A física do adeus
Francisco L Serafini
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 04/08/16 15:09
Editado: 04/08/16 15:09
Gênero(s): Drama
Avaliação: 9.68
Tempo de Leitura: 3min a 5min
Apreciadores: 11
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Capítulo Único A física do adeus

Ela se atirou pela janela e logo estaria espatifada na calçada da movimentada cidade. O prédio era alto, mais de quarenta andares, com certeza, e ela se jogou justamente do último. Mas embora fosse uma grande altitude, o choque com o chão duro não deveria tardar, já que, com uma aceleração de 9,81 metros por segundo ao quadrado, a velocidade aumenta rapidamente e atinge altos valores em pouco tempo. Saber disso a fazia sentir-se encorajada, pois a morte seria praticamente instantânea e por isso não hesitou em se atirar.

No entanto, quando começou a cair, percebeu que a velocidade de seu corpo estava mais baixa do que imaginara. Parecia que o ar estava mais viscoso que o normal e era capaz de criar uma força suficientemente alta para retardar a queda. Mas isso não lhe parecia ser lógico, pois em sua vida nunca nada tinha ajudado em retardar qualquer queda que fosse. Inclusive, o que acontecia era justamente o contrário.

As forças que a cercavam antes de se jogar pela janela não eram provenientes da viscosidade do ar, mas sim de pessoas que nasceram, segundo sua visão, somente para a derrubar. Assim, todos aqueles com que conviveu no seu trabalho, na sua casa, na sua vida fizeram de tudo para vê-la para baixo. E eles era muito felizes em o fazer. Derrubavam-na utilizando, incrivelmente, uma ferramenta de fácil execução, a qual criava ondas sonoras que chegavam repletas de energia nos seus tímpanos e logo eram transformadas em sofrimento. E quando se sofre, se cai.

Em sua mente, diversas forças foram surgindo na forma de lembranças, as quais tinham diferentes módulos e capacidade de deformação. A de menor intensidade, fê-la lembrar do momento em que seu chefe a humilhou diante todos seus colegas de trabalho por ter raspado o carro numa entrega. Já a de maior intensidade, fê-la lembrar do dia em que seu marido a revelou que tudo que viveram fora uma farsa.

Suas lembranças ainda pululavam em sua mente quando ela passou pelo décimo andar. Mas mesmo assim, aplicou um esforço para girar sua cabeça aproximadamente noventa graus para direita e em seguida para a esquerda. As ondas de luz que atingiram sua retina trouxeram uma informação, a qual a fez sorrir por um instante: não havia mais ninguém ao seu lado. Isso era muito bom, pois, sozinha, não podia sofrer influência de terceiros e, consequentemente, ser derrubada. No entanto, esse sorriso foi desfeito assim que percebeu que a calçada se tornava cada vez maior.

Suas faculdades mentais logo processaram as informações e trouxeram a certeza que ela caia com ou sem companhia. Assim, concluiu que se isolar em um espaço remoto ou ocupado e em um tempo retardado ou acelerado não mudava sua inércia. Concluiu também que a única pessoa capaz de criar uma força para mudar a direção de sua vida era ela mesmo. Obviamente que a vizinhança influencia o sistema, mas esse sistema pode ser aberto e modificado, a ponto de encontrar uma condição ideal para que a vizinhança seja superada.

Ela se viu caindo sozinha. E como cargas opostas, a solidão e a tristeza se atraíram e tomaram conta da sua mente. Ela passou pelo terceiro, segundo e primeiro andar repleta de sofrimento e lamentando por seu triste e só fim. Sua cabeça se chocou com o chão e por ter uma pequena área de contato, a enorme pressão foi suficiente para abrir um rombo na calçada e fazer um buraco que chegasse até a rede de esgoto da cidade. Seu corpo ficou fortemente aderido ao chão imundo e só pode ser removido com o uso de uma pá. Desse momento em diante, a física já não pode explicar.

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Comentários (5)
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Postado 04/08/16 16:14

Estes teus textos que começam sempre de alguma forma assustadora começam a creepar-me. E ainda nem li mais que o primeiro paragrafo e já tou a ver a minha vida a andar para trás. Vai ser daquele tipo de texto como "Estou te esperando nua" que até hoje não consigo parar de pensar nos dedos dos pés do homem. Credo.

Olha eu já nem sei mais o que comentar. Só que vou sonhar com isto. Tenho plena noção disso e vou querer nunca ter posto olhos nisto. Faz um favor a moi e escreve nas notas iniciais um: ALÉXIA NÃO PODES LER ISTOU ou um ALÉXIA PODES LER ISTO.

É awesome, é bizarro, é perturbador.

O que me fascina imenso é a tua capacidade de escrever tão pragmáticamente a dor de alguém. Eu não sei se era o teu objectivo quando escreveste. Mas não há aquela sensação de empatia, é mais um relato ou melhor um documentário. Eu não compreendo como o fazes, mas é um talento. D8

Postado 04/08/16 16:15

E eu apenas escrevi o meu comentário sem o voltar a ler, Sorry pelos erros, mas tinha apenas que escrever q

Postado 04/08/16 23:04

Ai, ai, ai... tu leste todo o texto? Não tá tão bizarro assim, ora pois! Hahahaha.

Eu tive que reler a parte dos dedos do homem no texto "Estou te esperando nua", hahaha. Ora, não é tão pesado assim, hahaha.

Eu sinceramente, se pudesse, te alertaria se eu tivesse a certeza do que tu podes gostar ou não. Mas esse texto em si, sinceramete, não achei nada de tão bizarro, hahaha. De repente, eu seja louco! =O

Sobre os textos serem pragmaticamente escritos, olha, hahaha, eu não sei como faço isso. Nem sei, inclusive, se faço isso. Só escrevo como acho que as coisas devem ser relatadas. Eu, de fato, teria que fazer um estudo para ver como escrevo as cenas de dor. Mas uma coisa é certa: não tolero o sofrimento. A dor é algo inevitável, mas o sofrimento não e pode simplesmente eliminado. De repente por acreditar em algo assim, acabo escrevendo dessa forma pragmática e não sentimental.

E espero não estragar tuas noites de sono. Isso é so ficção, felizmente!! Hehehe.

Postado 08/08/16 20:53

Eu li todo o texto.xD

I DON'T KNOW OS DEDOS DO HOMEM ASSOMBRAM-ME E EU TENHO UM TIQUE COM LIMPEZAS. COMO RAIO SE FOI ELE ESQUECER DE LIMPAR OS DEDOS EM DIAS NORMAIS? D8

Eu achei bizarro, por causa desse teu talento bizarro que me creepa de parecer um docomentário. Imagina-me a ler os teus textos com a voz do google tradutor. É assim básicamente que eu vivo q

Tenho que vir comentar mais vezes xD

Ly

Postado 11/08/16 17:33

Sabe o que é o pior, Alex. É que não é que ele esqueceu, mas sim ele nunca viu necessidade de assim o fazer, hahahaha. Puta cara porco.

Bah, voz de Google Tradutor é forte, hahaha. Mas pior que parece mais uma aula de física do que o relato de um suícidio... Essa gente que relata suicídios e aulas de física no mesmo tom, vou te contar, heheh.

Postado 11/08/16 16:03

Isso é o que acontece quando gente de exatas escreve tsc tsc

Muito bom, cara. PQP! To até com pena da Alé! xD

Postado 11/08/16 17:34

Hehehe. Verdade. E foi bem tranquilo escrever esse texto. Quando percebi, as coisas já tinham andado e tava finalizando o texto.

Um texto de exatas num torneio mórbido... não há como dar certo, hahaha.

Obrigado, Joy!

Postado 17/08/16 03:41

...

Sr LEcrivain... Esta obra superou toda e quaisquer expectativas que eu tinha... Estou fascinado, aturdido, transpassado e sei lá mais o quê. A qualidade do texto ultrapassa os limites pré-estabelecidos (frisando que tais valores eram consideravelmente altos, posto as já conhecidas competência e criatividade do autor) e tende ao infinito...

Perdão por não mais conseguir me expressar adequadamente utilizando ou não a "vibe" do conto... Sou uma pessoa simples e sem muito conhecimento que apenas reconhece, aplaude e agradece a grandiosidade de um texto e de seu/sua autor(a) quando tem o privilégio de encontrá-los... E é exatamente isso que faço agora.

Atenciosamente,

Um ser impressionado e agraciado com o que acabou de ler, Diablair.

Postado 17/08/16 15:31

Muito obrigado, Diab! Fico imensamente feliz com tuas palavras e sinceridade.

Postado 10/10/16 22:16

Eu tive a aula de física mais incrível de toda a minha vida! Nunca gostei de física, mas dessa vez abro uma exceção, pois amei! Esse texto é tão precioso e rico que ouso dizer ser o seu melhor (mesmo não tendo lido todos que postou aqui).

E o que dizer desse final? De todos esses detalhes “doentios” e encantadores? Sério, até agora não consigo achar as palavras certas para expressar todo o meu amor e fascinação por esse texto.

Parabéns!

Postado 11/12/17 21:53

Caramba, mil perdões por não agradecer teu comentário antes.

Muito obrigado pelas palavras de apoio! =D

Postado 29/06/18 18:05

c

Caro, Francisco, que texto maravilhoso você nos presenteou! Muito bem escrito. você utilizou conceitos de física para fazer um belo exercício de compreensão deuma situação-limite. Em nenhum momento o texto resvala para algum sentimentalismo ou para um artificialismo,sua profundidade resideem ser uma espécie de fotografiade um momento trágico. Em minha prática profissional (sou psicológo hospitalar) já atendi inúmeras vítimas de tentativas de suícidio. Parabéns pela beleza de seu texto. deixo-lhe um abraço fraternal.

* Tenho vários contos de ficção científica (algumas no estilo hard) mas estão postados em um outro site. Breve postarei outro conto aqui.

Postado 29/06/18 23:39

Opa, que bom você gostou. Alegra-me muito saber disso. Obrigado pelo comentário.

E como uma pessoa descreve uma tentativa de suicídio? Não deve ser sem sentimentalismo, hehehe.