Ele fugiu pro frio porque lá não era solitário.
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Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 02/10/16 22:50
Editado: 02/10/16 22:52
Gênero(s): Fantasia Reflexivo
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 4min a 5min
Apreciadores: 3
Comentários: 2
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Palavras: 689
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Notas de Cabeçalho

A gaveta não era escura, Eame que sempre reclamou de tudo.

Talvez eu tenha demorado um pouco para lançar outro conto...

Capítulo Único Ele fugiu pro frio porque lá não era solitário.

Nota cinco: Não acreditar em si mesmo.

Por dentro era muito escuro, ele não enxergava o Diabo nem o bicho-papão, se é que os dois não eram o mesmo ser morando no mesmo pesadelo, porém em diferentes lugares em diferentes horários, um debaixo da terra, e o outro debaixo da sua cama. Eame tinha sido preso dentro da gaveta já fazia duas horas, estava com fome e sede, seu pai sabia que ele sofria de claustrofobia, mas ele não deu a mínima para o sofrimento de seu filho, nunca deu; o pai sempre teve a ideia de que aquele menino foi um acidente inesperado e triste, nascido no lugar errado e em um mundo que o traria muitas consequências, como todos os outros mundos. Eame sentia o calor que os pratos os quais não eram usados a mais de um mês exalavam, ele sentia o nojo que o fedor da parede onde a gaveta ficava grudada causava, ele suava como um porco em dia de parto, e sentia a apreensão de uma galinha quando desta era roubado um ovo ainda quente.

Quando Brenda chegou ao hospital, por meio da ambulância que seu marido chamou logo depois de ser alertado por sua esposa que a bolsa havia estourado, a mulher foi levada até a sala onde iriam retirar dela o seu bebê. Com medo do que iria acontecer depois que os gritos começassem, o marido aconselhou sua mulher a fazer a operaçã0 cesariana, que foi o que ela fez. Depois de choros e agitamentos, um feto de dez centímetros foi separado da barriga de sua mãe já com o cordão umbilical cortado; os médicos, assustados e com os olhares preocupantes, o carregaram até a incubadora, onde este dormiu por sete meses seguidos. Muitas vezes os cirurgiões e outros doutores o consideraram morto e sem chance de sobreviver, mas nunca tiveram coragem de contar aos pais, que durante os sete meses não tiveram permissão para visitar o seu próprio filho.

Eame só foi conseguir sair de dentro da gaveta por volta da meia-noite e uma da manhã, seus pais já roncavam em seus quartos e a louça já havia sido lavada pelas mãos sinceras de sua mãe. O garoto, caminhando pela pia ainda molhada, tirou um tempo para verificar se algum bicho indesejado estava perambulando pelo chão polido da cozinha, mas, quando ia descer da pia até o solo para checar, se deparou com a janela que levava ao jardim aberta; ele nunca havia estado fora de casa, há não ser quando permaneceu todos aqueles sete meses segurado pelo sono dentro da incubadora, Eame queria ver o que acontecia no lado de fora, se nevava ou se ventava a brisa quente, se era perigoso ou seguro, ele sabia que a sua mãe havia o proibido de sair, mas ele não resistiu, sempre foi muito curioso, tanto que foi este o motivo de ter parado dentro daquela gaveta: a curiosidade de uma pessoa pequena.

O pai do minúsculo garoto nunca gostou das corridas que este de vez em quando fazia dentro de casa, principalmente pela área da cozinha, onde ele costumava tomar o seu café e ler alguns artigos no jornal todas as manhãs às seis horas. Em mais um dia qualquer e chato da semana, Eame resolveu vasculhar por debaixo da geladeira, procurar ratos ou intrusos que buscavam restos de queijo e seus variados para levar a suas respectivas famílias; acontece que o garoto não avisou para sua mãe e nem a seu pai que iria fazer aquilo, ocasionando o seu castigo e tristeza de dentro daquela gaveta.

Eame subiu até a janela, sentiu o vento e a sujeira que este trazia passar pelas suas orelhas, e olhou para o jardim branco, era inverno e chovia flocos de neve, mas o garoto não sentiu frio nem medo, afinal, ele queria muito explorar o mundo desconhecido que morava ao redor da sua casa. Ele se virou para cozinha de novo, abriu um sorriso e pulou da janela até a neve que parecia profunda e linda.

Quando o garoto chegou ao chão, ele afundou tanto na neve que se sufocou com o branco.

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Apreciadores (3)
Comentários (2)
Comentário Favorito
Postado 10/10/16 19:08

Hahaha, caralho. Que história louca, porra. Puta merda! Nota máxima em criatividade, pode ter certeza.

Quando eu comecei a ler, pensei que tu tivesses errado em dizer "gaveta" e pensei que o certo fosse "armário", ou qualquer coisa assim. Mas aí com o passar do texto, vi que era armário mesmo, e que o guri era de fato muito, mas muito pequena. Carai, como pode algo assim?

E foi reprimido por ser curioso... Eis outra coisa cabulosa, hehehe (embora isso não seja mais uma fantasia). E que triste fim que a curiosidade lhe reservou. Bem, na verdade, acho que quem o fez chegar nesse triste fim foram aqueles que não o permitiam experimentar o mundo, visto que é assim o melhor jeito de se aprender. Acho que todo mundo saiu perdendo nessa história...

Menos eu! Bah, eu adorei! Tá muito bom, muito bem escrito. Estou muito feliz em ter encontrado esse texto, que é algo diferente de que leio normalmente por aqui. Obrigado, senhor escritor!

Postado 12/10/16 19:59

Eu ainda não sei o porquê de eu ter diminuido o garoto hahaha. Juro que, quando eu fui revisar o texto, no momento que eu me dei conta do que eu estava escrevendo: sobre um garoto preso em uma gaveta, me veio a cabeça desistir do conto hahaha, mas ainda bem que não o fiz, assim não teria conseguido te entreter (eu acho)!

Você é do sul?! Mas bah tchê, que barbaridade. HAHAHA

Obrigado pelo comentário, valeu mesmo.

Postado 25/11/17 05:43

SATAN!

Que obra bizarra, macabra e tétrica temos aqui, Sr Nathan! Sua criatividade sempre se prova além de nossas expectativas! E o modo como suas obras são concebidas é por demais empolgante!! Estou aprendendo muito com o senhor!

Que conto mais insano! Sabe aquele tipo de estranheza que se sente ao assistir filmes como O Curioso Caso de Benjamin Bourton? Foi o que me passou pela cabeça conforme lia e via o sofrimento de Eame desde o seu nascimento até o fim da jornada dele.

E, novamente, as Notas iniciais do texto se provam cem por cento verídicas. Pobre garoto, literalmente sucumbiu à própria curiosidade...

Muito bom trabalho, Sr Nathan!

Atenciosamente,

Um ser que afundou até o leito do Inferno, Diablair.

#as01-134/188