Nota quatro: Não falar alto no telefone.
// Teve uma noite que ficou na cabeça do menino como uma cicatriz, aconteceu no dia do aniversário de doze anos dele, um mês antes do pai partir rumo à guerra. Ele não exigiu muita coisa, apenas uma janta em família e um bolo bem decorado, foi uma janta muito longa e gostosa, todos comeram muito. Às onze da noite do mesmo dia, o garoto Florteado ouviu o seu pai conversando pelo telefone da sala, mas não sabia com quem, “O revólver está na gaveta de cima do lado direito da minha cama”, foi a única coisa que ele entendeu. Aquela frase ficou rondando pela sua mente por dois longos anos.//
Já fazia dois anos e quatro meses que o Prudurme, o ‘’Esgueiro’, tinha ido viajar para as trincheiras americanas com objetivo de servir ao seu país combatendo as forças inimigas. Com sete cartas seladas e enviadas para a família, o corpo dele foi encontrado sujo e fedorento afundado na lama feia do campo de batalha. Um mês antes de o Prudurme partir rumo à guerra, ele pediu que o seu irmão fosse morar na sua casa para cuidar da sua família, a esposa e o filho Florteado, na época com doze anos de idade, vigiando a moradia e livrando esta de parasitas indesejados, como guaxinins, gambás e bandidos.
Acontece que estes dois anos e quatro meses que o marido ficou longe da família foram o tempo perfeito para o tio seduzir a esposa de seu irmão e, dois meses depois da notícia da morte do Prudurme chegar a casa, se casar com ela tomando o lugar de homem da casa. O garoto nunca soube como o chamá-lo; se era de tio ou era de pai. O irmão do Prudurme era bom, gentil e amoroso, a mãe o achava igual ao esposo falecido; devia ser por isso que esta se entregou às mãos do homem e deixou-se apaixonar por ele, mas ela sentia que era uma situação diferente, a mãe agia como se tivesse casado com o mesmo marido duas vezes, ela não via o que tinha de estranho naquela relação, se é que havia algo. O Florteado, diferente da maioria das crianças que eram ‘’tiradas os pais e colocados outros’’, gostava do tio como a sua figura paterna, o considerava divertido e inteligente, o homem sempre tinha tempo para brincar com o filho, ou sobrinho.
Com dois meses de casamento, o padrasto começou a fechar a porta do quarto quando ia ir dormir com a esposa, o que o Florteado não estava acostumado. Toda noite, perto das duas da manhã, era possível ouvir gritos vindos do quarto dos pais, gritos baixos e agonizantes, que paravam cinco minutos depois de começarem. No terceiro mês, a mãe do Florteado começou a aparecer com manchas pelo corpo inteiro no horário do almoço, era na mesa da cozinha que o filho notava os hematomas nos braços da mulher, ela parecia muito fraca, gemia constantemente e andava mais lerda que o normal. Em quatorze anos de vivencia com a mãe, o Florteado nunca havia visto algo parecido no comportamento dela; depois do casamento com o tio, ela começou a agir e a se mover de um jeito muito estranho e diferente para o filho.
Na manhã do dia seguinte, o garoto, preocupado e aterrorizado com os hematomas sobre o corpo da mãe, começou a procurar uma resposta para aquelas manchas: Talvez ela tenha batido em algo? Não. Talvez ela tenha coçado a pele demais? Não. Talvez ela tenha tropeçado da escada? Não. Talvez alguém tenha agredido ela? A fúria tomou conta do corpo magro e branco do garoto, ele foi ao encontro do seu tio. O menino bateu os pés com força nos degraus da escada, ele parecia quebrar cada um, cochichava palavrões durante o caminhar pelo corredor, ele sempre teve a coragem de soldado que o pai tinha, não temia mais, ele não queria ver a sua mãe sofrendo mais uma vez.
O quarto dos pais estava vazio, o tio tinha saído para resolver alguns assuntos desconhecidos pelo garoto. Aproveitando que estava sobre o tapete do aposento, decidiu checar a gaveta de cima do lado direito da cama, ele abriu esta e, no canto sobre a sombra, embaixo de alguns papéis, estava o revólver de que o Prudurme havia dito. O Florteado ficou olhando pra ele, apreciando-o e desejando-o nas mãos, mas tornou a fechar a gaveta. Na gaveta de baixo tinha colado um adesivo com o nome do padrasto, era óbvio que o tio não queria que ninguém a abrisse, mas o filho não se importava mais com o que ele podia ou não fazer, o Florteado queria provas.
Dentro da gaveta havia uma caixa com outro adesivo, desta vez escrito “Trabalho” nele. O garoto retirou a tampa da caixa, e lá dentro tinham fotos, fotografias horríveis, escuras e vermelhas, assustadoras para os olhos do dele, todas eram vergonhosas e perturbadoras; nas fotos a mãe do Florteado aparecia nua, machucada e amarrada, chorando sobre os cobertores, coberta de hematomas e feridas, o garoto começou a chorar e gemer. No momento exato que o filho fechou a gaveta de baixo, ouviu-se um grito da sala:
- Olá, Família!
O tio havia voltado do trabalho. Chorando de ódio, em meio de berros e sussurros de raiva, o Florteado abriu a gaveta de cima do lado direito da cama.