Jurema pegou o primeiro avião ao lugar mais distante que poderia ir com o dinheiro que tinha na carteira. Sentou-se na poltrona ao lado da janela, de onde mostrava os dedos médios de suas mão em riste e gesticulava de forma bem clara as palavras “vá se foder”.
Antônio não sabia se isso lhe agradava, mas decidiu acompanhar todo o fiasco de sua ex-namorada da sala de espera do aeroporto. Imaginou como deveria estar barulhento no interior do avião e como seu nome deveria está sendo fortemente difamado.
O casal, que já tinha deixado de ser um casal há três horas, estava, até então, num bar com os amigos quando uma propaganda de perfume passou na televisão.
— Que gostoso — ela disse.
— Que gostosa — ele disse.
Pronto, a inexpressiva faísca surgia, a qual foi suficiente para fazer dois barris de pólvora explodir. Os amigos, ao verem que mais uma briga doente iria começar, decidiram ir embora. Josimar, antes de se retirar com sua namorada, escreveu em um guardanapo: “vão se foder, seus filhos da puta! Filhos da puta!”. Felizmente, o casal não viu tal xingamento, com cara de desabafo, pois teria sobrado para ele toda a ira descontrolada de ambos.
E isso iria acontecer, pois Jurema e Antônio eram um barril de pólvora desunidos, mas eram um tanque de trinitroglicerina unidos; era impressionante como era fácil ativar a reação que os fissionasse ou que os fusionasse. No entanto, era desgastante acompanha-la e, por isso, ninguém ficava perto quando os dois estavam expelindo tanta energia.
Como dano da explosão, Jurema se encontrou sozinha no avião e Antônio, no aeroporto. Três horas depois da decolagem, Antônio estava em casa e com o celular na orelha.
— Marieta, a Jurema está indo a Rio Branco.
— E quando ela volta?
— Tomara que nunca mais.
— Ah, ela está sozinha? Brigaram novamente?
— É muito complicado lidar com sua filha, Marieta.
— Com certeza é. Você já reservou o hotel para ela?
— Claro que não! Só pedi para um amigo busca-la e não deixa-la desamparada naquela longínqua cidade.
— Óh... que boa ideia. Avisa-me quando ela chegar.
— Não pretendo falar com ela hoje.
— Sim, Antônio, sim... E diz para ela que a janta de Ano Novo foi mantida.
— Acabou o relacionamento, Marieta.
— Sim, Antônio, eu sei. E dessa vez é para valer.
— Fico feliz que tenha entendido.
— Claro que entendi. Espero-lhe para estourar as espumantes. Tchau.
Marieta era sempre incrédula ao fim do namoro do casal; tinha suas convicções, pois sempre os viu brigar e voltar. O relacionamento tem quinze anos de duração e vinte “fins para sempre” acumulados. Mas Antônio sabia que dessa vez era diferente; o namoro tinha acabado. Deitou no sofá e deu graças a Deus por ter se livrado daquela mulher instável. Ficou lembrando de todas as vezes em que ela brigou com ele por não entender uma brincadeira — tal como a vez em que ele a chamou de Flávia Alessandra, quem ela achava insuportável, ou a ofereceu suco de beterraba, que ela detestava, para celebrar o seu aniversário.
As três da manhã, Antônio saiu do banho, onde se lembrou daquela vez em que derrubou o sabonete no chão só para vê-la se agachar — ela não gostou nada da cara de tarado que ele fez. Antes mesmo de se secar, pegou o celular na mão e viu que Jurema tinha deixado uma mensagem: “obrigada”.
— Ao menos ela reconhece que lhe ajudei — esbravejou para si mesmo, ao olhar seu reflexo no espelho. No mesmo momento, notou que sua barba estava comprida, o que fez ele se lembrar da vez em que a Jurema a raspou por ele estar com a mão quebrada. E se lembrou, também, da vez em que ela foi lhe buscar no trabalho, pois ele tinha esquecido da consulta médica.
Jurema, as quatro da manhã, estava no aeroporto, com o coração acelerado. Ela sabia que Antônio estava a seu caminho, pois não se aguentava longe dela — e o reciproco, também, é verídico. Antônio pegou o primeiro voo para Rio Branco para buscar sua amada e ter tempo para voltar e celebrar a virada do ano em família.