CAPÍTULO II
Turma Perfeita
1995, o Ensino Médio não havia chegado ao seu fim ainda, dentre tantas aventuras diárias vividas com a melhor turma de todos os tempos, algumas comemorações se tornaram rotina na vida de quarenta e dois adolescentes. Uma turma geração saúde, período noturno de aula, a maioria pratica algum esporte e disputa campeonatos representando cidade e estado; três ou quatro que fumam, drogas que se sabe de quem curte era somente três, porém na cachaça, não se salva um! Sabe aquele ditado “éramos felizes e não sabíamos”, pois bem, tudo verdade, e olha… Não tinha um infeliz ali na turma que não trabalhasse desde os 15 anos, uns até mais cedo que os outros.
Indo para missão mais árdua do dia, estuuuudaarrar… Help-me! Ninguém me ouviu? Socorrooo gente!? Alguém matando aula? Não!? Que absurdo isso! Uma afronta petentoscópica… Adoro neologismo. Tem gente que sente tesão acertando as questões da prova, tirando 100 no boletim, é… também faço isso, mas Educação Física é interessante, vocês devem ter boa noção; a troca de roupa, some o uniforme padrão e eis que ressurge do Olimpo, roupas aconchegantes para facilitar a movimentação do corpo, ôôôhhh… e que movimentação! Faço qualquer cálculo de física, nas aulas de educação física, enquanto jogamos, ou enquanto os guris jogam. Primeira, “Lei da Inércia”, foi a primeira de Newton, o cara dizia que os corpos, véio... Quando nenhuma força era exercida sobre eles véééiiooo… Eles permaneciam em repouso véi do céu! Notável pensamento do cara, ainda completa com o movimento retilíneo uniforme, exemplo, eu dirigindo sem saber fazer isso, nossaaa siiinhooraaa.
Contudo, entretanto, todavia, 100% sei fazer a parte do repouso como ninguém, era até atraente esse momento. Depois de algumas partidas de vôlei, ficar sentada na pequena arquibancada da quadra, muita água, os meninos jogando e já tirando a camiseta, as meninas que estavam de top também. Caarraaccaaassss véio! É pior ficar parada, o capeta nem te incomoda, dá logo uma porrada na cara a cada saque; pois sim, 1,85 de pura gostosura, quatro gominhos de tanque bem definidos, atleta, pensaaaa… Levantou a bola, correu, sacou.. pá! Opa, apareceu mais um gominho sob aquela gota de suor escorrendo, uma deltóide espetacular, bicípete braquial então, que que é isso senhooorrr! Doze no total, mas parecia só haver sete; o dicionário explica isso como atração, um divertimento, é… também acho; não obstante o sentido figurado distingue melhor a sensação de agora, como de atração no efeito de sedução, a indução do pensamento, o desencaminhar da imaginação por causa dos encantos, o despertar da admiração pelo corpo, o desejo.
Suada, boca seca, disfarça-se bem o tesão nessas horas. A professora gritou para entrar no jogo, putz… Agora não, paçoca… Catabum de Nagasaki! Simbora, simbora, deixa eu pegar posição aqui. Genntiiiiii, vou ter uma síncope, assim não dá; concentração, tapa na cara, vamos. Pela frente e na esquerda grande reto do abdômen, moreno de clube, 1,87, sorriso largo, eitaa nóis; à frente, grande oblíquo do abdômen, 1,78 e todo riscado nos braços, olhos azuis, mordia os lábios, ahh papai, pá… peguei a bola de susto, concentração, vamos. 1,91 à direita, grande adutor, vasto interno e externo, envolvidos por um dragão de komodo, vermelho e laranja. Raios, o jogo poxa! No entanto, com uma tibial anterior larga desse jeito, cuja derme é cheia de sardas, faz o coração disparar na área dos fundos da quadra; sem contar com gastrocnêmio interno do sacador, ai senhor, ajudai na percepção temporal da bola que volta, afastai a visão mais bela dos atacantes de grandes glúteos.
Enfim, tô ferrada! Voltarei para casa com várias medalhadas, amanhecerei com o olho roxo, por final, toca o sinal, a aula acaba; não fico triste não, na outra semana tem mais, um flash a cada aula. A turma era perfeita, tudo era programado para que a maior parte dos alunos da turma pudessem estar juntos, compromissos com os estudos, saídas nos fins de semana, noitadas, e os inesquecíveis piqueniques nas Chácaras. A cidade deve ter uns 52 mil habitantes no momento, nem sei, esse senso do IBGE é atrasado uns quatro anos. Praticamente todos os domingos, tínhamos esses encontros fabulosos com os amigos. tudo começou ainda no 1º Ano do Ensino Médio, um piquenique a cada dois meses, depois no 2º Ano um a cada mês, logo no Terceirão, a turma já tão unida, tanta afinidade, que se os pais deixassem era churrasco e goró todo fim de semana com essa galera.
Claro, as amizades foram se ampliando com outras turmas do mesmo colégio, e os domingos, ainda fantásticos. Manhãs e tardes de pura euforia, aqueles que eram acostumados com a lida da carne já iam para churrasqueira, outros colocavam as latinhas para gelar, quebravam o gelo e ajeitavam tudo em um isopor gigantesco; acostumados com a birita, cortavam limão, esmagava-os com uma porção de açúcar, e dá-lhe cachaça! E todos aproveitavam ao máximo o momento, ainda mais que sempre havia uma piscina enorme em volta do quiosque, argila do fundo bem fria, dividia-se espaço com os peixes, mas com direito a trampulim de tábua, pronto… Farra, som, baralho e piadas. Meio da tarde os sóbrios ficavam de olho nos cachaceiros suicidas, mania que uns tem de afogar as mágoas literalmente. Insolação, jacaré, sucuri, perniloncópteros, vishhhh dá nada não! Catetos que me mordam, ohh povo bom é esse do Mato Grosso!
Notavelmente um domingo, contudo e por incrível que pareça, não tem piquenique; impressionante, só tem um clube na cidade, então, boa parte se viu, jogou bocha, sinuca e ping-pong, queimamo-nos mais um pouco, o tobogã então, 100% atração, gritaria do começo ao fim, maluco do céu! Um cai em cima do outro, essa molecada é fodástica, caraaacasss… Mais uma vez, e outra, mais trinta vezes, campeonato de mergulho agora, quem esparrama mais água. As meninas entravam no bolo sempre, muitos têm uma gana competitiva absurda. A noite já vem chegando, mas a energia, ahhhh essa parece acumulativa dia a dia; então, a galera combinou de se reunir mais tarde.
Início da noite, alguns sobreviventes começaram a chegar, barzinho, pizza, cerveja e boas prosas; de repente, do nada, pá… Bora no motel galera? O que? What? Cuma? Que isso, tá maluco? Ahhh para mulher, o ano já tá acabando e nunca fizemos nada desse naipe. Não, não, explica isso direito. É pô, bora zuar um pouco, estamos no último ano e sei lá se vamos nos ver depois, bora gente!? Deixa eu ver aqui, não consegui nem pensar o povo já tinha pago a conta, eeeiiita, vamo né, amigo é amigo, se bem que alguns eram mais que amigos ali. O carro lotaaaddoooooo, gente saindo pela janela, cantando horrores, mal cabia o “s” de horrores. Bem, chegamos, calem a boca, bando de mequetrefes! Chitiuuuu…. Olha a CDF falando. Cala boca jumento, não tá vendo que se tiver bagunça ninguém entra. Chiiiii suas amebas! Silêncio agora. Não respira! Depois de 30 segundos, pronto… Podem respirar agora. Rachei, tinha gente segurando o fôlego de verdade, que lerdo!
Abra te sésamo… E assim se fez, atrás da porta uma cama redonda, putz… porque ninguém tem cama redonda em casa? Primeira forma de observar os padrões da vida convencional. Será que cama redonda sugere sacanagem, e por isso todo mundo, praticamente, tem cama quadrada em casa? Que povo que pensa quadrado cruzesssss… A gurizada tá virado o tocha, vasculhando cada centímetro do quarto, frigobar com natu uiiiiii, já foi. Pronto, descobriram a banheira, ligando, enchendo em 1, 2, 3…. sabia. Pentelho do Caetano já se jogou na água, Elis e Vinícius também, só farra. Sonzeira, eu só observo, porque observar é a melhor parte, participar também, como nas aulas de educação física sabe, uma hora alguém vai arrancar a roupa, certeza. O jogo de truco na cama redonda até que tá massa, o natu é ruim pra cacete, a banheira já tá cheia, de repente uma calça voadora encharcada que vem e pááá, acerta as costa de Regina. Ahhh fiaaa.. não deu nem tempo, lá vem uma blusa e outra, cueca, saia, o trem bagunçou. Regina partiu pra banheira, guerra tava armada, a porta do banheiro se fechou. Yo y a armação ilimitada ainda no truco patifaria, ganha não pra vê rhum, era menos uma peça de roupa.
O bom que no baralho era boa até trançando as pernas, mesmo assim tava na hora de uma trégua, sequei aquele natus dos infernos de ruim vishh, o sofá tá me chamando galera fui, se alguém me deixar aqui eu juro que não faço delação premiada pra ninguém nem com reza. Renato foi pro banheiro, precisava chamar o juca, invocou-o com todas as forças abdominais… Do sofá, com os olhos fechados, ouvia bem sua invocação. Começou um bate “As” da pega na cama, fiquei só de espreita, queria ver até onde esses trouxas iriam, uma hora rolaria algo, estava sacando, Marisa não deixaria ser derrota por nada, Antônio Carlos que aguarde, já já ele é pego de surpresa, aiii minha cabeça. Renato saiu, deixou a porta do banheiro escancarada, ohh viado…. Fecha essa porta porra! Vai toma no cú, fecha você. Renato mostrou uns duzentos dedos para Caetano.
Renato capotou na cama, não deu dois segundos e apagou. Caetano saiu da banheira pelado, jhézzzzuuuiisssss, respira fundo, você está parcialmente dormindo; impossível, Caetano era um tesão, faixa preta de karatê, braço grande, perna grande, bunda grande, tudo grande senhor. Não dá, não dá, não dá… Dá sim, abri o olho direito e ergui o pescoço, já que estamos na chuva, guardaremos memórias juntos. Mal levantei, Caetano vai até Renato e lhe arranca a bermuda, deixa-o de bunda de fora, e que bumbum lindo, marcadinho de sol, sem nenhum pelinho à vista, lisinho. Olha a mente miraculosa pensando sozinha, será que é lisinho na frente? Incrível essa quebra de raciocínio…. Tento, mas o pensamento criativo e absurdamente curioso, dá saltos gigantescos, pula no fundo do abismo fazendo curva e mostra a língua para o Papaléguas. De longe, semi derrotada no sofá, sentia o rumo da noite tomar outros ares. Renato incapacitado e eu semi desidratada, não éramos problemas para eles.
Sozinhos, entre aspas, Marisa e Antônio Carlos cansaram de inventar desculpas para não parar de jogar, deitaram na cama, ele esparramou os braços e ela se acomodou em um deles; ambos já estavam praticamente nus, amigos de longas datas, parceiros de gargalhadas e armações, mas nunca haviam se olhado dessa forma, com carinho extremo, com desejo singelo, ambos se aproximaram mais, ele pôs-se parcialmente sobre ela, tirou o cabelo de seu rosto, passou o dedo em sua boca e a beijou; logo pensei, taí… um amor novo, marcante pelo momento, e que provavelmente vai durar um bom tempo. Estava ficando boa nessa arte, a arte de observar, vivendo as sinestesias dos detalhes, experimentado sensações sem tê-las por prática, mas ainda sim, não posso dizer que não a vivi.
As gargalhadas do banheiro eram hilárias, dava vontade de levantar a carcaça e me jogar; mas ainda não era o momento, o nascimento de algo especial era mais atraente a esta observadora principiante. Um longo beijo passional, movido pela paixão, causando-lhes comportamentos desprovidos de razão, no impulso do desejo carnal. A mão escorregou na alça do sutiã de rendas floridas de Marisa, os beijos de Carlos também escorregavam por toda face dela, mordendo-lhe suavemente o queixo, descendo em suaves beijos, na medida em que o tempo permeava a conquista dos seios rosados dela. “Queria ver mais... Através das frestas festas ocultas narradas dos feromônios, nas escuras ruas arestas, incandescentes e impulsivas cenas trogloditas, a língua afogava os gritos em suas retinas secas. Deixou os olhos verem a altivez e a virilidade, a boca escalar o corpo causando-lhe maçãs. Deixou o som do ranger da cama penetrar a incapacidade, Deixou-se tomar de sensações terrivelmente estranhas”.
Tomada por uma febril vontade, ela pede, ele maduro abre um sorriso de canto a olhando intensamente, entendia sua ansiedade, afobação e a desarma a escorregar umidamente a boca por seu abdômen. Carlos aproveita o momento mágico, era o que percebia quando observava como conduzia suas ações e tratava de sua fêmea. Ela sedenta, eufórica, incontrolável ao contraponto de Carlos, doce, sereno, capaz de fazê-la elevar os gemidos no tom que queria ao ponto de suspendê-los quando bem quisesse. “Assim desarmada, totalmente entregue a paisagem vistosa, ao deleite alarmante das vistas em pavorosa, extraordinariamente a melhor descoberta do não saber assimilar viscoso líquido surgido entre as pernas, e perceber no cenário a euforia da urgência do corpo em aclive”, remando, remando, remando como um remo a persistir no toque da água a impulsionar sua força, as idas e vindas do orgasmo.
Doce, doce, é o prazer, a eles da satisfação plena, imensurável, como o tocar da língua no sexo; a mim, o sabor da visita, da bela vista, do presenciar incalculável do poder ver e molhar a calcinha somente. “Deveria? Saberia a inocência viver sem fogo? Sem a vontade incontrolável sinestésica do incêndio? Talvez… Talvez a menina se torne compulsiva observadora; e quando soube dos outros detalhes, das mãos trêmulas de agora, da saliva exagerada, das mãos geladas no suor quente da pele, percebeu a fraqueza da calma e nada seria como antes dele. Enquanto não olhava, não entendia, não sabia e agora sua retina seca, indissociável pasma guia”. Quero ver até o fim, geme enfim, o gozo do incêndio e abranda.
Desculpa aí pessoal, não se mexam, não tô vendo nada, preciso fazer xixi. Renato capotado coitado, perdeu tudo. Adentro no banheiro, vou desabotoando, bexiga cheia aiiii. Óiaaaaa elaaaaa, eita esqueci, dá pra fazer um mergulho de meia hora por favor? Dá não, ahh para, já vi isso em pleno fim de exposição, vai dizer que esqueceu? Claro que não bocoió, mas não tava pelada, de saia e travada é mais fácil mijar na terra pô; mergulha aí vai, pronto, sentei… ahhh que alívio, ahhh Caetano, pô… Vinícius! Pô digo eu, xixi de litro isso? Tem fôlego pra isso não nega, bora…. Caminha pra cá, água tá quentinha disse Vini. Fecha os zóioss seus fiote de cruz credo; entrei, e não é que estava bom mesmo! E já fui perguntando, e aí, que que tá rolando aqui? Caetano, atentado de nascença, já foi abrindo verbo; olha, eu e Vini ficamos de prosa, relembrando as proezas dos velhos tempos. Que velhos tempos seu troxa, você só tem dezessete mané. Cala a boca pentelha, tô contando, você não perguntou horas.
Tá… vai lá. Então, no começo era só piada, histórias e natus… Putz, aquele trem ruim, eu tô anestesiada até agora. Pois bem, então, de repente as meninas começam a se pega na nossa frente, vê se isso tem cabimento!? Não tem lógica!? Tô Puto! Uéé, não gostou? Tá brincando!? É lógico que gostamos, amamos na verdade; coisa mais linda do mundo é ver duas gatas se pegando, ao vivo ainda, meu deusssss… E vocês fizeram o que, se pegaram também? Rachei na gargalhada agora. Dããrrrr… sua lerda, claro que não, batemos punheta embaixo da água, imagina. Ahhhhh que horrorrr…. Tô melecada de porra agora, seus vermes idiotas. Bora sair meninas, chuveiro e casa. Já deu por hoje. Calminha aí, não são nem meia noite. Por isso mesmo, já deu né Caetano, amanhã todos nós trabalhamos cedo, e tem aula à noite, matemática nas primeiras aulas, afff… que porre!
Bora então. Todos estão se aprumando no momento para a partida. E aí!? quem vai vestir o Renato agora? Eu não, não, não. Ahhh qual é gente, vão levar ele pelado? E quem disse que vou levar diz Vinícius. Ahhh seu azedo, deixa que eu visto o moleque. Simbora turma, a noite foi realmente inesquecível, e sabe porquê? Ahhh não vai dizer que Marisa e Carlos transaram e a gente perdeu!? Ããã, também, mas não é só por isso. Ah não, puta que pariu, perdemos isso!? Você tava vendo? Que isso pessoal, foi só uns flash. Bom, mas na verdade, a noite foi mega cool. Simbora meu povo que ainda tenho que deitar a cabeça no travesseiro e sonhar.
“... caixinha vazia já se decora de histórias sem guardas-roupas, desejos loucos de infringir regras dos tantos auroras, como fora sentir o cheiro do fluido a se consumir em urros sedentos, em becos escuros ou macias camas ainda correm límpidos. Se soubesse quando olhar aos 17, não seria fabuloso saber por si persuadir a textura das peras, o gosto viscoso e doce da rosada vulva, o toque do outro, a boca da outro, o calor do outro na chuva enquanto fecha lentamente os olhos e deixa o vestido cair”. Não sei como será o futuro de nenhum de nós, planejamos, mas o destino toma posse das ações de súbito. Só compreendo que viver requer saber viver, que toda vida desregrada demorará a se achar em si, mas que coisas boas podem surgir do nada, nem sempre é assim, mas tenho talvez sorte em ter amigos.