Olhe fixamente em meus olhos. Antes que o próximo golpe me atinja, tente se infriltrar na alma de uma criatura tão receosa e , desistiva, se é que se pode falar desse modo.
Outro tapa.
Não irei desviar o meu olhar, por mais que você grite e me chame de demônio, irei te encarar com toda minha força, então me olhe fixamente, até a garrafa cair no chão e se estilhaçar.
Você resmungou, cambaleou e foi embora. Eu juntei meus joelhos em meio aos restos do que você era.
A noite morre mais uma vez. Roubo cada vez mais maquiagem da cor da minha pele, para que, numa tentativa desesperada, ninguém note e você se conserte enquanto isso. Porém, agora que já evolui para tudo, inclusive aberração... Será que existe salvação?
Cada vez que eu crescia, eu chorava mais. Chegaria um pouco onde eu não caberia mais no armário, ou mesmo embaixo da cama. Eu apenas te encararia.
Desta vez, você nem chegou. Me lembro de escutar ela chorar um pouco, implorando para que você parasse, mas tudo o que ela recebeu foi um telefone mudo. Talvez eu apenas esteja implorando por amor, um amor que eu nunca conheci.
Por que você se casou com esse cara?
Na madrugada, você mais uma vez voltou. O leve destrancar da porta da frente me acordou, me atirei em qualquer canto escondido, esperando tudo passar. Dessa vez, eu não fui a escolhida, mas isso não significa que eu goste disso.
Apenas termine de abandonar.
Não dormi, como quase todos os dias em que te escuto. Posso escutar até as batidas do seu coração e, por diversas e infinitas vezes, eu gostaria que elas parassem.
Eu rezei para o Diabo, ele quem sabe, te matasse.
Um dia, o rosto da minha mãe sangrava, no outro, eram meus olhos que choravam, no outro depois do outro, meu corpo que doia e ela quem estava desligada no sofá, depois dos calmantes.
A sacada de casa se tornou meu ponto de vigia. Queria atirar uma bomba a cada vez que você chegava.
Quando eu vi, a garrafa caiu, o rosto de minha mãe sangrava, levemente cortado, o seu rosto vermelho com um tapa. Você ergeu sua mão, eu te segurei.
Pela primeira vez me ergui.
Você me insultou e espancou, eu resisti bravamente. Até os carros da polícia chegarem, você já não estava em casa, e sequer voltaria alguma outra vez.
- Querida? - Meu esposo perguntou.
- Não é nada, eu só estava pensando.
"Eu sou uma vitoriosa", entre as cicatrizes do meu coração.