Fazia frio e estava escuro. O vento gélido daquela noite parecia trespassar o vitral do monastério, com o intuito de atingir meu coração que já se encontrava agitado por detrás do amito de minha vestimenta litúrgica. Recordar um certo Natal na Baviera, o sexto dia do último mês do ano, era algo que trazia um grande infortúnio para minha alma que buscava encontrar a paz em uma nova vida. Havia-se passado uma década após eu ter fixado residência na Áustria, mas aquilo ainda corroía minha sanidade.
Tinha certeza de que a dita “tradição” havia perdido espaço desde muito tempo atrás, quando o regime autoritário do Austrofacismo havia se instaurado no país. Pura tolice a minha em acreditar que as paredes sacras daquele salão renegariam aquele sortilégio que já estava em andamento.
Muitos adultos eufóricos apreciavam o grüner que era servido gratuitamente, e crianças temerosas ainda assim aguardavam o início do festival. Ouço o som ensurdecedor do sino que badala à meia-noite e aflige-me o próprio ser ao lembrar que não havia ali, ninguém além de mim e das imagens santas dispostas ao lado dos castiçais castigados pelo tempo.
O acólito Thomas estava doente havia dias, e as funções eclesiásticas estavam todas em minha responsabilidade como abade do monastério.
Os ossos de minhas decrépitas pernas, parecem perder forças para subir os degraus da longa escadaria que leva até o campanário. Não é a idade que cobra esforços heroicos para realizar aquele trajeto, sei que não. A minha convicção é de que o medo diabolicamente superou a devoção divina, e se converteu naquele sentimento terrível.
Enfim chego na antecâmara e salvaguardo meus ouvidos com os protetores auriculares deixados ali para a dada tarefa. Empurro a pesada porta de carvalho e não vejo ninguém diante do sino, mas isso não é o que mais me preocupa. O que me aturde a mente é que não há mais som algum e o desvanecer sonoro não teria se concretizado tão depressa, uma vez que, segundos atrás ele era tão alto que me causou-me até certa desorientação.
Um vulto é avistado se movendo entre as sombras que são projetadas pelo luar e a baixia iluminação provinda dos tocheiros ali postos. O som de um tambor encerra aquele breve período silencioso e do alto do campanário, uma luz vermelha é vista ao final da rua abaixo da torre do sino, onde a turba se aglomerava.
Figuras macabras marchavam pela via, trazendo fogo crepitante em enormes tochas improvisadas. Suas garras são como lâminas afiadas e só não assustam mais do que a sua face hirsuta, envolvida pela demoníaca dupla de cornos que brotam daquela testa disforme. A euforia cessa e o semblante dos adultos antes sorridentes, se torna absortos como o das crianças que choram e se escondem atrás de seus pais.
Para um festival que celebrava uma antiga tradição, na qual os “Krampus” eram reverenciados e saudados por manter as terras a salvo dos espíritos sombrios do inverno, aquilo estava muito fora do padrão de anos anteriores no Krampuslauf. Era verdadeiro demais e quando o mito se sobrepõe à realidade, a vontade da mente sã, é no abrigo da racionalidade, encontrar imediato conforto.
Uma das criaturas interrompe a sua caminhada e inicia uma espécie de louvor. Ela se ajoelha e em seguida se coloca de quatro, como um animal selvagem. O cântico proferido é como o choro de um bebê, uma hedionda criança que certamente não nasceu de algo vivo.
Aquela cacofonia logo trata de informar aos pobres mortais que aquilo não era brincadeira alguma, muito menos uma festa à fantasia em mais um ano de festividades. A pele “vestida” pelo demônio era crua demais para ter sido confeccionada com cola e pelo de carneiro como o costume regrava.
Jason envolve sua filha Trisha nos braços, e decide que fugir daquele antro é o melhor a se fazer para aplacar o choro da menina e preservar sua mente. Ele corre apressado, com os olhos semiabertos, mas tropeça. Seu tornozelo é constrito pela criatura que antes estava recitando sua reza hedionda e nisso, pai e filha são separados. Como que instintivamente no seu dever, Jason ignora o ser e consegue se soltar das garras, que dilaceram a sua pele em um movimento veloz fazendo-o gritar de dor.
A criança é impiedosamente pisoteada por cascos que parecem ter sido extraídos do Apocalipse da bíblia cristã. É uma visão aterradora para o pai e fulminante para os olhos do abade Janus.
- Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo, ó Santíssima Trindade, descei sobre nós. O Virgem Imaculada, Anjos, Arcanjos e Santos do paraíso, intercedei por nós.
As palavras expelidas pelo trêmulo abade, se transformam em sussurros quando ele vê diante de si, o que não poderia ser chamado de outra forma a não ser de "o demônio".
- Tentaste fugir de seus pecados se ocultando atrás de um mero pedaço de papel? Tu achas que obterá redenção clamando por misericórdia? – Disse a criatura.
- Meu passado é vergonhoso, porém o meu Deus é piedoso e me deu a oportunidade de reparar meus erros! – Bradou o abade.
- Onde estavas tua divindade, quando zombaste da moribunda mulher que queimaste nas chamas lançadas por ti no velho casebre? – A criatura falava pausadamente, e um odor como o de enxofre invadia as narinas de Janus.
Janus não queria desenterrar mais detalhes que estavam nos confins de sua mente. Para ele, tudo o que aconteceu em Munique, na Alemanha, fazia parte de uma vida que não era aquela designada pelo seu Deus.
O abade recua alguns passos e escorrega na beira da estrutura. Era o limite que o mantinha vivo face ao seu carrasco; e quase morto ao que se sucedeu após sua queda.
Empalado como o mitológico Vlad Tepes, Janus via aquele genocídio com a sua cabeça pendendo como se prestes a se separar do tronco. A dor era imensa, e o sangue que escorria do ferimento causado por uma das estacas de ferro, que circundavam o pátio do monastério, percorria o seu pescoço e ia de encontro aos seus olhos.
Ver o mundo banhado em sangue era angustiante. Mas Janus não recebeu a piedade que desejou no momento de sua morte. Ele ainda viveu o bastante para assistir ao massacre que era praticado por aqueles seres abissais. Seriam todas elas pecadoras?
Há pecados que até mesmo o diabo tem a atenção capturada. Se ele é um executor sem escrúpulos, inconscientemente a vontade de Deus foi feita. Mas se Deus é amor, como Janus passou a pregar, onde ele esteve mais uma vez para validar a sua máxima de que todos merecem uma segunda chance?
Este foi o relato do padre Janus diante do trono do amaldiçoado. Ele realmente estava interessado em ouvir do próprio, a sua história atormentada e esse era o seu castigo; contá-la ao príncipe das trevas até o fim de toda a existência.