CARTA A QUEM-FOR
Prezado (a) quem-quer-que-seja,
Decidi que deveria registrar o que me houve, movido pela mesma prepotência de muitas outras pessoas deste mundo. Aquelas que consideram suas vidas interessantes o suficiente para se inscreverem em linhas que, no máximo, adiarão em algumas décadas o seu esquecimento. Quanto a mim, asseguro que a minha vida não foi divertida, porém nunca fui descontente a ponto de eu não suportá-la.
A vida neste sítio foi boa e tranquila durante a maior parte dos últimos cinco anos. Minha solidão me contemplava. Finalmente voltei a ter o que não tinha há muito: energia. O anonimato me deu lucidez. Mas chega. Tudo isto encheu o saco e preciso mudar algo.
Antes de chegar neste lugar eu morava em uma cidade grande, que me dava o mesmo anonimato da minha vida atual (que é um pouco isolada, mas nem tanto). Já adulto fiquei enfastiado da vida cheia de minúcias e dificuldades de lá, num lugar nem tão longe de onde moro hoje. Durante minha formação fui cheio de amigos, era até querido. Mas meus gostos e prioridades mudaram muito.
Pelos meus vinte anos, comecei a me afastar (em vários sentidos) da vida que anteriormente levava. Antes muito sociável, tornei-me taciturno e fugidio; o que era muito estranho pelo fato de serem mudanças involuntárias. Sem saber o porquê, sentia-me impelido a mudar, e mudar rapidamente. A independência da “vida adulta”, que eu um dia sonhara, me decepcionou.
Quando repentinamente me afastei, vez por outra algum — velho — amigo entrava em contato. Raríssimas vezes tive disposição para sair, e quando saía, achava desinteressante. Naquela época (e ainda hoje) sentia que o problema disso tudo era meu. Desanimei.
Mais ou menos sete anos após o meu desânimo, comecei a andar cansado, dormia sempre que podia, nas folgas que eu tinha da escola onde lecionava, só dormia; às vezes até quinze horas ao dia. Vivia fatigado. De brusco tomei uma atitude que, confesso, não foi longamente pensada.
Procurei alguém que me substituísse na escola, explicando apenas que não ia demorar muito. Eu não estava muito lúcido, não tinha muita consciência do que fazia. Arrumei alguns poucos pertences e parti com meu carro. Continuei errante por uns dois dias, até meu escasso dinheiro acender o alerta de findar.
Conversando com algumas pessoas na estrada, via novas possibilidades. Eu decidi naquele momento morar em outro lugar que tivesse condições bem diferentes. Até que de passagem numa cidade conheci Laura, uma mulher muito forte e engraçada e gentil. Ela comentou que estava à venda seu pequeno sitio mobiliado — que ela abandonara —. Situava-se a 20 km desta cidade. Ainda que pequeno, o espaço era muito barato. Senti-me irremediavelmente atraído.
Vivo aqui há cinco anos.
Inicialmente não sabia muito bem como ia me sustentar, apenas mergulhei às cegas em algo novo, e agora eu percebo: o novo sempre me fascinou. Depois de alguns dias de ócio e longos cochilos vespertinos, as finanças apertaram ainda mais. Eu sabia fazer algumas poucas coisas, decidi vendê-las: aulas particulares de violão e também reforço escolar. Com esse pouco eu ia sobrevivendo, não muito saciado da fome mas com muita serenidade. Neste lugar ainda não fiz amigos, bem mais por não querer do que por não conseguir. Escrevo para quem-quer-que-seja justamente por não ter para quem escrever.
De forma alguma pretendo ser thoreauano, não sou Walden. Não há uma só forma ideal de vivência. Na verdade, prefiro bem mais a coletiva. A verdade é que precisei fugir do modo que eu antes existia para conseguir continuar resistindo, e agora preciso mudar também o que estou vivendo agora.
Após cinco anos, percebo que a vida neste sítio foi muito boa. Contudo de novo o tédio fugiu do controle e me desanimou, e justo neste momento sinto pulsão forte de mudar de rumo, mesmo que não saiba bem qual irei tomar, mas isto já aconteceu e vê virei bem por meia década. Medo eu não tenho.
Ontem arrumei meus poucos pertences. Hoje pela manhã fui na agência rodoviária e comprei a primeira passagem que encontrei na lista. Há poucos minutos peguei um caderno, abri, coloquei uma caneta na mão esquerda e escrevi esta carta não-sei-para-quem. Daqui a pouco desocuparei minhas mãos, mas já tenho outros dois pesos para ocupá-las depois.
Uma dúvida me persegue a respeito de qual rumo assumirei.
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Após largar este caderno, colocarei duas passagens em minhas mãos, uma em cada: cada uma, de formas diferentes, me trará o novo. Só posso escolher uma, mas não sei qual delas. Na mão esquerda, tenho a passagem que comprei mais cedo na rodoviária. Na mão direita, tenho um revólver que tenciono engatilhar. Preciso parar de escrever e me decidir.
Em cinco minutos escolherei; por hora, não tenho a menor ideia nem inclinação sobre por qual dos dois vou determinar. Certeiro é o fato de que ambos me levarão ao novo no final das contas. E é isso que me tem feito respirar nos últimos tempos, e poderá novamente fazê-lo...
Ou não.
Com confusão e conflito:
Ninguém.