Não me recordo de nada daquele dia. Apenas um clarão e vozes. Nem dor posso dizer que senti.
Minhas lembranças apenas recomeçaram quando finalmente acordei em um quarto de hospital e recebi a notícia que havia “morrido”.
Sim, para mim meu estado não era de alguém que sobreviveu milagrosamente a um acidente que nem se lembra. Perder partes importantes do corpo e depender de implantes artificiais só pra prolongar um pouco mais o sofrimento não é vida. Por mais realista que sejam as próteses de meu braço esquerdo e pernas, eu sei que não são minhas. Aparelhos auxiliares para ajudar em minha respiração. Microchips neurais para aliviar minhas enxaquecas. Alguns órgãos de meu corpo também haviam sido substituídos. Posso dizer que da cintura pra baixo nada é real. Não restou muito de mim. Sinto-me tão artificial quanto essas coisas que me mantem vivo.
Faz poucos dias que deixei o hospital e fui “cobaia” dessa reconstrução ilegal e ainda em fase teste. Em resumo, não devo ter mais que seis meses de vida. Tempo que passarei tentando entender porque meu irmão permitiu que fizessem isso comigo. Sim, entendê-lo. Porque perdoá-lo não sei se sou humano o suficiente para isso. Nem um momento sai de casa e Akira quase que passou a morar comigo apenas para ter certeza se eu ainda “funcionava”.
- Kouyou... Não vai comer?
- Estou sem fome. – respondi sem entusiasmo.
- Sabe Kou... Você ainda precisa comer.
- Por que Akira? Por que você simplesmente não me deixou morrer logo?
- Você é meu irmão. Claro que eu aceitaria qualquer coisa se fosse pra não te perder.
- E acha que eu gosto dessa falsa vida que levo?! Acha mesmo que gosto de saber que posso “parar de funcionar” a qualquer momento?!
- Kouyou... Se estivesse no meu lugar o que faria? Se o caso fosse invertido. Você não tentaria salvar seu irmão caçula indiferente do preço? – simplesmente me calei. Não tinha nem ideia do que responder. – Eu sei que sua vida tem sido uma droga após aquele acidente. Eu também não desejava nada disso pra você. Que droga... Você finalmente tinha conseguido passar na faculdade que tanto queria... Por que isso foi acontecer? – percebi que se ele continuasse falando acabaria chorando. Akira também estava mal por mim, isso era mais que visível.
- Tudo bem Akira... Eu só... Só não acostumei com nada disso. E minha cabeça tem momentos que parece que vai explodir...
- Deveria se deitar um pouco. Sabe que...
- Eu sei. Não deveria me estressar e nem te preocupar tanto.
Às vezes tenho pequenos flashes do ocorrido naquela noite. Eu tinha acabado de conseguir uma vaga em uma das melhores faculdades de Pedagogia. Sim... Eu queria ser professor. Estava apenas comemorando meu pequeno passo para um futuro que não existirá. Mas as cenas do acidente ainda são vagas... Talvez nunca me recorde.
- Kouyou...
- Acho que irei descansar um pouco mesmo. Precisarei cancelar minha matrícula também. Do que adianta ingressar em um sonho que não viverei para concluí-lo – sorri melancólico. Tanto esforço para nada.
- E o que fará sobre Takanori? – era mais um assunto pendente. – Ele estava viajando e nem soube de seu acidente. Como pretende contar para ele?
- Ele não precisa saber.
- Tem certeza disso? Vocês namoram desde que terminaram o colegial. Claro que ele teve mais sorte que você e passou de primeira na faculdade. E estudou fora durante todo esse tempo.
- Exatamente. Já não vemos a quatro anos. Apenas trocas de mensagens, rápidos telefonemas e, às vezes, conversas pelo computador. Não quero estragar nosso reencontro com essa notícia.
- Bom... Você decide o que achar melhor...
Eu tinha muitos assuntos pendentes para resolver naquele meu curto tempo, mas o pior de todos seriam agir como estivesse tudo bem perto de Takanori.
Claro que antes de tudo aquele médico requisitou me ver mais uma vez. Saber como eu estava me habituando. E assim minha “vida” ganha mais privações.
Teoricamente eu morri naquele acidente. Em outras palavras seria muito estranho se eu fosse visto andando pelas ruas. Logo seria obrigado a me mudar e em último caso até mudar de nome. A garantia que eu tinha de vida eram seis meses reduzidos para cinco por conta de problemas que poderiam ocorrer durante o protótipo. Naquele momento desejei novamente não ter essa vida. Apenas não pedi que encerrasse logo com aquilo pois ainda tinha um assunto importante a resolver.
Resumindo... Akira que foi até a faculdade informar o motivo de cancelar minha matrícula, enquanto eu me preparava para mudar para Tanabe, uma cidade na província de Wakayama. Buscando me afastar um pouco. Mais longe que isso deixaria Akira louco por não poder ir me ver quase todo dia. E apenas consegui voltar a morar sozinho porque o convenci que esse tempo aproveitaria com Takanori.
Akira também tem a vida dele, estava até de casamento marcado. Porém já faz algum tempo que não ouço nada sobre sua noiva. Espero que esteja tudo bem entre eles.
Takanori a princípio estranhou quando mencionei que resolvi me mudar poucos dias antes dele retornar para Japão. Porém acabou gostando da ideia pelo simples fato de não precisar voltar a morar com os pais e agora ter espaço para nós dois. Bom... Quero deixar meus pertences todos certos, em especial essa minha nova casa que tão pouco usufruirei ficará no nome dele. Poderá fazer o que quiser depois.
Mesmo que a maioria das coisas eu estarei deixando para Akira, não seria capaz de deixar Taka sem nada. Falo de uma maneira como se eu tivesse tanta coisa de valor... Bom... Eu dou valor ao que eu tenho.
Um dos poucos luxos que me dei foi de poder buscá-lo no aeroporto para poder guiá-lo até a nova casa. Como esperado ele estava feliz por finalmente estar de volta e claro que queria contar tudo sobre a viagem. Apenas o deixei falar fazendo algumas perguntas sempre que me dava alguma brecha.
Takanori havia ganhado uma oportunidade rara de poder cursar artes em Paris, França. A qual quase recusou por conta do tempo que ficaria longe e um pouco por medo de não ser fluente em francês. Os primeiros meses realmente ele deixou bem visível que foram difíceis durante nossas longas conversas a distancia. Mas apesar das dificuldades iniciais, soube aproveitar tudo o que o lugar tinha a oferecer e meio que ganhou uma segunda família. O casal que o acolheu e ajudou em sua estadia pareciam ser realmente simpáticos.
- Da próxima vez quero que vá comigo. Noah e Chloé disseram querer te conhecer de tanto que falei sobre você.
- Talvez uma próxima. – respondi ciente que isso jamais aconteceria, mas não precisava transparecer para ele.
- Algum problema Kouyou? Parece distante.
Apenas neguei com a cabeça. – Só estou tentando acompanhar toda sua animação e energia. Nem parece que acabou de chegar de um voo cansativo. – sorri.
- Ah... Realmente estou empolgado. – admitiu. – Mas foram quatro anos Kouyou. E olha você, quase que não te reconheço. Mudou drasticamente o cabelo e escureceu. Enjoou do loiro? E também parece bem mais magro. Não está se alimentando de novo? Está doente? – Taka... Por favor, não me faça perguntas que me obrigue a mentir.
- Você terá tempo para me contar tudo devagar. – busquei desconversar. - Pensei que iria querer tomar um banho e descansar da viagem. Ou conhecer o lugar.
- Tem razão. Preciso mesmo de um banho. Esse tempo que passei na França quase que desacostumei. – imagino... – Também não te perguntei muitas coisas, fiquei só falando da viagem. Então me diga, sei que já estava em nossos planos ver um cantinho só para nós, mas porque Tanabe? Pensei que sua universidade era em Tóquio.
- Aconteceram alguns imprevistos e no fim resolvi pensar em outra coisa.
- Só você mesmo. É por isso que ainda não terminou nenhum curso. Fica mudando de ideia quando consegue passar. Que bom que não desistiu de mim também quando fui estudar fora.
- Isso nunca, Taka. – talvez essa fosse a única certeza que eu tinha na vida.
- Mas então... Por que Tanabe? Como conseguiu se afastar tanto assim de seu irmão coruja?
- Ele está noivo e tem outras coisas pra se preocupar e eu quero aproveitar meu tempo também. Então não foi muito difícil convencê-lo, até porque ele sabe que você estaria comigo.
- Preciso visitá-lo falando nisso. Garantir que o irmãozinho dele está em boas mãos. – espero que um dia me perdoe por lhe esconder a verdade...
Devo dizer que perdi a noção dos dias. Takanori logo começou a trabalhar e eu, como meio de causar maiores problemas, evitava muitas perguntas e ele fingia que acreditava em minhas respostas.
Algumas coisas não dariam pra esconder por muito tempo, como as cicatrizes espalhadas pelo meu corpo, principalmente próximo as próteses. Foi quando comentei sobre o acidente que havia sofrido sem entrar em detalhes sobre gravidade. Ele ainda não parecia ter notado as partes artificiais, isso é a única coisa boa que vejo com a inovação da ciência e medicina, te ajudam a fingir ser normal. Quanto a minhas crises de falta de ar, enxaqueca e coração se tornavam cada vez mais frequentes e difíceis de controlar. Entre eles o pior era o terceiro caso. Os remédios também já não faziam tanto efeito. O que resultou a eu evitar ainda mais Takanori e ficar mais dependente de Akira. Até no final da vida tenho que causar problemas para meu irmão. Sua noiva apenas não reclamava de eu receber mais atenção que ela por saber de minha situação.
Três meses e Takanori já começou a ser mais aspero comigo por conta de minha ausência. Talvez eu consiga fazê-lo terminar comigo sem pena e sem saber a verdade. Não quero vê-lo preso a alguém sem futuro. Meus dias estão se esgotando, mas os dele não.
- Olá Kouyou. A que devo a visita? – por contas de algumas crises acabei deixando Akira me convencer de ir visitar aquele médico antes da data. Claro que ele me acompanhou para garantir. O pior que hoje era a folga de Takanori e eu tinha prometido passar o dia com ele. Nas mudanças de plano, a noiva de Akira o persuadiu a acompanhá-la nas compras. Por sorte eles se deram super bem desde que se conheceram, então ainda fico um pouco tranquilo. – Veio sozinho?
- Akira está esperando fora da sala.
- Imaginei. – sorriu. Era óbvio que não voltaria aqui por vontade própria. – Então me conte como tem passado. Seu irmão disse que você se mudou. – claro que alguém tinha que te manter informado. – Está morando sozinho?
- Fui para Tanabe e não estou sozinho. Estou tentando aproveitar meus últimos dias com... Uma pessoa. – detalhes não são importantes.
- E contou a essa pessoa sobre sua condição?
- Não tive coragem. – admiti. – Ele... Ela não parece ter reparado também meu lado artificial.
- Não se corrija. Então é um rapaz? Qual o mal nisso?
- Sim. É um rapaz...
- Para ele não ter reparado nada nesses últimos meses vocês não devem manter uma relação muito... “próxima”.
- Aconteceu duas ou três vezes, mas sem significado pra mim. Não consigo sentir nenhum prazer com esse corpo. Isso eu sei que ele percebeu, pois nunca fui bom em fingir. Também sei que deve se culpar achando que o problema é ele.
- Ainda acha que esconder a verdade dele é o melhor?
- Eu não quero que ele saiba! Já basto eu para me julgar... Eu não me sinto humano. Apenas... Uma máquina defeituosa.
- Seu corpo. Como está as dores?
- Insuportáveis. Respiração comprometida até mesmo com aparelhos. Os remédios já não aliviam minha enxaqueca. E eu esperava algo menos incomodo de um marca-passo.
- E não é incomodo se tomar as precauções corretas. Mas seu caso vai bem além disso. – sério? Nem notei. – Mas aproveitando que está aqui, faremos um check up completo de todo seu corpo. – vejo que esse dia será longo e sem boas expectativas.
Quando finalmente fui liberado me sentia muito pior psicologicamente.
- Pela demora e sua cara não deve ter ouvido nada bom. – Akira deduziu assim que se aproximou de mim.
- Me esperou o tempo todo?
- Não exatamente... Quando vi que começou a demorar pedi informações na recepção e descobri que você estava enrolado com diversos exames. Então fui resolver uns problemas e voltei quase agora. – pelo menos não te prendi aqui. - Mas me diga o que se passa.
- Devo ter no máximo três semanas. Pedindo muito, um mês.
- O que? Mas não eram seis meses antes?! Estamos na metade do prazo.
- Seis meses querendo ser muito otimista. Nos cinco meses eu já estaria teimando muito. No final talvez nem chegue a completar quatro meses com esse corpo.
- Mas não tem como aumentar esse prazo?! Caramba Kouyou... Eu não estou pronto pra te perder outra vez... Dessa vez sem volta.
- Desculpa por isso Akira... Mas não é certo continuar me forçando assim. Você viu como são minhas crises. Não é certo prolongar o sofrimento. Todo meu corpo é como uma bomba relógio prestes a entrar em colapso.
- ... Eu... Eu sei Kouyou. Ainda assim... É difícil aceitar.
- O médico perguntou se eu gostaria de por um fim logo nisso. Se eu já estava preparado. Fui eu que pedi mais algum tempo. Ainda... Tenho um assunto pendente.
- Três semanas... Pelo menos ainda terei meu padrinho de casamento.
- Como?
- Eu conversei com Meiko. Decidimos antecipar nosso casamento. Será no próximo final de semana.
- Mas já? Por quê? Há tanta coisa a se fazer, como pretende fazer tudo em pouco tempo?
- Será apenas no civil. Sem festas nem nada grandioso. Apenas para pessoas realmente próximas. E eu quero ter meu irmão para me parabenizar.
- Akira...
- É por isso que Meiko estava tão apressada para fazer compras, o bom que ainda serviu com distração para o Takanori e ela teve companhia.
- Akira... Obrigado.
- Só quero aproveitar o tempo. Viver como se não houvesse um amanhã nunca fez tanto sentido como nesses últimos dias.
E ele estava certo. Nunca tanta coisa aconteceu em tão pouco tempo.
Takanori e eu tivemos uma terrível discussão por conta de meu jeito evasivo nos últimos meses. Para ele eu estava o traindo e já não o amava mais. Eu apenas permanecia em silêncio enquanto era julgado. O que para ele era como se eu estivesse consentindo.
Adiantaria contar-lhe a verdade agora? Não. Nem antes e muito menos agora.
O que mais irritava Takanori era que ele queria discutir, queria que eu brigasse com ele. Mas apenas me calava.
A semana seguiu tensa para ambos, já nem dormíamos juntos. Ficar no sofá nem era mais um problema. Apenas deixamos isso de lado durante a noite do casamento de Akira e Meiko. Nossos problemas não deveria atrapalhar o momento deles.
Eu queria aproveitar o máximo aquela noite. Seria minha última afinal. Era o que eu tinha decidido.
Apenas sinto por Akira quando a noite estava chegando ao fim. O quanto ele chorou ciente do significado daquele adeus. Deixei tudo pronto em suas mãos e depois que eu partisse ele estaria responsável por tudo que um dia me pertenceu.
Quanto a Takanori... Quando finalmente retornamos para nossa casa em Tanabe, tratou novamente de retomar a discussão a me ver pegando poucas coisas para sair novamente.
- Onde pensa que vai? – indagou ficando entre mim e a porta. – Por que continua em silêncio? Até quanto vai continuar fugindo assim?
- Por favor, Taka...
- “Por favor” o caramba! Você não vai sair daqui até contar tudo. O que está acontecendo? Eu passei mais tempo com a Meiko que o próprio noivo após o casório. O que você está escondendo? O que tanto falou com Akira?
- Ele é meu irmão... Qual o problema de eu falar com ele?
- Era o casamento dele! E não é só isso... Esses últimos meses você não desgrudava dele, até parecia que você era a noiva e não Meiko.
- Taka... – pausei buscando palavras. – Você gosta dessa casa? Da vida que poderia ter aqui?
- Não desconverse Kouyou!
- Só me responda isso.
- Claro que gosto daqui... Fiquei feliz no inicio, mas parece que você não. Está sempre fugindo. Fingindo. Diga-me o que está te incomodando.
- Eu não posso, desculpe.
- E por quê?!
- Não tenho coragem... – tentei sorrir evitando as lágrimas que ainda possuía. – Converse com Akira depois...
- E por que eu devo falar com ele quando meu problema é com você?
- Por favor, Taka... Eu fugi sim de lhe dizer a verdade e mesmo agora não consigo. Então... Apenas me deixe ir.
- Se você se atrever a sair por essa porta é melhor nunca mais aparecer na minha frente.
- Tudo bem... – assenti. – Eu queria pedir uma ultima coisa.
- Não terá nada se sair.
- Como queira... Takanori obrigado por tudo e... Espero que um dia me perdoe. – Takanori se manteve cético perante meu pedido e eu apenas passei por ele sem dizer mais nada.
Ali deixei tudo. Meus assuntos inacabados e meu último desejo não atendido.
Minha vida não havia sido ruim, mas não existia mais. Não tive uma segunda chance, apenas um acréscimo para me preparar para o fim. Não me arrependo de nada que fiz, mas sinto por aqueles que deixei sem uma explicação.