Após uma longa viagem, o navio Al Mar atracou no cais de uma pequena ilha situada no oceano Índico. Alguns tripulantes se ocuparam em abastecer a dispensa do navio com carne e rum, todos roubados nos pequenos armazéns situados na região, enquanto o Capitão Barba Cinza e seu imediato, o renomado espadachim Silvester, foram à caça de um tesouro, que, segundo um mapa adquirido no mercado negro, estava escondido no local.
Sem muita demora, os dois voltaram aos gritos, com uma grande saco nas costas e com uma feição assustada:
— Corram, companheiros! A marinha está aqui!
Uma explosão, misturada com gritos e tiros, é ouvida por todos, os quais correm instantaneamente para o Al Mar. Em questão de segundos, as velas já estavam abertas e o navio rumava para longe da terra. A marinha, sem pestanejar, fez o mesmo; com navios maiores e mais potentes, logo alcançaram os Piratas da Barba Cinza e começaram um confronto.
— Cadê o Justino? Precisamos dele agora! Antônio, vá chama-lo! — ordenou Barba Cinza e logo foi atendido. Justino, que dormia na cozinha após beber uma garrafa de rum, chegou ao convés e se colocou à disposição:
— Cá, ic, estou, ic, ca, ic, capitão!
— De novo bêbado, desgraçado? Enfim... Quero que você acione os canhões X30 agora. A marinha vai nos afundar!
— A, ic, marinha? Mas como, se estamos, ic, num mar de chocolate?
— Isso é óleo, burro! — esbravejou Silvester, ao agarrar Justino pelo braço e o leva-lo ao porão do navio — Eles pretendem nos queimar em alto mar!
— Com toda, ic, essa água?
— Cala a boca e vamos!
A marinha já tinha realizado duas séries de disparos e se preparava para a terceira, quando Justino e Silvester acabaram os preparativos para o contra-ataque. Os canhões X30 foram frutos da imaginação e de muitos meses de trabalho de Justino. Eles eram capazes de atirar bolas trinta vezes mais pesadas a uma distância trinta vezes maior do que as bolas dos canhões marinha. No entanto, existiam dois pontos fracos: só podiam ser usados uma vez a cada vinte e quatro horas e todos os canhões deviam ser acionados simultaneamente.
Os tripulantes estavam devidamente posicionados nas cadeiras especais destinadas ao uso dos canhões X30. Justino teve que ser amarrado, pois não tinha mais forças para ficar de pé, e Silvester estava posicionado para ativar os canhões.
— Atirar! — gritou Barba Cinza. A ordem logo foi seguida e uma grande explosão foi ouvida. Os canhões, que totalizavam dezesseis, atiraram em todas as direções. As madeiras rangeram ao ponto de dar a impressão que o Al Mar seria destruído. Uma forte fumaça cobriu o mar e mais nada pode ser visto. Antônio, após alguns minutos, foi o primeiro que teve coragem de abrir os olhos e verificar se todos estavam a salvo.
— Prezados piratas, vocês estão vivos?
— Estamos sim, prezado navegador.
— Capitão, estamos a salvo!
— Eu escutei, ó prezado navegador. Por que você continua com essa palhaçada?
— Pois essa alcunha me define perfeitamente.
— Hahaha, que palhaçada.
Após, Barba Cinza dirigiu-se à proa e viu que nenhum navio da marinha os cercava mais. O ataque tinha sido um sucesso!
— Piratas da Barba Cinza, escapamos! Os navios da marinha foram afundados! A nossa aventura em busca aos milhares de tesouros escondidos pelo mundo continua! Viva!
— Viva! — todos gritaram em coro. A felicidade de mais uma fuga realizada com sucesso estava demonstrada no semblante de todos. Justino posicionou um barril de rum no centro do convés, enquanto Antônio preparava peixes fritos para acompanhar. A festa estava novamente começada.
— Ei, tio! Tio, tio! Passa-me um daqueles peixes. Eles estão com um cheiro sensacional.
— “Tio”? Como assim “tio”? Você está louco? — respondeu Antônio, inconformado de ser chamado de “tio” e não de “prezado navegador” — E quem porra é você? Ei, chefe, temos um intruso aqui.
— Um intruso? Deixa comigo, chefe. Já faz tempo que não uso minhas espadas para decapitar alguém. Minha lamina negra até treme de alegria.
— Acalma-se, Silvester. Não está o reconhecendo? Esse é o nosso “tesouro”.
— Um velho era o que estava no saco? Não era ouro?
— Não, Antônio. O que conseguimos com o mapa foi isso. Como que sobreviveu ao disparo do X30?
— X30 são aqueles canhões? Vocês são malucos em disparar algo com aquela potência! Eu só não fui parar no mar, pois as cordas que me prendem ficaram presa num gancho. Eu quase morri!
— É, senhor... mas sua chance de morte continua grande. Quando fui com o Silvester procurar o tesouro, não pretendia achar um velho dramático. Eu queria era o tesouro. Então, seu amontoado de rugas, o senhor me diz onde está o tesouro, senão eu mesmo lhe mato!
— Ei, ei, ei, se acalma, seu... Você é o infame Barba Cinza? — o senhor percebe que toda a tripulação o olha consternada. A tripulação era conhecida como “Piratas da Barba Cinza” não somente pelo capitão possuir barba cinza, mas, sim, por todos possuírem — ó, acho que essa pergunta foi meio idiota.
— Então, vai dizer ou não?
— Pois bem, Barba Cinza. Se olhar bem no mapa que os guiou até o tesouro, verá um pequena ilha em formato de gaivota bem no canto inferior direito.
— Olha-a aqui mesmo, chefe.
— Deixa-me ver, Antônio.
— Então, essa ilha não existe e está aí só para que os marinheiros saibam que esse mapa é, na verdade, uma armadilha para caçar pirata.
— O quê?
— E o “X” no mapa é o local onde estou. Assim, quando eu avisar os marinheiros que piratas chegaram à ilha, eles saberão onde encurrala-los. Vocês só não estão presos, pois são muito fortes e inteligentes.
— O quê? Mas que filho da puta! Permita-me decapitá-lo, chefe!
— Hahahaha. Que história hilariante! Obviamente, quero esse velho vivo, Silvester. Deixe-o viver. Será útil. Coloque-o, por enquanto, no porão, para descascar batatas. Sinto que ele esconde alguma coisa. Mas vamos usá-lo como nosso faxineiro e auxiliar de cozinha por um tempo.
— Certo, chefe.
Silvester levou o velho ao porão e indicou onde estavam as batatas. Voltou ao convés e à festa que foi interrompida por alguns instantes. Os Piratas da Barba Cinza celebravam ao dia de aventura que viveram e pela certeza de que novas viriam.