Quando foi que nos encontramos? Não passou muito tempo, mas ele seguiu de forma tão intensa que esse detalhe foge a minha mente. Pode ser que pelo meu modo de ver o tempo passar eu não consiga te dizer. De qualquer modo, eu lembro como tudo aconteceu.
Eu estava num canto abaixo de uma marquise aguardando a chuva forte de janeiro passar. Naquele dia enfrentei maus bocados. Desencontrei minha mãe, e antes tive uma chata discussão com meus irmãos. Não foi um dia fácil. Perambulei pelas ruas por horas sem nenhuma condição de conseguir algo que forrasse o estômago e a sede começava a incomodar. O pior de tudo era que ninguém parecia se importar. Eu olhava para os olhos das pessoas a minha volta e elas retribuíam com um olhar vazio e, muitas vezes, de desprezo. Por que as pessoas me olhavam assim? Eu desisti rápido de tentar entender assim que a garoa se transformou numa chuva pesada.
Permaneci sobre a marquise esperando aquela tempestade torrencial passar com a pior das expressões. Sentia frio, fome, sede e o pior de tudo: Solidão. Eu era tão jovem... Não sabia lidar com a frieza urbana e muito menos com essas necessidades. Sentia falta da minha família. De repente a companhia dos meus irmãos, que antes muito me aborrecia, parecia algo agradável. De repente ouvir os conselhos repetitivos e que eu julgava desimportantes da minha mãe adotiva me pareciam música. Calor, dormir juntos, comer juntos... Como eu queria ao menos um carinho nas orelhas...
Eu nem percebi enquanto estava imersa em pensamentos que estava chorando. Só percebi quando ele chegou, olhou em meus olhos e perguntou gentilmente: “Por que você está chorando?”. Eu senti que não precisava responder. Ele secou minhas lágrimas e proveu calor ao meu corpo levemente molhado. Senti-me abraçada pelo jovem desconhecido. Debaixo de seu guarda-chuva fui levada até um lugar seco que mais tarde descobri ser sua casa.
O jovem entregou-me uma toalha e mostrou sua casa. Olhei ao redor admirada. Era grande e tinha cheiro de madeira. Era como estar no outono. Após ter tirado o excesso, ele me deu comida e água. Sorri em agradecimento para o desconhecido. Olhei em seus olhos e senti algo que jamais senti antes: Um misto de gratificação com alegria ou satisfação. Eu comecei a me sentir estranhamente no dever de alegrá-lo.
E assim passaram-se muitos anos. Passei a morar com o rapaz que veio a se tornar um lindo homem. Cresci, deixei de ser alguém que temia todos e descobrir um forte sentimento. Ele preencheu os vazios que eu tinha e eu fiz o possível para não deixa-lo um segundo sequer triste. Algumas vezes eu exagerei, confesso, mas ele entendia que tudo que fazia era para ver um lindo sorriso em seu rosto.
Tudo estava bem até que ele trouxe uma mulher. Ele dizia que me amava algumas vezes, mas eu nunca sentia que era o tipo de amor que eu sentia por ele. Não gostei da mulher. Eu sei que era puro ciúme, mas ela era estranha. Não sei, eu só não gostava. Fiquei entristecida com ele e saí de casa para caminhar. Quis sentir novos ares, pensar um pouco para não acabar avançando naquela mulher.
Andei sem rumo cabisbaixa pensando por que ele não me amava como eu o amava. Eu sei que tínhamos grandes diferenças, mas... Eu cuidava dele e ele cuidava de mim. Isso não bastava? Sentei-me no meio fio observando meu rosto melancólico numa poça d’água. Eu era feia? Era tediosa? Por que ele não...
— Por que você está chorando? — Uma voz familiar sussurrou arrepiando cada pelo do meu corpo.
— Ele disse a mesma coisa — respondi.
— Eu sei.
Ela se aproximou de mim e logo em seguida fez um carinho. Aquela foi a mulher que cuidou de mim desde o nascimento. Perdi minha mãe assim que nasci, mas aquela senhora foi gentil e amorosa comigo o suficiente para cuidar até que eu pudesse decidir minha vida.
Pulei em seus braços e chorei. Contei todas minhas frustrações e meus sentimentos. Ela me ouvia silenciosa sem deixar de acariciar-me.
— O que eu faço, mamãe? — Em prantos perguntei.
— Há algo que pode ser feito, mas como eu sempre te disse: Tudo é regido pela equivalência — A mulher seguiu seu discurso filosófico e eu calei-me para ouvi-la com atenção — É isso que você realmente quer? Sabe que é irreversível... — Ela terminou.
— Definitivamente é o que eu quero.
Retornei com a mulher até sua velha casa. Lembrei-me de vários momentos durante minha infância.
— Como estão meus irmãos?
— Do mesmo jeito desde que os adotei: Brigando por qualquer bobagem — ela riu baixo — diferente de você eles não amadurecem nunca...
Sorri em resposta e continuei acompanhando-a. Pensei no que estava prestes a fazer e questionei a decisão que estava para concretizar. Pensei nos momentos felizes que passei com o homem e nas consequências de lutar por ele.
— Eu aceito — pronunciei as palavras que foram me ordenado.
Não senti muita mudança, confesso. Apenas o fato que eu estava mais alta e menos rápida.
— Não haja como sempre agiu — A mulher aconselhou-me.
Dei um abraço nela e corri o mais rápido que minhas pernas permitiam até a casa do homem que detinha meus sentimentos.
Foi difícil encontra-lo. Percebi que na minha nova condição era mais complicado se orientar. Corri desorientada por vários quarteirões até que fitei uma espessa cabeleira castanha. O homem estava sentado em frente sua casa com a cabeça abaixada e em silêncio. Corri até ele sorridente.
Ele iria me amar. Ele certamente iria me amar! Controlei o impulso de pular nele assim que me lembrei do conselho da mulher.
— Por que você está chorando?
O homem olhou em meus olhos. Seus orbes verdes estavam relativamente avermelhados. Senti meu coração apertar, mas permaneci o fitando na esperança que ele finalmente entendesse.
— Minha cadela fugiu e eu não faço ideia de onde ela pode ter ido.
Antes que eu pudesse dizer algo ele completou:
— Logo hoje... — Torceu os lábios — Amanhã vou para o exterior com minha mãe e se eu não encontra-la será o fim.