Roxo e vermelho brilhante.
6 de Janeiro
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 30/03/17 17:19
Editado: 30/03/17 17:24
Avaliação: 9.2
Tempo de Leitura: 12min a 16min
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Notas de Cabeçalho

Espero ter dado o meu melhor! <3

Capítulo Único Roxo e vermelho brilhante.

Finalmente, depois de longas horas de espera ansiosa, os olhos de Carla começaram a se fechar, e, ela se sentia feliz pensando que seus gatos dormindo seria a única, última e adorável imagem que ela veria na vida.

Ao seu lado, repousava virado um copo de vidro, que há três horas atrás estava lotado de comprimidos.

Era agora... Era a hora... Ela podia sentir logo nos dedos dos pés... O frio nascia por debaixo das unhas do dedão e se espalhava pelos caminhos das veias... Leveza em seus membros, o cheiro de seu cabelo, a maciez do carpete contra sua bochecha... O ronronar de seus gato adoráveis que fazia o peito dela tremer de felicidade... Era um bom suicídio. Bem planejado, como daria errado?

Não tinha o que temer, nem o quê doer, se não fosse... Pela porta.

Toc-toc-toc.

- Carla! - uma voz cantou.

- Acho que ela não está em casa. - outra sussurrou.

Silêncio de novo.

Mais cochichos que eram audíveis.

- Nós entramos de mansinho ou já explodindo no "Parabéns pra você, nessa data querida..."? - perguntou uma voz conhecida...Ágatha.

- Psiu, fica quieta, às vezes ela só está dormindo! - ralhou a mãe de Carla.

Carla quis fugir- não sabia para onde, só gostaria de sumir - tentou em vão rastejar pelo tapete, mas suas pernas estavam adormecidas; então ela foi se arrastando, como que numa escalada deitada, agarrou o sofá, a mesa, a estante, a cadeira - que caiu, fazendo o maior barulho.

- Aaaaah, ela está vindo, vamos esperar aqui mesmo! - uma outra voz tentou sussurrar em vão, do lado de fora.

Os braços se cansaram e ela estava a mais de seis metros de sua cama.

"Como é que eu fui terminar? Morta debaixo da cama?" - ela poderia gritar se desse conta.

Aflição, aflição.

- Carla!!! - o mundo a chamava.

- Não!!! - ela esbravejou quando ouviu a maçaneta sendo aberta.

Deram de frente com a cena.

Dias e dias se passaram, duas lavagens estomacais, vestígios de uma tentativa falha que durariam pelo resto de sua vida miserável.

- Fizemos isso por que te amamos, meu amor! - a mãe dela tentava.

- Se me amassem teriam me deixado partir. - a conversa terminou aí, com a mãe de Carla chorando e com a moça se sentindo terrivelmente culpada.

Era tudo culpa dela, daquela endemoniada...

Não, desculpem-me pela confusão leitores, eu não me refiro à Carla e sim a sua irmã... Ágatha.

Durante toda a vida, Ágatha existiu apenas para incendiar o que quer que fosse. E como consequência, sempre teve toda a atenção. Professores, médicos, psicólogos, psiquiatras, amor, carinho, compreensão. Uma boa cota do sofrimento da família, era devido a tudo isso.

O que sobrava para Carla?

Cinzas.

Carla sofrera a vida toda com abusos sexuais, verbais e corporais, perseguições, depressões, confusões psicológicas, medos, síndrome do pânico, e todo o arsenal de sofrimentos que uma pessoa possa conhecer, no entanto, nunca fora capaz de externar para sua família - ela ficara sempre aguardando por um momento bom, e quando o momento bom chegava, ela se calava, pois era um momentinho desses bons demais para serem esmigalhados com um punhado de coisas terrivelmente mórbidas... Já bastava os problemas com a Ágatha; ela ficou então, aguardando por um momento ruim... Só que, quando ele chegava, novamente e tristemente Carla se matinha muda, pois ela pensava que seria demais para a cabeça deles todos, até por quê, Ágatha só sabia ser explosiva, e sempre arremessava verdades e mentiras para todas as pessoas e, consequentemente, um fósforo aceso, porém, Carla, tinha problemas mais delicados, que poderiam acabar de vez e para sempre com os únicos momentos de sossego da família. Para sempre.

- Já pensou? Quando a Ágatha se acalma, a Carla começa a dar trabalho? Que genética desgraçada! - Carla ouviu de uma conversa.

Mas sim, é! Isso mesmo! Seria isso mesmo, ela não pediu para nascer! Nem escolheu sofrer! Sim senhor, era tempo de colheita, ela era a louca da vez, e portanto, faria jus a sua nova nomenclatura. Tempo de ascensão. Isso que seria.

De uma hora para a outra, toda a família já sabia sobre o passado funesto de Carla e, todos se culpavam muito por não terem prestado atenção nos sinais, no jeito dela, nas poesias e nas canções, nos desejos e nas escolhas dela, sim, todos se culparam - como ela imaginou tanto e tanto temeu que eles se culpariam.

Finalmente, paz, por pior que ela tenha vindo de uma forma mórbida e incomum, a moça agora tinha atenção - por mais que ela mesma achasse isso egoísta da parte dela - agora, ela era compreendida. Se sentia genuinamente parte da família.

E, de repente, por um beijo mágico e merecido do destino, as coisas começaram a dar certo, quem diria que uma tentativa de suicídio fosse o início para a melhor parte de sua vida.

Ela conseguiu ganhar uns quilos, seus cabelos voltaram a ficar hidratados, ela adotou mais dois gatos e fez bons colegas - já que ela não acreditava na palavra 'amigo' - e estes colegas se revesaram para cuidar dos bichinhos de Ágatha quando ela foi fazer sua viagem pela Europa.

E na Europa ela viu e sentiu tantos novos sentimentos - é a tal jornada que o Buzzfeed nos incentiva a fazer para acharmos nosso eu-interior, sabem? - e ela se encontrou, entrou em contato com seu cerne, viu suas cores e teve o privilégio de conhecer uma garotinha de nove anos, com suas janelinhas no sorriso e suas sobrancelhas juntas que disse a ela:

- Your name is Carla ...- ela disse bem devagarinho, pois nunca havia visto um nome em português - I'll tell you a secret... - a menina colocou a mãozinha na frente da boca e sussurrou nos ouvidos encantados da mulher - I can see your name in shades of purple and red and if I look at it a lot, it shines! - e ambos pares de olhos brilharam.

- And, what that means to you? - Carla indagou tentando ao máximo acertar a frase e ao mesmo tempo ficar compreensível para a menina.

- Well ... I know people are strong and mysterious when their names are red and purple. - e a partir deste momento, Carla começou a ficar cada vez mais confiante, já que pela primeira vez na vida, sabia qual era a cor de seu nome para alguém que tem sinestesia.

Todas as coisas passaram a serem roxas e vermelhas e estas cores eram as preferidas dela agora, o mundo perfeito havia nascido, e o coração de Carla parecia cintilar às vezes.

Porém, haviam noites... Daquelas noites que não tem como dormir, pois o frio apavora, o silêncio parece ser devorador, e... Há algo embaixo da cama... Dentro do guarda-roupa, pendurado na úvula, querendo sair. Noites em que Carla sente a cama pulsar, como se as caixas empoeiradas a chamassem. Ela sabia. E nem esperava por isso... Eram aqueles sentimentos novamente, voltando para cutucar os ouvidos de Carla com um zumbido que a fazia estremecer; e as vozes que a obrigavam a sair da cama de fininho, com uma faca na mão, temendo por alguém na cozinha, ou por um incêndio misterioso que se iniciasse surpreendentemente no meio do corredor do décimo novo andar.

Em todas essas noites, Carla roeu suas unhas até que percebesse que suas mãos estavam pingando sangue e, quebrou todas as unhas de seus pés, e arrancou todos os seus cabelos.

De novo ela!

A imagem não saía da mente, do rosto da irmã entre as chamas dizendo a todo momento: "A culpa é sua! Ele morreu para te salvar do incêndio, você tem seu próprio Jesus Moderno agora". Duro demais, tenaz demais, como agulhas enfiadas em seus olhos, como um banho de água fervente.

Aonde estavam os dias de glória pós-tentativa de suicídio?

Os dias frescos, as roupas roxas a vermelhas, as danças, as músicas, os beijos apaixonantes que ela dava em desconhecidos num bar qualquer em Dublin, ou Oslo, Vienna ou Reiquejavik? Aonde se encontravam os lagos que espelhavam o céu e a lua que zombava das demais criações por saber que dentre elas, era a mais maravilhosa? Aonde estavam as alegrias e as certezas e as crianças que reconheciam o brilho renascendo nos olhos da moça e as senhorinhas que a paravam na rua e a elogiavam e apesar dela não entender nenhuma palavra, ela agradecia como podia e lá se iam vinte ou trinta minutos numa conversa incompreensível linguisticamente, mas totalmente palpável com as almas?

Todos queimados.

- Ágatha...

Ela tentou contar até dez, mas só chegou até o sete.

- Á-Á-Á-Á-ga-tha... tentou novamente até o dez, mas seu olho direito começara a tremer e ela correu para frente do espelho.

- Á... - bufou, suou, socou a parede, cuspiu no espelho, desferiu cortes em si mesma, quebrou o maldito espelho, chutou a privada, o box, os gatos, a mesa, o sofá, a televisão foi arremessada contra a parede, gritos loucos tanto na mente da mulher quanto em sua garganta surgiram sacudindo os quadros e fazendo os gatos rosnarem.

- ÁGATHA!!!!!!!! - ela urrou tão forte e por tanto tempo que logo todos os vizinhos saíram correndo de seus apartamentos às pressas imaginando que fosse outro incêndio, o alarme foi soado, umas velhas assim que chegaram a recepção foram logo fantasiando ter visto fogo e sentido cheiro de fumaça.

E então, veio a barulheira.

Crianças chorando, som de sirene, auto falante chamando: "Todos os moradores, saiam do prédio, não é um teste, é um incêndio!".

A visão de Carla ficou turva. Vozes, sons, náuseas.

Mais que depressa Carla foi para a cozinha.

Ouvia barulhos por toda a casa, as paredes pareciam criar vida para tentar agarrá-la, do papel de parede cheio de florzinhas, surgiram rostos todos iguais, com a face derretida, eles gemiam: "Abafe um incêndio com outro, princesa!" e sorriam e voltavam para dentro da parede, isso, umas sete ou oito vezes.

E foi isso que ela fez, pôs a vassoura de palha na boca do fogão e arremessou a vassoura incendiada em sua sala de costura, e o fogo se espalhou pelas cortinas e toalhas, pela seda e pelas saias, e pelo algodão, e alcançou o vidro de álcool. BUM! Explosão de chamas por toda a parte.

Carla se afastou das chamas e das faces aterrorizantes e se pôs a contemplar toda a sua obra de salvamento bem na beira da varanda. Tudo como se estivesse se pintando aos pouquinhos, ou desfalecendo muito rapidamente, ela não era capaz de pensar muito sobre nada, sentia-se em paz, como se não temesse as chamas ou que veio antes disso, estava calor e sua pele começara a querer virar toucinho, mas ela estava plena, admirando o céu, e não dando ouvido às pessoas lá embaixo longe dela.

Foi quando a porta se abriu num supetão.

- Carla! - era Ágatha chamando.

A irmãzinha mais especial de Carla mal podia acreditar que finalmente, era compreendida 100%, finalmente alguém entendia que um incêndio abafava outros, mas era de salvar a irmã e finalmente romper toda a briga que já tiveram... Ela fora compreendida!

- Carla, venha! - Ágatha chamou.

E a partir daí, foi tudo muito rápido... - Sabe como é, já chego quase nas 2000 palavras - mas em tese, Carla viu o rosto destorcido entre as chamas e as garras da irmã queriam agarrá-la, era fogo, era inferno, era o demônio e ela naquela mesma sala, Carla partiu para a luta contra seu maior inimigo e quando percebeu, estava em chamas, desesperada, ao invés de ser salva pelas mãos que a apedrejariam por muitos anos vindouros, ela resolveu se salvar, afinal, é terrível estar queimando!

As pessoas desesperadas só puderam ver a bola de fogo em formato de gente que foi

caindo

aos

poucos

do céu

e explodindo

na sarjeta.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Ágathas, não me levem a mal... Mas sempre quis fazer um personagem fatal e odioso com o nome de vocês, nada contra o nome, e nem contra vocês, personagens fatais são fabulosos.

Obrigada!

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Postado 01/05/17 02:19

A primeira vez que li o título podia imaginar qualquer coisa... Qualquer coisa menos o que me aguardava. A sua narrativa foi bem intença, moça, e agradável de se ler. Foram quase 2.000 palavras a qual não se viu o tempo passar. Aliás, eu ri com o fato de você ter citado isso em um dos últimos parágrafos. Encaixou-se tão bem no contexto que foi bem interessante.

Teve momentos que eu podia jurar que a Ágatha era apenas uma ilusão, outras parecia ser uma teoria ilógica, mas posteriormente parecia ser reforçada. Aliás, foi uma leitura bem louca, e isso é de longe algo ruim.

A dor de não ser compreendida, de ser silenciada por tanto tempo é deveras assustador. Podemos imaginar como a nossa querida Carla se sente, mas jamais chegaremos nem 10% próximo. O passado que ela viveu é triste, e tão realista que dói ler. Quantas "Carlas" não passaram pela mesma coisa? Quantas não são incompreendidas até hoje?

Porque quase sempre um problema parece ser maior que o seu, de tal forma que o silêncio é quase sempre a solução.

Sua ascensão é notável, assim como seu declínio. Uma coisa puxa a outra. Ela conseguiu ter uma "vida" melhor pós o suicídio, mas jamais conseguiu afastar por completo os fantasma do passado. E esse foi seu declínio. Ela foi queimada por seus próprios fantasmas.

Um ótimo texto, sem dúvidas!

Postado 03/05/17 15:42

Eu tô escrevendo com os pés e, aplaudindo seu comentário com as mãos, de verdade, muito, mais muito obrigada mesmo, tu nem faz noção do quanto meu corpo de encendeia de felicidade, quando alguém comenta que gostou, que pode sentir o que eu quis passar. Obrigada! <3

Postado 21/04/17 13:54

Ah, como eu amo esse ar sinistro na história. Esse pessoal é bem perturbado e destrutivo (um dos melhores tipos de personagem para mim). Um ótimo texto! Parabéns.

Postado 22/04/17 17:18

Personagens destrutivos>>>>>>

HAHAHA, obrigada de novo! <3

Postado 17/05/17 16:35 Editado 17/05/17 16:36

E os gatos? Eles tem de estar bem. E cara, como é sinistro!

Muito bem feito e impactante, parabéns! <3

Postado 18/05/17 22:22

Gatos são seres velozíssimos, eles fugiram do fogaréu tão rápido, que eu nem tive tempo de escrever asoaksapsapoks, obrigada <3

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