Ei, moça do olhar cabisbaixo,
O dia não vai tão cinza, né?
O céu anda nublado,
Mas não demora, logo limpa.
Um afago, um aconchego,
Um abraço, uma bagunçada no cabelo.
Olha aquele balão,
Vai até depois de onde a vista não alcança,
Talvez não consigamos enxergar tudo,
Talvez só a visão não dê conta,
Talvez para entender com perfeição
Precisemos um pouco de calma.
Lembra quando a gente brincava no parquinho?
A vida mudou desde lá, não?
Tudo parece mais obscuro,
Mais insípido,
Menos risível,
Menos visível.
Mas talvez seja só a madrugada que tá pra acabar,
Não demora no sol raiar,
É só lembrar que a lua também se põe,
E o escuro vai se resumindo a um fio no clarão.
Talvez nossa infância tenha-se ido
E rir não parece tão fácil,
A tristeza às vezes é forte
E a desesperança nos sacode,
Mas se há com quem andar,
Até o desespero é menos palpável,
Falar pode acalmar os ânimos mais irritados.
Sei que nem tudo vai tão bem,
Que ser feliz parece uma nostalgia de outrora
Ou um futuro inalcançável,
No presente? Improvável.
Mas a gente que suporta um pouco mais a cada dia,
Também divide com os outros um pouco da alegria,
A tristeza que atinge no fundo do quarto
É a mesma que sucumbe ao abraço amigo.
Reciclamo-nos
E na iminência do que não te trás leveza,
É lembrar de celebrar nossa essência
Que por birra ou insistência
Estamos aqui para durar muito mais.
O resto, bem,
Reticências.