Manhã, cedinho, algo em torno de 8h.
Infelizmente, para sobreviver, eu estava ali, trabalhando. Resignado, também. A gente se conforma com qualquer rotina, contanto que haja dinheiro ao fim do mês.
Há dois anos que trabalho em casa da Madame Cristine Fidalgue. É uma bilionária que já ultrapassou a idade dos quarenta . Vive em companhia de outras mulheres. Aliás, essa fortuna provém de seus trabalhos... De sua fama, digamos... Tratarei disso mais adiante. Voltemos ao meu trabalho.
Ulisses era o nome dele — o cão. Todas as manhãs, sou incumbido de passear com ele. É um cãozinho amável, diga-se de passagem; alegre, inteligente, fanfarrão. Porém, naquela manhã, sucedeu-se algo... Não tenho adjetivos para o ocorrido. O leitor, ao ler o que contarei mais adiante, julgue por si mesmo os adjetivos mais apropriados. Isso mesmo, confesso: tenho preguiça de fazê-lo agora; mas não só preguiça! O fato todo me deixou um embaraço na mente, em suma: uma confusão dos infernos. Aliás, tenho já consultas psiquiátricas marcadas, mas isso não lhes importa. Não lhes importa nem um pouco.
É da raça Border Collie, o tal Ulisses. E como caga! O cretino. Já disse: é um cãozinho amável; mas isso não o impede de ser um cretino. Aliás, nesses passeios, como que deliberadamente, ele faz suas necessidades nos lugares mais incovenientes.
Certo dia, encontrei com um amigo universitário, e estive travando conversa com ele a respeito de nossas carreiras — ele dizia que de modo algum iria se enquadrar no mercado de trabalho convencional, pois se tratava de furada, de cavar a própria cova; dizia que seria Youtuber, gravaria qualquer palhaçada, falaria as coisas mais absurdas e, com isso, o sucesso seria inevitável... (Eu meditava sobre aquilo; de certo modo, ele tinha razão) ... Eu, de minha parte, lhe dizia que não tinha ideia do que faria da vida; confessei que estava acomodado nesse meu emprego, a Madame quase nunca me importunava, e me fornecia um salário gordo e generoso.
— Maravilha, hein! — dizia ele. — E tudo o que você faz é catar as merdas desse cão?
— Basicamente. É como eu disse: um salário gordo e generoso. Em torno de cinco mil por mês.
— Rapaz! Sorte a sua! Eu curso faculdade de Filosofia... E sabe de uma coisa? Num lugar desses, você fica louco, triste e pobre.
— Mas se sente realizado?
— Mas é claro! Eu tinha consciência disso há tempos! Confesso que sou razoavelmente feliz por ser louco, triste e pobre. Mas veja: preciso mesmo de dinheiro. Estive meditando muito a respeito. E sabe? Nossos tempos são cruéis... Não há mundo pra quem não tem grana. Quer dizer, há mundo, sim, mas um mundo de portas fechadas. Um mundo pra ratos, compreende?
— Oh sim, oh sim...
De súbito, enquanto essa conversa me distraía, notei que um homem berrou atrás de mim. Era um taxista. Estava bem ali, estacionado. Ulisses havia pulado através da janela e mijado no painel do carro inteiro.
— Filho da puta! — grasnou o taxista. O homem estrangulava o cãozinho. Intervi o mais rápido que pude. Iniciamos uma discussão fervorosa. Meu amigo universitário sumiu, do nada!... Na pontinha dos pés!... Grande amigo!... Mas que diabo! Ao fim e ao cabo, tive que limpar com Veja o estrago fétido causado por Ulisses. Enquanto limpava, ele me encarava de modo ultrajantemente inocente, com a língua de fora, emitindo um ré-ré-ré-ré-ré — e isso, para mim, repito: era ultrajantemente inocente!
Passada a confusão, prossegui com o passeio. Eu estava emburrado. Sentei num banco de praça e fiquei observando o shhhhhhhh do chafariz. Ulisses deixou um cocozinho bem ao lado do meu pé. Feito isso, me encarou com algo que, claramente, era um riso. Um riso de escárnio!
O cheiro foi subindo... Imediatamente, tratei de recolher o excremento. De repente, ressoou uma voz, troçando de mim:
— Isso mesmo, mon laquais¹. Como é hilário! Como é hilário!
Eu devia estar louco. Certamente. Encarei Ulisses. Definitivamente: ele troçava de mim. E continuou:
— O homem vive a se vangloriar: "Somos os seres mais evoluídos do ecossistema! Possuímos a Razão, a capacidade de formular conceitos, de interpretar a realidade ao redor!" Ah! Ah! Ah! Enquanto os animais "devem ser subjugados! São inferiores!" Ah! E no entanto, veja só você, mon pauvre larbin², recolhendo meus excrementos, pra ganhar seu dinheirinho mirrado, e compor nosso quadro social consumista... Êh! Aposto que anda bem endividado, hein! Ou pensa que não ouço você falar ao telefone? Mas é hilário! E tu! Como é solitário! E são só de dívidas, as ligações que recebe... E quando não são, é a sua mãe quem te liga! Reclamando! Reclamando que está doente! Êh! Miserável criatura! Eu, muito pelo contrário, vivo num pleno estoicismo! — ao exclamar isso, Ulisses pôs-se a abanar o rabo.
Eu não queria acreditar no que ouvia. Mas não podia ignorar. Muito menos, podia formular qualquer resposta. Não! Respondê-lo seria sucumbir ao delírio! Seria aceitar aquele fato que, de modo algum, eu poderia digerir. Ulisses continuou falando:
— Sei bem porque ainda não largou esse emprego! Há razões perfeitamente plausíveis. Primeiramente, adquiriu o gosto pela submissão. Contanto que haja recompensa, ou seja, dinheiro... contanto que haja isso, você é capaz de lamber minha urina no chão! Está expresso em seu semblante! Traços mecânicos, bem na cara! Repare no espelho! Segundo, suas intenções são claras... Sim! Suas intenções quanto à minha Madame Cristine Fidalgue! Você está a par do trabalho dela... É claro, seria impossível não se dar conta; com toda aquela equipe de filmagem frequentando nossa residência. E, além do mais, creio que já pesquisou os vídeos dela na Internet... Ah-rá! Sua face se enrubesceu! Confirmo então minhas suspeitas... De qualquer modo, Madame Cristine Fidalgue, tão famosa! Uma grande atriz pornô! Tudo isso te deixa com água na boca, hein? E aquelas mulheres todas que frequentam nosso recinto, hein? Certamente você aguarda esse tempo todo... Aguarda "a grande chance"...
Pois... quer saber de algo? Eu mesmo já participiei de uma suruba dela! Oh, isso é espantoso? Que seja! É bem comum hoje em dia! A indústria pornográfica está acima do bem e do mal. Rola de tudo, rola de tudo. E dinheiro aos montes, mais dinheiro do que estrelas no cosmos, pode se assegurar disso! Mas veja! Veja! Não desanime, mon laquais. Quanto mais se quer, melhor se quer.³ Alimente seus desejos, criatura ignóbil! Mesmo que porventura sejam todos frustrados, ao menos, com o ato feroz de desejar, terá tido entretenimento... Não morrerá de tédio, ao menos! Rebolar o espírito! Pra depois ser varrido da existência... Que beleza, hein!
Eu sentia uma febre... Uma febre atroz. Como se a qualquer momento eu fosse cair duro ali mesmo, no chão. Após essas últimas palavras, um zumbido bizonho se instaurou em minha mente. Eu estaria gravemente doente? Estaria de posse de minhas faculdades intelectuais? Ou acometido por um simples delírio? Como eu disse, depois do ocorrido, marquei consulta psiquiátrica. O fato é que tudo isso instaurou em mim, como eu também havia dito, uma confusão dos infernos. Não sabia mais como a realidade se comportava. Talvez esse editor de texto em que relato tudo isto... Sim! Diabos! Talvez o próprio editor tenha consciência... Talvez me julgue um ser inferior! E zombe, imperceptivelmente, de tudo o que eu digito agora mesmo! "Nós controlamos as máquinas" ... "A ciência é infalível" ... "Nada nos escapa" ... Ora essa! Quem sabe, quem sabe? Ora essa! Estou com medo, e febril também, absolutamente paranóico... Talvez eu devesse remarcar a consulta pra amanhã — logo de uma vez! Urgente!
Resta acrescentar que desde então Ulisses nunca mais pronunciou nenhum outro discurso. Porém, sempre que fazia suas necessidades, e eu as recolhia, eu sentia nitidamente um ar de superioridade por parte dele... E sempre ele, abanando o rabinho, de modo ultrajantemente inocente!