D E S C A L Ç A
— Ana Ferreira.
Eu venho andando descalça pelas minhas memórias. Amaldiçoando o tempo que havia ido embora, e deixado-me aqui, estagnada num ponto onde eu mesma nunca poderia sair, ou achava que não poderia. Como o fluxo da água, o tempo vinha passando. Corria contra a minha vontade, e mais uma vez, eu acabava por encarar o horizonte, segurando meu coração agitado que fechava os olhos e caia em sono profundo.
Eu venho andando descalça pelas minhas memórias, gritando a chamar por aquelas bem antigas que se escondem atrás da árvore do tempo. Meu ipê amarelo, e as flores do meu coração estão a murchar, e eu ao menos sabia o por quê. Eu venho andando descalça pelas minhas memórias, tentando deixar aqueles que não consigo esquecer, tentando ajudar aqueles que não pude estar por perto. Eu venho andado descalça pelas minhas memórias, e vendo o quão triste é viver pelo passado. O quão triste e lindo é vê-los a dormir, ali, do jeito que são.
Eu venho andando descalça pelas minhas memórias. Tapando aqueles olhos de dentro do meu coração.