Os raios de sol matinais agarravam as retinas de Naya, que não tinha fechado os olhos nem por um minuto inteiro naquela madrugada. As gradações de laranja aos poucos infestaram todo o quarto, pareciam caçoar dela, como se mais uma vez, tivessem cumprido a missão de anunciar um novo dia e novos complexos desgastantes vindouros.
Suas costas estavam doendo, como se o colchão a tivesse espancado durante toda a noite, seus joelhos travados, os braços estendidos, os pés machucados, dedos fatigados, olhos vermelhos - a mais pura realidade da bailarina, a mercê de toda a banalidade.
Ela não queria levantar e ter de lidar com o seu dia que seria igual a todos os outros. Doze minutos para se arrumar, cinco para tomar o café, abrir o portão às 7h00, atravessar a avenina às 7h04, quando o timer do sinal estiver em vinte e três segundos para fechar, colocar o pé esquerdo do outro lado em seis segundos, pousar os olhos nas mesmas pessoas que entortariam a face, cruzar com a mulher asiática que todos os dias se jogava na frente do carro do marido que estava para sair da garagem, gritando "Para! Para! - Pode passar agora, menina, bom dia!" - esta parecia ser a única que se importava, mas mesmo assim, Naya apenas forçava um sorriso e seguia adiante para na escola ter de lidar com oito professores e quinze regras de convivência e, horários para ir ao banheiro - apenas na terceira aula e na sexta - e postura para sentar, volume para falar, comprimento mínimo da saia, tamanho máximo de decote, maquiagem pode, mas desde que não seja vulgar...
"O que é vulgar?!" - a diretora repetiu a pergunta de Naya como resposta.
"É o seu julgar." - Naya boquejou, levou ocorrência, por tentar se expressar.
Expressar? Sempre da forma errada.
"Naya! Está fazendo errado! Quando vai aprender? Vai ficar na última fila de novo e é melhor emagrecer!" - a professora de ballet a pegou pelos pulsos e a jogou na última fila, como das outras dezenove vezes em que a escola de ballet se apresentou.
Sempre a última, incompreendida, calada, esquecida.
Suspirava enquanto seus dedos doíam para que o próximo passo ficasse perfeito.
Mas nunca ficava.
"Não, não Naya!" - a professora com voz asquerosa de novo ralhava.
"Você deve ter comido um monte de porcarias, por isso sua roupa está esticada, se você fizer um regime, talvez eu te deixe ficar na terceira fila."
Banida.
Novamente.
Dia após dia, a moça se olhava no espelho, com os olhos vermelhos que ela já não sabia mais se eram dela, com as lágrimas se segurando todas para não despencarem nas clavículas, com o cabelo sem vida de tanto ficar amarrado num coque que proporcionava a ela dores de cabeça terríveis.
Ela olhava de volta para si mesma dentro do espelho na parede, queria poder dizer que era outra pessoa ali, uma outra situação - um filme ou uma pintura, no entanto, o que mais doía, era saber que aquele rosto derrotado, aquela boca arqueada para baixo, aqueles ombros retos e extenuados eram ela e dela; Naya já admitira que se resumia a recortes de si mesma.
E percebeu isto ao reparar em como a elogiavam. Sempre eram os olhos intensos, a boca bem desenhada, belos dentes, orelhas graciosas, pernas elegantes, mãos bonitas... Ninguém nunca a elogiava por inteiro e, muito menos, verdadeiramente, ela sempre quis que alguém olhasse para dentro dela e visse quem estava ali, percebesse que por detrás dos olhos dela havia uma bailarina sozinha no palco, iluminada apenas pela luz da lua que atravessava o teto por uma telha quebrada; ela desejava tanto que aplaudissem a dança desconsolada dela, os movimentos pulsantes, a dor, a emoção, a confusão, a mixagem de movimentos que ela jamais aprendeu em nenhuma aula, e sim, desenvolveu no mais íntimo de seu coração.
Enfim, Naya estava rendida aos raios de sol que aqueciam sua pele frágil, virou-se de lado e, espiou o espelho, cumprimentou a garota refletida nele, apesar de a odiar. Que passado, funesto, que dias pesados! E todos os desenhos que fizera em sua pele estavam ali para lembrá-la. Não eram desenhos comuns e, nem a deixavam orgulhosa de si mesma, já que eles foram tingidos de sangue, enquanto ela deslizou várias e várias vezes uma lâmina de tesoura para faze-los existir.
Não era graciosa, não era boa bailarina, não era boa com crianças e, não acreditava nos idosos... Também não suportava a escola e nem os números que puxavam seus cabelos sempre que ela se deparara com algum, não suportava mais o peso dos dias, o peso no peito e a falência aguda de seu coração.
Só tinha certeza de uma coisa: a morte. E a ansiava todos os dias, porém, apesar de querer morrer havia outra questão: o que aconteceria depois? Pais enlouquecidos? Amigos que brotariam até das rachaduras na parede? Comoção geral por uma semana? O perfil do Facebook lotado de mensagens para ela que estaria morta? Hipócritas, hipócritas... Todos só se lembrar de amar, quando percebem que não têm mais nada.
As iam acontecendo sem ela se dar por satisfeita com aquela realidade monótona e despropositalmente abatedora - o despertador berrou: 16H40! 16H40!
A alma da moça queria se arremessar contra a parede, quebrar o pescoço, babar até ser consumida pelo sufocamento da língua.
Algo em seu peito surgia fazendo todas as veias aplaudirem, fazendo o sangue parar de correr, fazendo os olhos pararem de doer, fazendo a mente estalar.
Seriam apenas segundos de dor...
nada comparados
aos dezessete anos ao lado daqueles que apenas a ensinaram
a engolir e resignar.
E foi assim.
Ela se vestiu despreocupadamente.
Blusa de cetim azul, com bordado de flores silvestres.
Saia marrom prensada, com aroma de roupa velha.
Tênis de corrida calçados por cima da meia-calça salmão.
Cabelos secos, com os fios crespos livres, cantarolando contentes ao se encostarem às costas da adolescente.
Comeu, escovou os dentes.
Saiu de casa, tomou um sorvete, sorriu sinceramente para a mulher asiática que se importava.
Ajeitou sua mochila cinza e pesada nas costas e pegou o metrô.
Tudo bem preparado para seu Gran Finale!
Escola de Ballet Clair de Lune.
19h40.
08 de Abril de 2017.
Todos os bailarinos estavam no palco ensaiando para a apresentação do musical que ocorreria no dia seguinte.
Cada qual exausto, suando, escorregando, gritos, figurinos trocados, não, não, não! Centrados, interligados nos passos, sincronizados, saltos, pulos, giros no ar, pés flutuando, e os olhos da professora megera apenas julgando tudo como uma completa merda.
- Como vocês querem se apresentar assim? Luana, postura! Zé, você precisa ser firme! Você é o quê? Um viado?! FIRMEZA! Você conhece esta palavra? Firmeza! - ela bateu a régua tão forte na mesa, que o objeto se quebrou, se espalhou pela primeira fileira de poltronas.
No mesmo momento, todos ouviram um outro tipo de barulho.
A música parou, todos se transformaram em estátuas.
Vinte e sete pares de olhos se entreolhando. Quem estava faltando?
Não houve muito tempo para pensarem muito sobre, foi como mágica, como se tivessem invocado algo. Ali, naquele momento, TODOS os olhos piscaram ao mesmo tempo, e as luzes se apagaram.
- Merda! Só me faltava isso! - todos os bailarinos ouviram os saltos finos da professora martelando o carpete, até que o barulho parou.
plec-plec-plec
- Não está acendendo... - ela tentou de novo, mas o interruptor e nada, eram a mesma coisa.
- E agora, professora? - indagou uma das alunas.
- Vamos sair, ué. Abram a porta e saiam, vamos ensaiar no outro palco...
- MAS EU QUERO QUE SEJA NESTE! - a voz que todos sabiam de quem era, no entanto, temiam que fosse verdade, esbravejou, entre as poltronas.
- Eu é que mando aqui. - a professora cerrou os olhos para tentar enxergar no escuro.
- NÃO MANDA EM NADA!
- Ai, meu Deus, é a Naya. - duas meninas disseram ao mesmo tempo, como se estivessem prevendo algo.
- Vish... - Zé já se punha em formação de auto-defesa.
- Naya, cala a boca, você nem estava neste ensaio! - retrucou outra aluna qualquer que se achava a melhor, apenas por estar sempre na primeira fila.
A menina que se achava a melhor só por estar na primeira fila, andou até a porta de saída do palco, tentou abri-la, mas ela estava trancada.
- Puta que pariu! - ela xingou - Essa aqui está trancada. Tenta a outra aí, David.
David, com as pernas tremendo, tentou a outra porta, apenas para confirmar a sua suspeita de que ela também estava trancada.
Todos se sentiram intimidados pelo escuro. E logo, por mais barulhos que não faziam ideia de onde vinham, pois a concha do palco, fazia todos os sons se alongarem e achar cada ouvido. Era tudo multiplicado.
Mais outros corajosos tentaram abrir as portas, mas nenhuma abria.
- EU TINHA DITO QUE EU QUERIA QUE FOSSE AQUI, O MEU GRAN FINALE! - a voz de Naya inquietou-os novamente, mas desta vez, ela parecia estar em todos os lugares.
Prontamente, todos começaram a correr e a se empilhar nas portas, a professora desmaiada, foi a primeira a ser esmagada, pisoteada, por cada pé que ela julgou ser insuficientemente satisfatório em toda sua curta jornada no mundo da dança.
- Socorro! Socorro! Socorro!!! - gargantas exclamavam já cansadas.
- Por quê estão tão amedrontados? É só uma apresentaçãozinha a toa...
Alguns se esconderam enquanto puderam, até as centenas de tiros começarem a atravessar o salão, as poltronas, o palco, as cortinas, as portas e paredes.
Surdos e cegos pelo medo. Começaram a reconhecer seus amigos mortos e o cheio de sangue quente tomava conta do teatro.
Naya gargalhava interiormente. E seu coração sacolejava pendurado dentro do peito.
Segundo pós segundo, os gritos cessaram. Isso bastou para que ela descesse do tablado superior em que estava, ligasse seu rádio e nua, sem mais armas ou medos, se pusesse a dançar, deslizando os pés e os braços e o cabelo, e as lágrimas e as antigas dores e o passado, pelo palco. Magicamente, suas mãos alcançaram a caixa de força, da qual todos se esqueceram que estava ali atrás das cortinas o tempo todo e, enquanto a nota mais aguda percorria o público tingido de sangue, as luzes do palco se acenderam devagar.
E, as oito pessoas que ainda restaram vivas, puderam, mesmo que encharcados de suas próprias lágrimas e molhados de sua própria urina, admirar a beleza dos passos inventados do mais profundo do coração de Naya.
Os olhos deles temeram olhar, mas o coração insistiu, e eles, um a um, levantaram as cabeças, tremendo, seus olhos se esbugalharam ao verem as manchas escarlates e as cabeças inexpressivas decorar o teatro.
Contudo, lá em cima do palco, Naya se mantinha livre, como uma fada, tecendo as fibras de uma árvore, como uma luz, representando os versos tocados e dando espaço para os novos gritos tomarem conta do salão, como um dom, riscando o palco com seu tênis de corrida, que em seus pés pareciam mais plumas do que algo pesado e inapropriado, como uma deusa compassiva, ela piscou para o público, a música foi parando, assim como as batidas de seu coração, e com a entonação final arrepiando-lhes os pelos todos, Naya acrescentou uma nota a toda aquela explosão.
Mirou aquela arma prateada para seus olhos e pôde ver uma luzinha brilhando no fundo do cano, com os joelhos desfalecendo, a menina puxou o gatilho e abriu um sorriso.
- Obrigada. Foi incrível. - foram suas últimas e inesquecíveis palavras, assim sendo, seu sangue e sua face angelical, também decoraram o carpete naquele marcante e terrível momento.
Agora sim, poderiam todos, elogiar os recortes dela dignamente.