Como de costume, levantei e fui ao banheiro. Como de costume, já era tarde. O quarto já estava lavado com o mais fétido e repugnante vômito que uma pessoa pode eliminar após comer o maldito cachorro quente com cebola. Sim, como de costume, a cebola te trai. Ela adentra teu corpo e começa a cutucar o fígado. Como de costume, ela chega e diz: “fígado bobalhão! Fígado bobalhão!” E o fígado, trouxa como é, cai nesse conto. Como de costume, ele começa a responde-la: “Tu vais ver quem é bobalhão, cebola chata!” Como de costume, quem se fode sou eu. A porra do fígado se perde nas ofensas e deixa de trabalhar direito. Ele deveria estar somente focado em transformar o etanol em acetaldeído, mas, como de costume, ele não o faz. Aí o que acontece? Estômago, pâncreas e esôfago têm que dar conta do recado. Mas como de costume, esses folgados apelam para o vômito. Aí, eu tenho que me virar nos 30. Nos 30 microsegundos. Nunca dá tempo para chegar ao banheiro. Assim, tenho que ouvir da minha mulher que eu sou um bêbado desgraçado. Como de costume, ela não entende que uma garrafa de vodka não seria capaz de fazer mal. Mas ela não está nem aí! Está presa em suas convicções! Nisso tudo, como de costume, uma paulada é disferida na minha cabeça. Acho que já foram quebradas quatro vassouras nessa atitude explosiva. Assim sendo, como de costume, uma cebola desgraçada fode com meu organismo, que fode comigo, que fode com a noite da minha esposa, que fode com os cabos de vassoura, que volta a foder com o meu organismo. Fica muito complicado lidar com essa rotina. Tenho que eliminar a cebola da minha vida. Mas até lá, como de costume, vou limpar o chão do quarto e me dirigir ao sofá da sala.