Ele caminhava lenta e suavemente pelas ruas molhadas pela chuva, sem fazer sequer um ruído. Seus cabelos rebeldes caiam em seus olhos castanhos avermelhados. Sua boca contorcia-se no canto esquerdo de sua face; estava a morder sua bochecha internamente – ato que apenas fazia quando estava nervoso. Suas mãos, que estavam escondidas nos bolsos de sua calça escura, fecharam-se com força quando subitamente parou sua caminhada e sorriu.
— Eu sei que está ai. — Disse ele, sem emoção alguma. Lentamente inclinou seu pescoço para trás, olhando, de forma fria, para o ser atrás de si.
— É muito bom te ver também, irmãozinho. — Respondeu o outro, com um sorriso irônico a brincar em seus lábios.
— O que quer de mim, Luke? — Perguntou ele virando-se para encarar o rapaz a sua frente.
— Nosso querido papai mandou-me procurar você. Ele tem uma missão para lhe dar. — Respondeu o garoto ainda sorrindo. Seus olhos azulados em um ar de mistério.
O garoto observou Luke com cautela. Seus olhos castanhos fixos nos azuis do outro. Respirou fundo e se virou.
— Diga a Lúcifer que não farei nada. Ele pode escolher algum dos Baals. — Respondeu de forma curta e grossa.
Ouviu então a risada de seu meio irmão. Mordeu os lábios e fechou os olhos, tamanha era sua frustração. Sabia que Luke apenas fazia isso para irritar-lhe, obvio, e ele sempre tinha sucesso. Começou a caminhar novamente, sem dar nenhuma palavra ao garoto. Contudo viu-se encarando o rapaz de novo.
— Sabe que ele irá lhe caçar, caso recuse alguma ordem dele... Sabe muito bem disso, Elliot. – disse Luke, caminhando até seu irmão. — Já se esqueceu do ocorrido com Bael, o Infeliz? — Perguntou ele, rindo maldosamente.
Bael, o Infeliz... Um dos nove Duques do Inferno. Morto por Lúcifer quando recusou a ordem de matar milhares de humanos indefesos. Por mais que seja um Duque do submundo, ele ainda tinha o coração de um Anjo, tornando-se assim o Infeliz, pois se arrependera de ter caído com Lúcifer e os outros dois terços de anjos.
Claro que Elliot sabia o que havia acontecido com Bael. Afinal, por ordens de seu pai, cortara a cabeça do pobre demônio e a deu para os Cães Infernais. Foi por isso e mais trezentos motivos que ele resolvera fugir do Sheol. Trincando os dentes fitou Luke e suspirou.
— Qual é a tal missão? — Perguntou por fim, olhando para o céu nublado e escuro.
— Matar certa garota. — Respondeu Luke, sombriamente. Seu sorriso macabro tornou-se ainda mais aterrorizante quando seus olhos azuis tornaram-se totalmente escarlates.
A respiração de Elliot vacilou. Ele fitou seu meio irmão incrédulo com o que acabara de ouvir. Matar uma garota? Não, isso ele não faria! Preferia morrer a matar uma garota. Balançou a cabeça negativamente.
— Não! Eu não farei isso! Nunca! — Gritou ele a ponto de descontar sua fúria em Luke.
— Elliot, Elliot, Elliot... Recuse caso queira morrer. Aceite, se quer viver durante mais alguns séculos. — Respondeu o outro com um olhar de desaprovação. — Aqui está a foto da garota. — Disse enquanto entregava-lhe uma foto pequena.
Elliot a pegou e fitou a bela moça da foto. Sentiu algo remexer-se dentro de si e focou o olhar nos puros e inocentes olhos verdes dela. Seus cabelos negros destacavam-se contra a pele branca.
— Qual é... Qual é o nome dela? — Perguntou gaguejando.
— Alice Moore. — respondeu Luke, desaparecendo logo em seguida, deixando a decisão nas mãos de Elliot.
Era uma situação de matar ou morrer.