Ela se atirou pela janela e logo estaria espatifada na calçada da movimentada cidade. O prédio era alto, mais de quarenta andares, com certeza, e ela se jogou justamente do último. Mas embora fosse uma grande altitude, o choque com o chão duro não deveria tardar, já que, com uma aceleração de 9,81 metros por segundo ao quadrado, a velocidade aumenta rapidamente e atinge altos valores em pouco tempo. Saber disso a fazia sentir-se encorajada, pois a morte seria praticamente instantânea e por isso não hesitou em se atirar.
No entanto, quando começou a cair, percebeu que a velocidade de seu corpo estava mais baixa do que imaginara. Parecia que o ar estava mais viscoso que o normal e era capaz de criar uma força suficientemente alta para retardar a queda. Mas isso não lhe parecia ser lógico, pois em sua vida nunca nada tinha ajudado em retardar qualquer queda que fosse. Inclusive, o que acontecia era justamente o contrário.
As forças que a cercavam antes de se jogar pela janela não eram provenientes da viscosidade do ar, mas sim de pessoas que nasceram, segundo sua visão, somente para a derrubar. Assim, todos aqueles com que conviveu no seu trabalho, na sua casa, na sua vida fizeram de tudo para vê-la para baixo. E eles era muito felizes em o fazer. Derrubavam-na utilizando, incrivelmente, uma ferramenta de fácil execução, a qual criava ondas sonoras que chegavam repletas de energia nos seus tímpanos e logo eram transformadas em sofrimento. E quando se sofre, se cai.
Em sua mente, diversas forças foram surgindo na forma de lembranças, as quais tinham diferentes módulos e capacidade de deformação. A de menor intensidade, fê-la lembrar do momento em que seu chefe a humilhou diante todos seus colegas de trabalho por ter raspado o carro numa entrega. Já a de maior intensidade, fê-la lembrar do dia em que seu marido a revelou que tudo que viveram fora uma farsa.
Suas lembranças ainda pululavam em sua mente quando ela passou pelo décimo andar. Mas mesmo assim, aplicou um esforço para girar sua cabeça aproximadamente noventa graus para direita e em seguida para a esquerda. As ondas de luz que atingiram sua retina trouxeram uma informação, a qual a fez sorrir por um instante: não havia mais ninguém ao seu lado. Isso era muito bom, pois, sozinha, não podia sofrer influência de terceiros e, consequentemente, ser derrubada. No entanto, esse sorriso foi desfeito assim que percebeu que a calçada se tornava cada vez maior.
Suas faculdades mentais logo processaram as informações e trouxeram a certeza que ela caia com ou sem companhia. Assim, concluiu que se isolar em um espaço remoto ou ocupado e em um tempo retardado ou acelerado não mudava sua inércia. Concluiu também que a única pessoa capaz de criar uma força para mudar a direção de sua vida era ela mesmo. Obviamente que a vizinhança influencia o sistema, mas esse sistema pode ser aberto e modificado, a ponto de encontrar uma condição ideal para que a vizinhança seja superada.
Ela se viu caindo sozinha. E como cargas opostas, a solidão e a tristeza se atraíram e tomaram conta da sua mente. Ela passou pelo terceiro, segundo e primeiro andar repleta de sofrimento e lamentando por seu triste e só fim. Sua cabeça se chocou com o chão e por ter uma pequena área de contato, a enorme pressão foi suficiente para abrir um rombo na calçada e fazer um buraco que chegasse até a rede de esgoto da cidade. Seu corpo ficou fortemente aderido ao chão imundo e só pode ser removido com o uso de uma pá. Desse momento em diante, a física já não pode explicar.