Linha é Sangue, Traço é Pele
Aiori Von Satts
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 14/01/17 00:32
Gênero(s): Drama
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 7min a 10min
Apreciadores: 1
Comentários: 1
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Usuários que Visualizaram: 9
Palavras: 1256
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Notas de Cabeçalho

Também postado no Nyah! Fanfiction.

Boa leitura <3

Capítulo Único Linha é Sangue, Traço é Pele

Foram muitos anos esperando ser tocado novamente, ansiando pelo momento em que ela continuaria a me criar. Mas, se tivesse prestado atenção nos detalhes e circunstâncias que envolviam a minha criação, não almejaria tanto isso.

Da última vez, ela havia me largado em uma cadeira, no meio de uma frase. Como fiquei curioso com aquilo! A sensação de estar incompleto era terrível e, agora, finalmente seria terminado.

Enquanto ela esboçava, com um simples lápis, os desenhos que pretendia bordar, estranhei as formas tão incomuns. As posições de corpos, de facas e de venenos, todos calculados e feitos sem erro, com todos os cantos polidos e perfeitamente arredondados, formando algo belo à sua maneira, mas indesejado aos olhos e impedidos pela moral.

Eu sabia que havia algo de errado. Minha criadora nunca fora de planejamento e esmero, mas o jeito cuidadoso com que fui tratado naquela noite não me deixou ver o que estava ocorrendo — muito menos o que estava prestes a acontecer.

Quando a agulha me tocou pela primeira vez, ainda fria, senti o peso que ela e sua linha carregavam, guardando em sua extensão a tragédia há muito escondida.

Uma senhora de traços cansados, cabelos já começando a se esbranquiçar e olhos leitosos pela catarata jazia sentada em uma cadeira de balanço, idêntica àquela onde eu estive jogado por muitos anos. Sua cabeça levemente tombada para o lado expressava alívio, arrependimentos e surpreendentemente ostentava um grande sorriso. Porém, em seu colo, a tesoura banhada em sangue ilustrava sua outra face: a melancólica e viciada, quebrada e ferida de tantas maneiras que nada mais ajudaria. O pescoço cortado de maneira suja e bruta mostrava que somente as lâminas da tesoura conseguiram esse feito. As vestes claras da mulher, que cobriam desde seu torso até suas pernas, completamente sujas de sangue, eram só o começo. Ainda estávamos na primeira confissão.

Logo atrás da senhora, havia um homem deitado no chão, de olhos fechados e pele empalidecida, coberto por um lençol estampado com lírios amarelos. Um defunto sem a expressão de paz. As linhas que o completavam tinham cheiro de morte, abuso e merecimento, ao passo que sua imagem distorcida pelo costurar enraivado presente em sua concepção, confirmava tudo aquilo. “Se estávamos juntos na vida e na morte, eu tinha todo o direito de ser a causa da sua”, vinha junto ao pé direito do corpo.

Os nomes “Valentina e José Bianchi” no fim daquela imagem davam a eles uma carteira de identidade.

Acho que essa foi a imagem mais singular ao longo de minha extensão, para ser sincero. Familiares e casamento não pareciam importar nos desenhos seguintes.

“Sandro Fontana” levava uma xícara à boca, ainda nu em uma cama de hotel. Então sufocava, cuspia sangue e espumava, caindo morto em seguida. “Rua dos Perdões” o endereçava, marcando onde poderia ser encontrado para ter um funeral de verdade.

“Roberto Bragantino” era surpreendido por uma facada nas costas enquanto fechava seu cinto e a jovem acabava de arrumar a saia com uma mão grudada à faca e a outra na barra do vestido. As paredes escuras do beco diziam “Praça da Fé”.

“Eustáquio de Melo”, um senhor, beijava os modestos e ainda pouco desenvolvidos seios de uma menina, violando-a com uma mão que repousava entre as pernas descobertas dela. Com um tijolo encontrado em meio ao lugar bagunçado onde se encontravam e vários golpes depois, ele ia abaixo. Rindo, a pequena garota gritava “Avenida das Dores”.

Para a mulher madura, houve Jorges, Paulos, Fernandos e Dionísios e, para eles, chás, vinhos e cafés batizados por dedos amantes de veneno.

Para a jovem esbelta e corada, posições extravagantes e lâminas afiadas;

Para a pequena garota transtornada, ataques desordenados seguidos por sorrisos alegres por haver uma nova descoberta.

Ainda que desconhecidas entre si, as figuras eram estágios diferentes dela. Todas tiveram o sexo, a selvageria, o sangue e o prazer. Mas em nada elas foram iguais à idosa. Enquanto ela emaranhava suas memórias em mim, alternando fios e cores, porém mantendo o vermelho em todas as identidades, eu pude entender isso. Ela poderia ter feito suas famosas maltesas, admiradas por suas tias quando criança, mas cruzes sobre fios calculados eram parte do que deveria ir embora. Então, seus pontos acabaram sem muitos rodeios e soltos, marcando-me com um passado de tons e cores certas, onde o branco de uma confissão substituiria o negro do arrependimento, ao invés de um cheio de angústias causadas pela luxúria.

Por isso, ela continuou sua história exatamente de onde havia parado. Na mesma cadeira, no mesmo algodão, com as mesmas agulhas. Seguindo o mesmo ensinamento: “conte sua história, minha filha. Não importa como, não importa onde, não importa quanto tempo demore para acabar. Um dia, as mulheres terão alguma voz e, quando isso ocorrer, você estará na fila para ser ouvida”. Era o que se lia na linha deixada por bordar, rasgada e inacabada, juntamente à imagem de sua mãe debilitada com uma garota ao pé da cama onde a mulher descansava, esperando por seus momentos derradeiros. Perguntando-se como controlaria seus impulsos impuros sem sua confidente por perto, a menina chorava, desesperadamente.

Pessoas com hábitos compulsivos costumam se viciar novamente em outra atividade quando a anterior já não lhes proporciona prazer o suficiente.

Desde o início a dona das mãos que me faziam se arrastava pelas beiradas sujas da existência humana. Queria saber como seria o contato do sangue com suas papilas gustativas, tato, olfato ou onde mais fosse possível e, assim, desviar-se disso com o passar dos anos se tornou algo complicado.

Suas experimentações podiam ser traduzidas por seu sol ariano com tendências escorpianas, onde tudo entre quatro paredes se tornava seu reino pessoal. Quase como uma pessoa diagnosticada como histriônica¹, ela precisava ser o alvo de olhos e cochichos, demonstrando sua felicidade e prazer na forma de seu vício sanguinolento. Sujar suas mãos no sangue de seus homens era tão rejuvenescedor para ela quanto se banhar no de virgens para a Condessa Sangrenta².

Quando seu tempo veio e os atributos físicos que ela usava para a sedução se foram, a solução foi relembrar dos dias de ouro e planejar um último ataque. Aquele que vingaria todos os tapas que já havia levado de seu marido e orgulharia sua mãe. Essa seria sua nova obsessão.

Eu era a sua obsessão.

Minha relação com a costureira das mãos delicadas sempre fora triste. Ela não me adorava, enquanto eu a amava. Amava seus toques, seus desenhos raivosos e suas lágrimas em mim. Por isso, quando me tornei o portador de sua história, fui feliz como nunca; como nem deveria ser possível para mim.

Mas, de alguma forma, seus sentimentos se tornaram meus e agora eu sou capaz de contar-lhe essa história.

Não sei se você já experimentou a sensação de afogamento, esmagamento ou de ficar preso quando há a espreita da fobia, mas é como ser um nó. As curvas, ainda que suas próprias, inevitavelmente acabarão em um beco sem saída, te prendendo em si mesmo. Tentando sair dali você será abatido pela fadiga, depois de muito usar as forças para tentar ser flexível e, após isso, desistir será a única opção restante, deixando os embaraços permanecerem em sua natureza confusa.

Minha criadora vivia nessa sensação e, quando terminou a assinatura da carta de confissão que vim a me tornar, deixando uma resposta a sua mãe e o desejado ponto final, ela se desatou, metamorfoseando-se em uma linha reta.

A linha responsável pelo sorriso no nosso fim suicida.

“Eu contei, minha mãe.

Com pesar e arrependimento,

Valentina".

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Notas de Rodapé

1- "[...] transtorno de personalidade caracterizado por um padrão de emocionalidade excessiva e necessidade de chamar atenção para si mesmo, incluindo a procura de aprovação e comportamento inapropriadamente sedutor, normalmente a partir do início da idade adulta. Tais indivíduos são vívidos, dramáticos, animados, flertadores e alternam seus estados entre entusiásticos e pessimistas".

2- "[...] Isabel Bathory que entrou para a História por uma suposta série de crimes hediondos e cruéis que teria cometido, vinculados a sua obsessão pela beleza".

Ambas as citações são da nossa querida Wikipédia e quem quiser saber mais é só dar uma olhada no tio Google.

Coisinhas esclarecidas, eu só espero ver vocês nos comentários ♥

Apreciadores (1)
Comentários (1)
Postado 10/01/18 23:19

Que obra fantástica. Estou surpresa e boquiaberta.

Meus parabéns ❤