Ela uma rapariga feita de átomos, músculos e sinapses nervosas. Aquele tipo de rapariga que vai até a praça à meia-noite e deita na grama perfeitamente mal aparada para observar e conversar com as estrelas.
Rapariga dos cabelos castanhos, planos, sem graça. Rapariga de olhos vívidos, verdes, brasileiros. Rapariga de sorriso contagiante, rapariga de sardas, rapariga a rir descontrolada quando vê o rapaz levar um tombo de bicicleta.
Porque foi um tombo espetacular.
Ele é um rapaz feito de sombras, de fios negros enroscando no seu pescoço branco que nunca tomou Sol e olhos brilhantes e leitosos como a Via Láctea. Rapaz que se esconde atrás de óculos de grau e blusas de moletom dois números maior que seu manequim. Rapaz que de ponta a ponta mede 1,80, de cabelos arrepiados por conta do frio.
Rapaz de riso embaraçado, rapaz que desce a Cabo Aylson Simões na bicicleta azul da irmã mais nova para chegar na praça da Prainha. Rapaz que para em frente ao Convento, faz uma reza para Nossa Senhora e volta a percorrer o caminho até seu ponto de ouvir estrelas.
“Ora”, direis vós, “ouvir estrelas. Certo, perdeste o senso.”
A rapariga serena se contorce no terreno malcuidado a gargalhar. Ela por fim se levanta e vai para perto do rapaz caído, ajuda-o a se desenroscar da bicicleta e dá uma checada em suas pernas para ver se houve mais estrago que alguns arranhões e graxa para tudo que é lado. O rapaz a encara, incerto se deve confiar em uma estranha que a pouco achava graça de sua situação.
Mas ele não pode negar, ela era uma bela e cuidadosa estranha.
- Você parece inteiro, garoto, levanta do chão e vamos ver estrelas. – Ela diz com um sorriso, oferendo uma mão para aquele que continuava sentado. Ele fita a mão calejada e coberta por pequenos pontinhos desbotados, subindo o olhar por toda a extensão do braço desnudo da garota.
Rapariga feita de células e luz do sol, rapariga de shorts rasgados e blusa larga de alça fina, exibindo as clavículas proeminentes e os dentes e o cabelo preso em um rabo de cavalo. Uma rapariga contente em dividir seu lugar de ouvir estrelas com um rapaz de pernas arranhadas e moletom cheio de grama.
- Elas estão bonitas hoje, não? – A voz perfeitamente clara da garota se faz ouvir no silêncio confortável da cidade velha. Os sinais verdes em seu rosto apresentam a naturalidade íntima de quem frequenta aquele lugar mais vezes que se pode contar.
- Na América elas parecem mais brilhantes. – O garoto diz, simplesmente. Ele não quer admitir, mas as estrelas americanas poderiam muito bem ser opacas se comparadas às que estavam salpicadas aleatoriamente pelas maçãs do rosto da menina ao seu lado.
- Estamos na América. – Ela diz, socando de leve o ombro do menino ao seu lado. – Só porque não estamos na grande potência, não significa que estamos em lugar inferior. – A menina tem um aroma adocicado e ácido, como mexerica. Ela possui lábios da cor de Marte e há duas pintas entre o beiço superior e seu nariz arrebitado. – Daqui da Prainha podemos ver o Cruzeiro do Sul e as Três Marias, além de que a vista da Lua é privilegiada, não acha?
O garoto obscuro assente, porque ele não quer arranjar problemas.
Rapaz apaixonado por igrejas jesuíticas e bicicletas de dez marchas, rapaz que boceja discretamente e na ânsia de disfarçar olha para cima, para as palmeiras plantadas sem cuidado algum e o satélite natural da Terra que joga sua luz prateada no mar entre a capital e sua irmã mais velha.
Rapaz que se inclina para o lado de modo a espiar mais o espetáculo natural de peixes nadando pela baía de Vitória e pescadores remando seus barcos pela água escura. Rapaz que esbarra na garota distraída pelas constelações acima, e adolescentes com insônia trocando olhares curiosos no meio da praça.
- O céu... – O rapaz começa, apenas para disfarçar a falta de distância segura entre ambos. – Seu rosto parece um céu estrelado.
- Isso deveria ser um elogio? – A menina pergunta, impávida. Suas pupilas se estreitam, ela encrespa os lábios.
- Eu gosto de ouvir estrelas. – Diz o rapaz feito de sombras.
- E o que conversa com elas? – Indaga a rapariga feita de átomos.
- “Só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas.”
Rapaz que se assemelha a uma estrela em combustão. Rapariga que se levanta gargalhando da fala antiquada do pobre rapaz.
- Poesia não funciona comigo, mas foi uma bela tentativa. – Ela diz, estendendo novamente sua mão. Dessa vez, o rapaz repara que suas unhas estão pintadas de um prateado marcante, claro e límpido como seus próprios olhos. – Quer ir para um lugar bacana? – Ela põe as mãos nas cadeiras, jogando as costas para trás de modo a estica-las.
Ele arqueia as sobrancelhas.
- Está vendo aquele morro bem ali? Ele se chama Morro do Moreno. – O rapaz o conhecia, já o visitara vez ou outra com sua irmã. – Há um lugar especial mais ou menos em sua metade, uma trilha semiescondida pela mata que tem vista incrível da Terceira Ponte e das luzes de Vitória. Gostaria de ir? Ainda nem é meia-noite.
Rapaz revirando poemas antigos em sua mente, procurando as palavras certas para dizer à rapariga que fixava suas irises verde-louro, determinadas e hipnotizantes, em seu rosto pálido.
Rapariga revirando os olhos para a indecisão. Rapariga virando-se e começando a andar em direção à rua deserta, sem se importar – aparentemente – se o rapaz a estava seguindo ou não. Porque ela sabia que ele a seguiria.
Rapaz feito de escuridão, prosa e palavras retiradas de livros amarelados atrás da rapariga feita de constelações, esperança e composições harmoniosas tocadas à luz da lua. Adolescentes sem dormir aproveitando o conforto do anonimato enquanto se dirigiam para seu ponto de ouvir estrelas.
Pois é preciso amar para ouvi-las.