Nota cinco: Não acreditar em si mesmo.
Por dentro era muito escuro, ele não enxergava o Diabo nem o bicho-papão, se é que os dois não eram o mesmo ser morando no mesmo pesadelo, porém em diferentes lugares em diferentes horários, um debaixo da terra, e o outro debaixo da sua cama. Eame tinha sido preso dentro da gaveta já fazia duas horas, estava com fome e sede, seu pai sabia que ele sofria de claustrofobia, mas ele não deu a mínima para o sofrimento de seu filho, nunca deu; o pai sempre teve a ideia de que aquele menino foi um acidente inesperado e triste, nascido no lugar errado e em um mundo que o traria muitas consequências, como todos os outros mundos. Eame sentia o calor que os pratos os quais não eram usados a mais de um mês exalavam, ele sentia o nojo que o fedor da parede onde a gaveta ficava grudada causava, ele suava como um porco em dia de parto, e sentia a apreensão de uma galinha quando desta era roubado um ovo ainda quente.
Quando Brenda chegou ao hospital, por meio da ambulância que seu marido chamou logo depois de ser alertado por sua esposa que a bolsa havia estourado, a mulher foi levada até a sala onde iriam retirar dela o seu bebê. Com medo do que iria acontecer depois que os gritos começassem, o marido aconselhou sua mulher a fazer a operaçã0 cesariana, que foi o que ela fez. Depois de choros e agitamentos, um feto de dez centímetros foi separado da barriga de sua mãe já com o cordão umbilical cortado; os médicos, assustados e com os olhares preocupantes, o carregaram até a incubadora, onde este dormiu por sete meses seguidos. Muitas vezes os cirurgiões e outros doutores o consideraram morto e sem chance de sobreviver, mas nunca tiveram coragem de contar aos pais, que durante os sete meses não tiveram permissão para visitar o seu próprio filho.
Eame só foi conseguir sair de dentro da gaveta por volta da meia-noite e uma da manhã, seus pais já roncavam em seus quartos e a louça já havia sido lavada pelas mãos sinceras de sua mãe. O garoto, caminhando pela pia ainda molhada, tirou um tempo para verificar se algum bicho indesejado estava perambulando pelo chão polido da cozinha, mas, quando ia descer da pia até o solo para checar, se deparou com a janela que levava ao jardim aberta; ele nunca havia estado fora de casa, há não ser quando permaneceu todos aqueles sete meses segurado pelo sono dentro da incubadora, Eame queria ver o que acontecia no lado de fora, se nevava ou se ventava a brisa quente, se era perigoso ou seguro, ele sabia que a sua mãe havia o proibido de sair, mas ele não resistiu, sempre foi muito curioso, tanto que foi este o motivo de ter parado dentro daquela gaveta: a curiosidade de uma pessoa pequena.
O pai do minúsculo garoto nunca gostou das corridas que este de vez em quando fazia dentro de casa, principalmente pela área da cozinha, onde ele costumava tomar o seu café e ler alguns artigos no jornal todas as manhãs às seis horas. Em mais um dia qualquer e chato da semana, Eame resolveu vasculhar por debaixo da geladeira, procurar ratos ou intrusos que buscavam restos de queijo e seus variados para levar a suas respectivas famílias; acontece que o garoto não avisou para sua mãe e nem a seu pai que iria fazer aquilo, ocasionando o seu castigo e tristeza de dentro daquela gaveta.
Eame subiu até a janela, sentiu o vento e a sujeira que este trazia passar pelas suas orelhas, e olhou para o jardim branco, era inverno e chovia flocos de neve, mas o garoto não sentiu frio nem medo, afinal, ele queria muito explorar o mundo desconhecido que morava ao redor da sua casa. Ele se virou para cozinha de novo, abriu um sorriso e pulou da janela até a neve que parecia profunda e linda.
Quando o garoto chegou ao chão, ele afundou tanto na neve que se sufocou com o branco.