Recato
Andréia Kmita
Tipo: Lírico
Postado: 01/03/17 10:38
Gênero(s): Poema
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 3min a 4min
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Palavras: 547
Livre para todos os públicos
Capítulo Único Recato

Se soubesses olhar meu coração

Como vejo no seu mole ternura

Saberias apreciar do beijo a doçura

Se despisses da boca o ferrão.

Encantar-te-ia nos sabores das uvas

Enquanto inda não colhidas.

Apreciarias da adega cada gota

Sublime essência da felicità.

Terias a mim apreço nobre gesto

Se lembrasses do meu perfume

Sempre que dedilhasse os seios

Ao se despir antes do banho.

Conseguirias consentir o verbo

Única forma de excluir a dor

Salvar-te do engano do ego

Coita dos lençóis insípidos.

Ouço dos aposentos cheiro libertino

A fêmea de coloratura tom raro

Em seu quarto medievais sopranos,

Confesso-lhe múltiplos orgasmos.

Sinto tua presença pulsando

Por detrás do véu esfumaçado,

A lírica não esconde sensação

de inigualável reprovação.

Tua respiração ofegante fibrila

Ao fitar minha compleição

Ficas trêmula, sem disfarce nem ação

Impulsionadamente me atrevo, frila.

Três passos arremetidos aos gritos

As copas espalhadas, valetes apostos

Ao quarto passo ordena

Cortar-lhe a cabeça!

Ó sofisticada teia arremetida ao vento

Que de nobre tu não tens nada

És uma casca velha encoberta

Já não tens mais nem sentimento.

Por que choras agora?

És rígida feito uma porta

Que me importa se não vês!?

Que de amores morro.

Sofro calado por tempos

Vivo a lhe beijar mão anelada

A te fitar apaixonadamente

Inda sim, recusa-me!?

Tua alma tem anseio e canção

Do escuro quer sair e clamar

Ah se soubesses olhar meu coração

Como vejo no seu ternura.

Lançar-te-ia em meus braços

De amor morreríamos afogados

Abusados da aglutinada saliva

Entrelaçada na voracidade da língua.

Desenviúve-se ao raiar do dia

Abra todas as portas e janelas

Saberei que estais pronta

Não precisas mais do recato.

Não me irritais mulher!

Já a cortejara por longas datas

Sinto que me queres abocanhar

Como um cordeiro sem lar.

Porquanto façamos singelo acordo

Não despertará a vizinhança

Esta tua preocupação moral

Tão descomunalmente escabrosa.

Amanhã vais à cerimônia

Use quantos véus quiseres

Os mais escuros possíveis

Não hão de notar teu júbilo.

Faças o mesmo caminho horas

Troque ideias com as senhoras

Demores quanto quiseres

Mas apresses!

Estarei aflito...

Sem saber de ti, repito

Ecos nos vastos corredores

Donde vivemos como sonhadores.

Quando chegares da vila rodear

Nos jardins a me procurar,

Tão recluso e inquietante íntimo.

Amargarei paciência.

Último lacrimoso rito fúnebre

Vais encharcar os negros lenços

Soltá-los aos ventos revoltos

Na permissão concedida em febre.

Séculos neste casarão sombrio

A apreciar tão belos cabelos

A observar em miúdos apelos

Na perfumada banheira o vazio.

Tudo absurdamente calado

Silêncio ecoado das horas

Tensão das ocupadas demoras

Infinito quadro de parede congelado.

As aves não estão cantando mais

Não há cachorros lá fora

Não escuto barulho dos animais

Nem da velha charrete agora.

Por que eternizastes o regresso?

Esta casta devoção ao passado

Por que és tão desumana?

Insuportável doce crueldade.

Impacientemente inquietado

Não vens, não vens, vou montado

Incontrolável abalo sísmico vassalo

Selado no melhor cavalo.

Tempestade surrava lombo

Rios cuspiam águas violentas

No fundo do esôfago dores agudas

O medo doía por ela, o ribombo.

A tragédia pincelou-se em tela

O mundo escureceu em treva

Nem a velha ponte, nem estrada

O mar me atravessava o peito toada.

Meu grito de esbaforida dor diluído

Na tempestade que me escorre a face,

Somente ao chão negro lenço caído

e minh’alma profundamente escurece.

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