O relógio no alto da sala balança, lentamente, seu pêndulo contando as horas e marca, no exato momento, meia-noite. A moça soluça sobre a mesa. Seu pranto desgovernado foge a superfície retangular desta e pinga suavemente, os pingos e os soluços são os únicos sons audíveis em primeiro plano, em segundo, a geladeira escancarada, dessas mais modernas, começa a apitar alarmando a todos na proximidade que ela permanece aberta. Para a garota, o timbre parece insuficiente, a geladeira não consegue incomodá-la ainda mais do que a angustia no seu rosto nos passa. No piso da sala, um gato de nome extremamente banal - bichano - vai adentrando cautelosamente; sorrateiro, encara sua dona por um curto instante, pouco antes de mudar sua perspectiva para o chão e encontrar neste algo de muito maior interesse. A dona, agora observando o gato, percebe, finalmente, que seu exagero é extremamente descompensado e que como diz o ditado "não deve-se chorar sobre o leite derramado", assim sendo, levanta-se, põe em mãos um pano encharcado d'água e passa sobre o leite escorrendo na sala, joga-o sob a pia e vai deitar-se.