Esse despertador continua querendo me atordoar. É impressionante como ele, diferentemente de mim, nunca atrasa e falha. Inclusive, eu acredito que ele esteja cada vez mais eficiente e barulhento, pois sua capacidade de perturbar-me para que eu acorde está cada vez mais aprimorada.
Deixando de lado esse eletrônico incômodo e a cama confortável, vamos começar o dia com muita energia e com o pé direito. “Mas que merda é essa?” Literalmente, que merda era aquela? Eu tinha deixado a porta trancada ontem a noite e não tem como o Cerveja ter defecado no meu quarto. Deveria estar muito cansado ontem à noite e não percebi o que meu cachorro aprontou comigo. Nada mais agradável de que começar o dia tendo que limpar o pé por conta da merda do meu cachorro.
Tão agradável quanto foi o café da manhã. “Será que virei vegano e não lembro?” Essa parecia ser a única explicação lógica para não ter nenhum produto alimentício oriundo de animais em minha casa. Não tinha leite, queijo, bacon. Tive que contentar-me com pão e geleia de uva e conformar-me com a futura visita ao supermercado após um árduo dia de trabalho.
Como o dia será longo, não demorei-me em sair de casa. Entrei no carro, que estava sob a proteção de algumas árvores em frente da casa do sítio, e percebi que tinha estacionado em local inapropriado na noite anterior. “Malditas sejam as pombas e a minha memória!” Como pude esquecer-me que as pombas repousavam naquelas árvores. Terei que passar numa lavagem após o mercado, pois não tem condições de deixar o carro todo pintado pelas excreções das pombas.
Melhor ir rápido, antes que eu descubra algo mais que incomode e faça-me perder tempo. Hoje é o dia em que reunir-me-ei com meu chefe. Finalmente ele vai conceder-me o aumento salarial que tanto mereço. “Caralho! Freia, carro!” Mas que merda, tchê! Novamente esses animais perturbando-me. É hora de atravessar a estrada, dona pata? Não podia levar os seus patinhos para nadar daqui cinco minutos? E, porra, quantos filhos tu tens, dona pata? Já passaram uns quinze. Enfim, passem e permitam-me continuar.
Depois de uns cinco minutos parado e esperando uma creche inteira de patos passar, pude continuar e chegar na empresa. Tive que explicar meu atraso para alguns colegas, que gargalhavam as custas das minhas tragédias matinais. Mas isso não importa muito. Cheguei a tempo para a reunião. Com o aumento salarial, finalmente poderei construir um banheiro para as pombas e meu cachorro e presentear a da dona pata com uma piscina.
Bah, mas faz dez minutos que estou aqui sentado na sala de reuniões. Cadê o chefe? Ele nunca atrasa e perde uma reunião. Será que ele deixou algum aviso justificando-se. Deixa conferir no e-mail da empresa. “Prezados, não poderei comparecer na reunião, pois o Jerônimo está gripado e deve permanecer em repouso. Ficarei junto ao meu estimado companheiro, caso ele tenha alguma necessidade.” O Jerônimo não é o gato do chefe? Eu não acredito! Esses animais estão de sacanagem comigo. Só pode ser um complô contra mim. Quer saber?! Eu vou para casa, pegar minha espingarda e caçar.