É em uma catedral que entro e me abandono. É lá que solitário ajoelho frente aos ídolos de outrora, os mil anjos de asas prateadas e os pequenos demônios de rostos risonhos. Lá junto as mãos, mas não rezo; não imploro, não peço, não obedeço à vontade de um Altíssimo: lá os desejos de uma farsa não me interessam, a não ser que essa farsa seja minha… Lá espero, e na esperança respiro o ar violeta que me cerca. Solene me curvo ao chão, sitiado pela luz disforme de um firmamento espelhado, fundindo-me à solidez inabalável de cada coluna, transmutando-me no cintilante resplendor de toda arcada milenar.
Largo-me nas ondulações desse templo; desintegro e refaço o tempo em mim, respirando na ebulição das cerimônias passadas, na inanidade dos arautos de toda fé, na recordação pétrea, hedionda, de um universo cuidadosamente forjado além desse universo, ainda que tão patético quanto qualquer outro que já demoli dentro de mim…
Lá minha alma se converte em pilar de ferro, minha consciência é arco de infinitas luminescências, claras sombras de cristais perenes: coisas que não me representam, porém me alegram em um momento que é tão estranho para mim. Sumo naquilo que não há, na monumental imanência de uma miragem vergonhosa. Sou pedra, sou paredes: um imóvel colosso que já não pensa, não sente, e apenas se contradiz pelo prazer de contrariar… Meu nome é apagado de cada pergaminho por mim escrito, e o que um dia foi batizado jaz inerte, inominado, junto às estátuas de outros santos amaldiçoados, outros profetas impessoais…
É lá que em cada ascensão permaneço preso à terra, que fraco sou quando me torno forte, pesado caio em cada voo… Lá sou uma barreira no caminho ao paraíso, e o próprio caminho; a rocha que não descansa junto ao solo, mas dentro de sua própria matéria morta e tensa, sonho negro, uma letargia de retardamentos que não podem mais ser revogados, ainda que na revelação das verdadeiras auréolas de qualquer céu… Lá, enfim, sou um ser refugiado em ruínas de uma catástrofe de promessas, desejos que ao menos nunca foram meus, estórias tantas vezes repetidas, mentiras gritadas ou, em lábios mais puros, sussurradas com pudor…