Se soubesses olhar meu coração
Como vejo no seu mole ternura
Saberias apreciar do beijo a doçura
Se despisses da boca o ferrão.
Encantar-te-ia nos sabores das uvas
Enquanto inda não colhidas.
Apreciarias da adega cada gota
Sublime essência da felicità.
Terias a mim apreço nobre gesto
Se lembrasses do meu perfume
Sempre que dedilhasse os seios
Ao se despir antes do banho.
Conseguirias consentir o verbo
Única forma de excluir a dor
Salvar-te do engano do ego
Coita dos lençóis insípidos.
Ouço dos aposentos cheiro libertino
A fêmea de coloratura tom raro
Em seu quarto medievais sopranos,
Confesso-lhe múltiplos orgasmos.
Sinto tua presença pulsando
Por detrás do véu esfumaçado,
A lírica não esconde sensação
de inigualável reprovação.
Tua respiração ofegante fibrila
Ao fitar minha compleição
Ficas trêmula, sem disfarce nem ação
Impulsionadamente me atrevo, frila.
Três passos arremetidos aos gritos
As copas espalhadas, valetes apostos
Ao quarto passo ordena
Cortar-lhe a cabeça!
Ó sofisticada teia arremetida ao vento
Que de nobre tu não tens nada
És uma casca velha encoberta
Já não tens mais nem sentimento.
Por que choras agora?
És rígida feito uma porta
Que me importa se não vês!?
Que de amores morro.
Sofro calado por tempos
Vivo a lhe beijar mão anelada
A te fitar apaixonadamente
Inda sim, recusa-me!?
Tua alma tem anseio e canção
Do escuro quer sair e clamar
Ah se soubesses olhar meu coração
Como vejo no seu ternura.
Lançar-te-ia em meus braços
De amor morreríamos afogados
Abusados da aglutinada saliva
Entrelaçada na voracidade da língua.
Desenviúve-se ao raiar do dia
Abra todas as portas e janelas
Saberei que estais pronta
Não precisas mais do recato.
Não me irritais mulher!
Já a cortejara por longas datas
Sinto que me queres abocanhar
Como um cordeiro sem lar.
Porquanto façamos singelo acordo
Não despertará a vizinhança
Esta tua preocupação moral
Tão descomunalmente escabrosa.
Amanhã vais à cerimônia
Use quantos véus quiseres
Os mais escuros possíveis
Não hão de notar teu júbilo.
Faças o mesmo caminho horas
Troque ideias com as senhoras
Demores quanto quiseres
Mas apresses!
Estarei aflito...
Sem saber de ti, repito
Ecos nos vastos corredores
Donde vivemos como sonhadores.
Quando chegares da vila rodear
Nos jardins a me procurar,
Tão recluso e inquietante íntimo.
Amargarei paciência.
Último lacrimoso rito fúnebre
Vais encharcar os negros lenços
Soltá-los aos ventos revoltos
Na permissão concedida em febre.
Séculos neste casarão sombrio
A apreciar tão belos cabelos
A observar em miúdos apelos
Na perfumada banheira o vazio.
Tudo absurdamente calado
Silêncio ecoado das horas
Tensão das ocupadas demoras
Infinito quadro de parede congelado.
As aves não estão cantando mais
Não há cachorros lá fora
Não escuto barulho dos animais
Nem da velha charrete agora.
Por que eternizastes o regresso?
Esta casta devoção ao passado
Por que és tão desumana?
Insuportável doce crueldade.
Impacientemente inquietado
Não vens, não vens, vou montado
Incontrolável abalo sísmico vassalo
Selado no melhor cavalo.
Tempestade surrava lombo
Rios cuspiam águas violentas
No fundo do esôfago dores agudas
O medo doía por ela, o ribombo.
A tragédia pincelou-se em tela
O mundo escureceu em treva
Nem a velha ponte, nem estrada
O mar me atravessava o peito toada.
Meu grito de esbaforida dor diluído
Na tempestade que me escorre a face,
Somente ao chão negro lenço caído
e minh’alma profundamente escurece.