Átomos e Sombra
Tháiza Lima
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 07/08/16 21:50
Editado: 05/09/16 14:50
Gênero(s): Romântico
Avaliação: 9.9
Tempo de Leitura: 6min a 8min
Apreciadores: 6
Comentários: 2
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Palavras: 976
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Notas de Cabeçalho

“Rapariga feita de átomos e sombra. Rapariga de um ponto ao outro e medindo quarenta e dois centímetros, rapariga impávida, rapariga serena. Rapariga apaixonada por igreja quinhentista, rapariga na moto a trocar velocidades a mudar o jeito.” Trecho de Descrição da cidade de Lisboa, Matilde Campilho.

Capítulo Único Átomos e Sombra

Ela uma rapariga feita de átomos, músculos e sinapses nervosas. Aquele tipo de rapariga que vai até a praça à meia-noite e deita na grama perfeitamente mal aparada para observar e conversar com as estrelas.

Rapariga dos cabelos castanhos, planos, sem graça. Rapariga de olhos vívidos, verdes, brasileiros. Rapariga de sorriso contagiante, rapariga de sardas, rapariga a rir descontrolada quando vê o rapaz levar um tombo de bicicleta.

Porque foi um tombo espetacular.

Ele é um rapaz feito de sombras, de fios negros enroscando no seu pescoço branco que nunca tomou Sol e olhos brilhantes e leitosos como a Via Láctea. Rapaz que se esconde atrás de óculos de grau e blusas de moletom dois números maior que seu manequim. Rapaz que de ponta a ponta mede 1,80, de cabelos arrepiados por conta do frio.

Rapaz de riso embaraçado, rapaz que desce a Cabo Aylson Simões na bicicleta azul da irmã mais nova para chegar na praça da Prainha. Rapaz que para em frente ao Convento, faz uma reza para Nossa Senhora e volta a percorrer o caminho até seu ponto de ouvir estrelas.

“Ora”, direis vós, “ouvir estrelas. Certo, perdeste o senso.”

A rapariga serena se contorce no terreno malcuidado a gargalhar. Ela por fim se levanta e vai para perto do rapaz caído, ajuda-o a se desenroscar da bicicleta e dá uma checada em suas pernas para ver se houve mais estrago que alguns arranhões e graxa para tudo que é lado. O rapaz a encara, incerto se deve confiar em uma estranha que a pouco achava graça de sua situação.

Mas ele não pode negar, ela era uma bela e cuidadosa estranha.

- Você parece inteiro, garoto, levanta do chão e vamos ver estrelas. – Ela diz com um sorriso, oferendo uma mão para aquele que continuava sentado. Ele fita a mão calejada e coberta por pequenos pontinhos desbotados, subindo o olhar por toda a extensão do braço desnudo da garota.

Rapariga feita de células e luz do sol, rapariga de shorts rasgados e blusa larga de alça fina, exibindo as clavículas proeminentes e os dentes e o cabelo preso em um rabo de cavalo. Uma rapariga contente em dividir seu lugar de ouvir estrelas com um rapaz de pernas arranhadas e moletom cheio de grama.

- Elas estão bonitas hoje, não? – A voz perfeitamente clara da garota se faz ouvir no silêncio confortável da cidade velha. Os sinais verdes em seu rosto apresentam a naturalidade íntima de quem frequenta aquele lugar mais vezes que se pode contar.

- Na América elas parecem mais brilhantes. – O garoto diz, simplesmente. Ele não quer admitir, mas as estrelas americanas poderiam muito bem ser opacas se comparadas às que estavam salpicadas aleatoriamente pelas maçãs do rosto da menina ao seu lado.

- Estamos na América. – Ela diz, socando de leve o ombro do menino ao seu lado. – Só porque não estamos na grande potência, não significa que estamos em lugar inferior. – A menina tem um aroma adocicado e ácido, como mexerica. Ela possui lábios da cor de Marte e há duas pintas entre o beiço superior e seu nariz arrebitado. – Daqui da Prainha podemos ver o Cruzeiro do Sul e as Três Marias, além de que a vista da Lua é privilegiada, não acha?

O garoto obscuro assente, porque ele não quer arranjar problemas.

Rapaz apaixonado por igrejas jesuíticas e bicicletas de dez marchas, rapaz que boceja discretamente e na ânsia de disfarçar olha para cima, para as palmeiras plantadas sem cuidado algum e o satélite natural da Terra que joga sua luz prateada no mar entre a capital e sua irmã mais velha.

Rapaz que se inclina para o lado de modo a espiar mais o espetáculo natural de peixes nadando pela baía de Vitória e pescadores remando seus barcos pela água escura. Rapaz que esbarra na garota distraída pelas constelações acima, e adolescentes com insônia trocando olhares curiosos no meio da praça.

- O céu... – O rapaz começa, apenas para disfarçar a falta de distância segura entre ambos. – Seu rosto parece um céu estrelado.

- Isso deveria ser um elogio? – A menina pergunta, impávida. Suas pupilas se estreitam, ela encrespa os lábios.

- Eu gosto de ouvir estrelas. – Diz o rapaz feito de sombras.

- E o que conversa com elas? – Indaga a rapariga feita de átomos.

- “Só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas.”

Rapaz que se assemelha a uma estrela em combustão. Rapariga que se levanta gargalhando da fala antiquada do pobre rapaz.

- Poesia não funciona comigo, mas foi uma bela tentativa. – Ela diz, estendendo novamente sua mão. Dessa vez, o rapaz repara que suas unhas estão pintadas de um prateado marcante, claro e límpido como seus próprios olhos. – Quer ir para um lugar bacana? – Ela põe as mãos nas cadeiras, jogando as costas para trás de modo a estica-las.

Ele arqueia as sobrancelhas.

- Está vendo aquele morro bem ali? Ele se chama Morro do Moreno. – O rapaz o conhecia, já o visitara vez ou outra com sua irmã. – Há um lugar especial mais ou menos em sua metade, uma trilha semiescondida pela mata que tem vista incrível da Terceira Ponte e das luzes de Vitória. Gostaria de ir? Ainda nem é meia-noite.

Rapaz revirando poemas antigos em sua mente, procurando as palavras certas para dizer à rapariga que fixava suas irises verde-louro, determinadas e hipnotizantes, em seu rosto pálido.

Rapariga revirando os olhos para a indecisão. Rapariga virando-se e começando a andar em direção à rua deserta, sem se importar – aparentemente – se o rapaz a estava seguindo ou não. Porque ela sabia que ele a seguiria.

Rapaz feito de escuridão, prosa e palavras retiradas de livros amarelados atrás da rapariga feita de constelações, esperança e composições harmoniosas tocadas à luz da lua. Adolescentes sem dormir aproveitando o conforto do anonimato enquanto se dirigiam para seu ponto de ouvir estrelas.

Pois é preciso amar para ouvi-las.

❖❖❖
Notas de Rodapé

Texto para o Desafio Quinzenal, o tema escolhido foi Estrelas ou Constelações (mais estrelas E constelações, na verdade xD). Eu ia colocar a citação das notas iniciais no texto, mas ele já tinha 987 palavras, então, bem, quase que eu excedo o limite de palavras ^^'

Ah, só para situar: seguindo a Rua Cabo Aylson Simões, você vai parar bem na entrada do parque da Prainha, o qual tem um espaço enorme de gramado com umas árvores aqui e ali. No final, tem uma "praia", digamos assim, bem pequena e simples, que dá vista para a cidade de Vitória (capital do ES), a Terceira Ponte (cartão postal) e o Morro do Moreno. A respeito desse Morro, o ponto especial anteriormente citado realmente existe, e a vista de lá é INCRÍVEL. Quase ninguém vai lá, aproposito.

"entre a capital e sua irmã mais velha" -> essa passagem se refere às duas cidades mencionadas, Vitória e Vila Velha.

Bem, espero que tenham gostado :3

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Comentários (2)
Comentário Favorito
Postado 07/08/16 22:04 Editado 07/08/16 22:08

Incrível, simplesmente incrível! Nada mais a declarar, deixarei que as estrelas, caso queriam, falem o resto.

P.S.: Todas as honras, sussurros e risos envergonhados das estrelas para o teu texto, Thaíza!

(Pensei nisso depois do comentário u.u)

Postado 07/08/16 22:14 Editado 07/08/16 22:16

Meu deus, senhor, você realmente não perde tempo 'u'

Eu ainda não sei ouvir estrelas, mas sei sentir gratidão por ter tirado seu tempo e deixado um comentário. Muito obrigada, Gio, de verdade! Nada mais a dizer :3

Edit: Eu li a edição depois que postei a resposta -.- por que risos envergonhados? a não ser os meus próprios depois de terminar de ler qq obrigada de novo <33

Postado 07/08/16 22:17

Eu que agradeço pelo texto completamente fantástico!

Pode não saber ouví-las ainda, mas tá quase na hora de elas começarem a ouvir-ti.

Ainda nãu superei como este texto tá bom.

Postado 08/08/16 22:42

Eu bem que adoraria estar ali aproveitando a visão desses dois jovens tão pecualiares e interessantes. Eu adorei como foi feito o texto, me deixou bem feliz e interessada no que pode acontecer depois!

Parabéns e boa sorte no desafio quinzenal :D

Postado 02/10/16 16:11

Fico feliz que tenha gostado, Juh, e acho que melhor do que aproveitar a visão dos jovens, seria observar as estrelas junto a eles quando eles subirem o Morro do Moreno. A atmosfera noturna é a coisa mais pacífica e envolvente que existe ;3

Obrigada, do fundo do peito <3 <3