Ocupação
Giordano
Tipo: Lírico
Postado: 15/11/16 18:11
Gênero(s): Poema Reflexivo
Avaliação: 10
Tempo de Leitura: 2min a 3min
Apreciadores: 16
Comentários: 7
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Palavras: 449
Não recomendado para menores de dezesseis anos
Capítulo Único Ocupação

Que corpo é esse?

O que se passa em tua mente?

O que se destrói repentinamente?

Alguma certeza?

O que se foi?

O que se vai?

Algo fica?

(desmoronou)

Quem te espera ao fim do dia?

Quem te abandonou antes do raiar?

O que é o raiar?

Já viu algo além do dia se pôr?

Algo além do imposto?

Já disseste uma palavra tua?

Já agiste sem temer a reação dos demais?

Já foste quem dizes ser?

Já vem a chance de ser você mesma?

Já é presente?

(passou)

Já se perguntou do que não recordas?

Qual motivo dos distúrbios e desatenções?

Qual o motivo de não dormires quando anoitece?

O que é motivo?

É algo feito para justificar uma errôneidade?

É uma palavra que não nos inocenta?

O que é inocência?

Quem tirou a tua?

Quem te fez assim e julgou tua indecência?

Quem foi?

Alguém ainda vai?

Quem te protegerá dos demais?

(cessou)

Quem te defende?

Alguém te compreende?

O que sobrou do que sabias?

Algo te faz sentido nestes dias?

Quantas vozes te julgam pelo que te aconteceu?

Elas vem de fora?

Elas dormem contigo?

O que levou alguém a te levar para este abismo?

Existe justificativa?

Existe ação mais hedionda?

E quanto aos fantasma, ocupam teu próprio corpo?

O que te sobra além da culpa na própria carne?

(findou)

Quem já conheceu teu outro eu?

Eles te acham estranha por isso?

Alguém conseguiu conviver com teus traumas?

Com a violência da tua outra persona?

Vives a sós com a outra metades que não conheces?

Alguma vez alguém deu a entender que te ama?

Os remédios fizeram-te esquecer do que passastes?

(acabou)

Teu outro lado reviveu todos aqueles estragos...

As perguntas, um dia, pararam de vir,

Uma hora ela desmoronou,

Lutou, lutou,

Mas a dor nunca passou,

Os fantasmas que moravam no corpo

E as outras personalidades que tanto assustavam,

Que gelavam a espinha, descendo o torso,

Nada cessou...

Um dia, por volta da vigésima primavera,

Que apesar de assim os anos serem denotados,

Não tivera uma vida bela,

Decidiu que já era fim,

Não suportava reviver aquele pesadelo,

Sua vida findou.

Um dia, enquanto finalmente lúcida,

Impedida de viver pelos agouros,

Lembranças e dissociações.

Diziam que não era a melhor escolha,

Que ela poderia seguir a vida,

Mas como seguir algo que nunca foi só sua?

Por ao menos metade,

Nunca teve controle,

Nunca soube quem foi

E agora, era vários.

Nada lhe fazia sentido,

Tudo era insosso,

Tudo era amargo,

Tudo lhe era doloroso,

Assim, decidiu por terminar.

Aquela vida que nunca fora dela acabou,

O corpo,

Que corpo é esse, afinal?

Que marcado e demarcado

Por vívidos fantasmas

Todas em sua mente,

Parou.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Este texto é inspirado na história de uma jovem holandesa que recebeu uma autorização neste ano de 2016 para cometer eutanásia, aos 20 anos de idade. Ela sofreu abuso sexual dos 5 aos 15 o que lhe causou inúmeros transtornos e resultou nesta catástrofe que é a perda da vida antes mesmo de ter tido uma.

Apreciadores (16)
Comentários (7)
Comentário Favorito
Postado 06/12/16 04:30 Editado 06/12/16 04:34

Sr Giordano, teu texto é (na minha modesta opinião) simples e absolutamente um dos maiores e melhores poemas/mensagens já criadas e postadas aqui neste site. Tentar tecer um comentário depois de tudo o que foi dito pelos demais ilustres autores e colegas me soa redundante e até insuficiente para expressar e quantificar o que uma obra dessa magnitude (tétrica, trágica, abominável e ainda assim, realista e atemporal a despeito de ser atual) gera na mente e na alma da maioria dos (senão todos os) leitores.

Deixo então e apenas meu profundo assobro reconhecimento e admiração pelo seu trabalho, talento, capacidade e senso crítico para abordar de uma forma tão soturnamente perfeita algo tão monstruoso e infeliz quanto o tema/acontecimento aqui rica e perfeitamente narrados.

O senhor é um verdadeiro poeta e mestre, Sr Giordano. Muito me orgulha e honra ter a oportunidade de ler e aprender com tua escrita e visão privilegiada das coisas!

Atenciosamente,

Um ser que vive entre tantos outros e ainda piores monstros, Diablair.

Postado 04/02/17 13:53

Valeu, Diab!

Agradeço demais as palavras!

Postado 15/11/16 20:57

Cara, eu me perdi lendo.

Simplesmente muito bom.

Postado 16/11/16 00:10

Obrigado, Beatriz. ^^

Fico feliz que tenhas gostado.

Postado 17/11/16 11:32

Barbaridade, Gio, que texto mais foda.

Eu gostei muito da estrutura dele, da forma em que você construiu um dialogo (um monólogo, na verdade) no interior na cabeça de uma pessoa traumatizada pela vida que vida não era, e da da forma que você concluiu o texto, narrando o triste e desesperado fim, narrado por alguém que viu o sofrimento e a vida vazia do eu-lírico.

E a mensagem é muito forte. Viver pelo outros, pela mentalidade dos outros, pela opinião, pelo julgamento do outros. É preciso muita força para não cair no desespero, visto como as pessoas agem por serem ignorantes e influenciadas por formadores de opinião cada vez mais sujos.

Adorei o texto. Está muito profundo e com uma mensagem bem concreta. Parabéns!

Postado 17/11/16 13:02

Pois é, Chico.

Eu li sobre este caso uns meses atrás e fiquei perplexo, como alguém consegue fazer tanto mal a alguém tão deliberadamente? E queira ou não, uma vez de volta ao mundo essa pessoa teve que lidar com o fato de que não conseguiria confiar em alguém de modo algum e que as pessoas nunca lhe olhariam como se fosse só mais uma pessoa, ninguém lhe consideria "normal", ela teria que viver não só com todos os traumas que a afetaram, mas também com a reação das pessoas ao que ela era, é muito triste ver um caso deses.

Agradeço o comentário. xD

Postado 17/11/16 23:49

Meu na boa Red, que texto incrivél. Meus parabéns, eu adorei poder ler esta história. Você manda muito bem.

Postado 18/11/16 00:22

Obrigado, Vitória!

Fico feliz que tenhas gostado. ^^

Postado 20/11/16 12:49

Nossa, eu nem sei expressar como me senti lendo isso, mas tive que vir parabenizar.

Que incrível!

Postado 20/11/16 13:33

Brigadu, Fê! :3

Postado 28/11/16 17:02

Ótimo texto, é bem chocante mesmo o potencial que temos tanto para fazer o bem quanto para fazer o mal, é uma crueldade que assusta ao imaginar que esta acontecendo a todo momento em algum lugar do mundo... quero a muito tempo abordar esse tema em um texto meu, mas acho que ainda não tenho "tato" pra isso.

Postado 28/11/16 18:47

Não é fácil abordar temas do tipo, não há como não sentir algo ou se deixar levar, mas o tema vem, hora ou outra você descobre teu modo de abordar. xD

Fico feliz que tenhas gostado! ^^

Postado 25/01/17 01:24

Mas o gio não posta poema, posta uma maravilha

Postado 04/02/17 13:58

São seus olhos brisados confundindo a senhorita.

Postado 04/02/17 14:25

Ownti