Há diversos tipos de amores:
Aquele que pedimos para que não seja breve,
O mesmo que pedimos que se propague baixinho
Numa inda e vinda branda
Construído por sussurros e suspiros
Para que não ouçam sequer os passarinhos
(ao menos era o que dizia o Quintana);
Há também o que afirmamos veementemente que não se acaba,
Ao menos, era no que o Leminski acreditava,
Torcemos para que não se torne raiva
Já que a poesia é, no mínimo, mais produtiva;
Tem aquele glorioso
Que não cabe em mundo algum,
Não cabe por não poder se contido,
É gigante e estrondoso,
Pode sentir-se por todos os lados,
Mas que graça,
É também deveras singelo
Cabe só no utopia de amar,
Em um breve intervalo,
Para o Drummond, um tão curto e desejado espaço,
De beijar;
Há os que o Moraes imortalizou em sonetos,
Os que serão, serão e serão,
Até o momento que não mais for,
Os que explodem dentro de ti
E, deles, não queres desperdiçar um segundo,
Viver todo e qualquer sentimento infame,
Inclusive os que o amor tenha trazido de agrado
Afinal, moradia é cara
E o peito é casa, apesar de apertada, aconchegante.
Mas, hoje,
Hoje não falaremos de nenhum dos descrito acima,
Todos já foram descritos dezenas de vezes,
Cada vez com sua peculiaridade,
Hoje vamos falar de um único amar,
Aquele que não há,
O que trouxe sofrimento,
Desgostoso,
Imprudente,
O infeliz que decidiu que o peito não era suficiente
E tomaria tudo que aparecesse, assim, repentinamente.
Eu sei, eu sei,
O Renato dizia que se o amor é verdadeiro não pode haver sofrimento,
Se for verdadeiro por todas vias, talvez o dito seja até uma realidade,
Mas são tantas vias e nem toda estradas são de mão dupla,
Algumas vezes a gente vai parar numa rua sem saída,
Certas vezes a única opção é dar meia volta
E tentar ser o que já fomos antes,
Antes de todo insaciável querer.
Mas o ponto aqui não é dividir as pessoas em quem ama e quem não,
Afinal, é só uma questão de quem,
Talvez não seja por você,
Mas o outro pode gostar de um outro alguém.
Somos seres imperfeitos
E cheios de indecisão,
Talvez por isso seja difícil lidar com algo como rejeição,
Mas, talvez, também,
Não ser amado por quem se queria
Seja apenas mais um aprendizado,
Talvez tenhamos, na verdade, que ter agradecido,
Não agradecer de dizer estou grato,
Mas, dentro de todo nosso cinismo
E egoísmo insano,
Entender que sentimento não se distribui
E querer definitivamente não significa poder,
Compreender que há de existir um momento certo,
Com a pessoa certa,
Com o emocional e psicológico intacto,
Para o querer poder, possivelmente se tornar ser.
O agradecimento não é pra agradar também,
É para podermos, talvez um dia, chegar a conclusão
Que gostar tão demasiadamente
E esperar, quase que imediatamente, uma aceitação,
Pode não ser um sentimento para o outro,
Mas com o intuito único
De ser amado.
Será que o agradecimento não deveria ser a si mesmo?
Talvez o Renato estivesse mais que correto
E não soframos de amor,
Mas da falta que exercemos sobre nós mesmos,
Talvez um pássaro engaiolado se machuque muito mais
Do quem um no céu limpo e azulado.