto de existirem patos no rio Cam a fizesse feliz.
— Se calhar estão só a dormir.
Tremelicou de frio e puxou mais os joelhos para si.
Ryan notou e despiu o casaco de cabedal, de forma atabalhoada, e levantou-se para o por sobre os ombros de Eleanor. Ela parecia minúscula, agasalhada pela peça de roupa preta que dava para tapar quase três de si.
— Assim vais ter frio. — Protestou ela, mas ajustou melhor o casaco sobre os ombros, para se proteger melhor do ar noturno e outonal.
Ryan apenas encolheu os ombros largos e bebeu um gole da sua cerveja. Uma gota escorreu-lhe pelo queixo forte, desceu pelo pescoço e desapareceu dentro da gola em V do seu pullover. E era nesse ponto que Eleanor fixara os olhos. No pedaço de pele exposta, firme e levemente bronzeada, que espreitava pelo pequeno decote em V.
O ginásio decerto que andava a fazer bem a Ryan.
— Eli. Estás bem? — Ryan agitou a mão à frente dos olhos da amiga — Estás a começar a assustar-me. E a ficar levemente vesga.
Eleanor agitou a cabeça.
— Estou a pensar que o sol nunca mais nasce e daqui nada as pessoas vão começar a aparecer na rua, espantadas por o sol não aparecer. — Disfarçou ela. Deu dois goles na cerveja e afastou-a, relutante, dos lábios, ao notar que a terminara. — O sol também migra?
— O sol não migra.
— Se calhar está só a dormir.
— Se calhar tu é que devias estar a dormir.
— Ryan?
— Han?
Eleanor esticou as pernas sobre o cimento e olhou para as suas botas pretas, de cano baixo. Tombou os pés para um lado, depois para o outro.
— Estou a pensar numa coisa. — Declarou, com o último álcool da noite a correr-lhe pelas veias.
— Na bilha do gás? — Perguntou Ryan; uniu os lábios ao gargalo da sua cerveja, que ainda ia a metade e o ajudava a manter o calor corporal.
— No kamasutra.
Ryan engasgou-se com a bebida e sentiu que esta quase lhe subiu às narinas. Afastou a London Pride da boca e tossiu.
— Eleanor Harrisson! Queres-me matar?! — Inquiriu, ainda a tossir. Olhou para Eleanor, que tinha as sobrancelhas levantadas e não estava minimamente preocupada com o súbito ataque púdico do amigo. Não que fosse algo habitual, mas já tinham confidenciado algumas experiências sexuais que tinham vivido.
— Eu já consegui fazer quase todas as posições do livro do kamasutra que tenho lá em casa. — Prosseguiu ela — Só não consigo fazer três. — Constatou, com as palmas das mãos esticadas sobre o cimento, atrás dos ombros.
Ryan ficou calado, a olhar para a amiga, envolvida no casaco dele, com as bochechas coradas e o nariz avermelhado pelo ar frio.
— É porque nessas três posições é preciso quase fazer o pino ou fazer uma cambalhota. Eu não sei fazer o pino, Ryan. — Choramingou, a fazer um pequeno beicinho.
Ryan já não sentia frio nenhum, com aquela conversa. De repente olhar para as coxas de Eleanor, envolvidas pelos collants, parecia-lhe indecoroso e sentiu as bochechas quentes.
Ficou tocado pela face chorosa da ruiva e afagou-lhe paternalmente o ombro.
— Eu ensino-te a fazer o pino. — Decretou.
— E a mudar a bilha do gás?
— E a mudar a bilha do gás.
— Obrigada, Ryan. — Eleanor aproximou-se do amigo e beijou-lhe a bochecha barbeada. Tirou o telemóvel do bolso e olhou para as horas; os carros já se ouviam ao longe, mas nada de luz no horizonte.
— São quase sete e meia da manhã e o sol nunca mais nasce.
Ryan apoiou o queixo na mão.
— Isso é impossível. — Friccionou as mãos nos antebraços, para se aquecer. Depois lembrou-se de algo. — Em que dia estamos?
— Vinte e cinco de Outubro — Respondeu Eleanor, após conferir no telemóvel.
Ryan permaneceu em silêncio. Depois suspirou e olhou para Eleanor com cara de caso.
— Já sei porque é que o sol ainda não nasceu.
Eleanor arqueou as sobrancelhas.
— Os patos roubaram-no!?
— Não. Hoje entrámos no horário de Inverno. O teu telemóvel marca uma hora a mais.
Os lábios avermelhados de Eleanor moldaram um “o” e um longo “aaah”, de compreensão, escapou por eles.
— Mas ainda vamos ver o nascer do sol? — Perguntou, a olhar para os olhos esverdeados de Ryan.
Este riu. O álcool aos poucos desvanecia-se do sangue e fazia com que ele percebesse melhor as figuras tristes que estavam a fazer.
— Vamos.
— Ryan.
— Hum?
— Parece que somos personagens de um filme. Os dois, sentados na ponte, à espera do nascer do sol. Já viste? — Ryan acenou afirmativamente — Se isto fosse mesmo uma história, qual é que achas que seria a sua moral?
Eleanor pensou e meditou um “hum” longo. De repente, os seus olhos brilharam e virou-se para Ryan.
— Já sei. Que a amizade transcende tudo, e que os verdadeiros amigos estão sempre aqui, quer seja para mudar bilhas do gás, estudar os movimentos migratórios dos patos ou falar de livros sensuais. — Disse, orgulhosa — E — acrescentou — que há sempre uma explicação lógica para tudo e que por vezes temos de estar mais atentos, porque ela pode estar mesmo debaixo do nosso nariz. Concordas?
Ryan desistiu de terminar a sua cerveja e olhou com ternura para a amiga.
— Eu ia dizer que a moral da história é que não se pode deixar-te bêbada sozinha, mas essa parece-me melhor.
Eleanor revirou os olhos, mas depois sorriu satisfeita. Ficaram os dois por ali, sentados na ponte de cimento, à espera que o sol nascesse. Quando este apareceu, contemplaram o céu colorir-se de múltiplas cores e o verde da natureza lentamente a aparecer.
Ryan conduziu até casa de Eleanor, no carro da mesma. Quando a ressaca passou, e nesse mesmo dia, ajudou-a a mudar a bilha do gás e a fazer o pino.