A madame Amanda
Francisco L Serafini
Tipo: Conto ou Crônica
Postado: 25/02/16 22:33
Gênero(s): Aventura Comédia
Avaliação: Não avaliado
Tempo de Leitura: 6min a 8min
Apreciadores: 4
Comentários: 3
Total de Visualizações: 676
Usuários que Visualizaram: 8
Palavras: 1028
Livre para todos os públicos
Capítulo Único A madame Amanda

O verão entrava na sua última semana e as lojas do shopping, como se combinadas, colocavam todos seus estoques em liquidação. Aquilo era um horror na visão de Amanda Garibaldi, pois era impossível visitar a loja de joias do local sem esbarrar na multidão pobre que lotava os corredores. Desejava que a gasolina ultrapassasse o preço dos dez reais ao litro e que as passagens dos ônibus fossem mais caras que uma garrafa de vinho chileno, para impedir que as pessoas de baixa renda saíssem de casa.

Naquela sexta-feira, Amanda decidiu adquirir um colar de ouro para ir ao casamento da filha de um importante político, com que seu marido acertara um acordo para a construção de uma importante via na cidade de Gramado. Toda a alta sociedade estava convidada e por isso ela não podia estar com joias já registradas em fotografias de outros eventos. Assim sendo, ela decidiu enfrentar a multidão de pobres e se deslocou até o shopping.

Clarisse Gonçalves sempre acompanhava Amanda aos lugares repletos de desfavorecidos. Clarisse acreditava veemente que Amanda a convidava porque confiava no seu bom gosto para joias, no entanto nunca reparou que Amanda sempre escolhia algo diferente do que indicava. A verdade é que Amanda via Clarisse como uma pessoa menos rica e, portanto, a utilizava como escudo contra os pobres que saiam das lojas Renner com inúmeras sacolas de compras.

— Vem para cá, Clarisse.

— Cuidado, Amanda. Não me empurra assim. Não viu que me choquei contra aquela pobre alma?

— Antes você do que eu. Você sabe que pobreza é contagioso e não quero me adoecer.

Vários empurrões sucessivos em Clarice separaram Amanda das demais pessoas, que pode, portanto, chegar a loja da Vivara no shopping sem contatos indesejados. Aliviada, Amanda olhou em sua volta e se sentiu em casa. Era só riqueza que seus olhos viam. Joias que brilhavam tão forte quanto o sol a cercavam e a colocavam no patamar da riqueza, local que foi especialmente feito para ela.

— Como posso ajudá-la, senhora?

— Oi, querida. Você é nova aqui?

— Sim, comecei as minhas funções na Vivara na semana que acabara de passar.

Amanda ficou feliz que a antiga funcionária tinha sido demitida. Isso provava que sua palavra diante os chefões da loja tinha influencia, pois ela sugerira que a antiga atendente fosse demitida por ser tão incompetente e não saber atender damas de elevadíssima classe. Diante daquela lhe atendia, pediu para olhar os colares de ouro. Clarisse dava seus conselhos, mas era prontamente ignorada, coisa que não percebia. Após alguns minutos, Amanda se viu diante a um colar magnifico, que possuía ouro de 22 quilates e uma aura poderosa. Era impossível alguém ignorá-la irradiando tanto brilho e isso a agradava. No entanto, seu olhar de lince percebeu uma pequena falha no encaixe, o que lhe a desagradou.

— Adorei esse colar, mas pode-se notar aqui no encaixe uma pequena falha.

— Sinto muito, senhora, mas não consigo notá-la.

— Está dizendo que sou mentirosa? Você é uma mulher sem classe e evidentemente não poderia notá-la. Quero que você confira em seu estoque se possui esse mesmo colar, mas sem falhas.

— Sim, senhora. Aguarde um instante.

Assim que a atende virou-se de costa, Amanda pegou o colar supostamente defeituoso e o colocou na bolsa. O segurança da loja percebeu o ato e dirigiu-se para abordá-la, no entanto Amanda foi mais ágil e saiu rapidamente da loja. Ela corria no meio da multidão, esbarrando em todo mundo quando ouviu Clarisse, que lhe acompanhava, gritando aos prantos:

— Amanda, você está louca! Esse colar tem defeito e você não o pagou.

— Cala a boca, Clarisse! Defeituosa é você! Estou pegando o que é meu por direito. Eu sou uma madama chiquérrima e preciso desse colar.

Os seguranças tentavam alcançar as fugitivas, mas enfrentavam dificuldade em se infiltrar na multidão que lotava os corredores do shopping. A nova atendente desesperadamente gritava da porta da loja, querendo que a ladra fosse pega.

— Peguem essa mulher! Ela roubou a loja! Peguem essa ladra!

Amanda era conhecida no shopping por sua malandragem. Era uma ladra que se vestia e agia como madame para facilmente ludibriar as novas atendentes que ainda não conheciam sua fama. A antiga atendente da Vivara também sofrera esse golpe e foi demitida por ser descuidada. Ela atacava em dias de liquidação justamente para conseguir se infiltrar no meio da multidão e ter sucesso na fuga.

Suas armas eram roupas de grifes e nome pomposo, com as quais atacava suas vítimas. Sem índole e vergonha, Amanda nunca era convidada para nenhum casamento, mas estava presente em todos, pois adentrava justamente por usar de suas armas. Sempre era expulsa após de filar muita comida e fazer algum barraco. Além disso, ludibriava as pessoas próximas para obter vantagem. Clarisse, mulher simples e ingênua sempre se metia em confusão por causa da amiga. Roberto, seu marido, fez um acordo com o prefeito da cidade para calçar uma rua e para desviar dinheiro da prefeitura, após que Amanda o convenceu que esse ato de corrupção era bom. No entanto ele e o prefeito foram presos devido a uma investigação da polícia.

Descendo as escadas rolantes que se moviam no sentido contrário, procurava sair do shopping e se despistar dos ladrões. Amanda sabia que seu plano não foi executado com perfeição, mas, de qualquer forma, estava com a joia, embora tivesse que sair da cidade até o caso esfriar. Sua maior lamentação, na verdade, era ter a consciência de não poder ir ao casamento e poder comer e beber de tudo que era de melhor.

— E eu, Amanda?! Não me deixe para trás!

— Te vira, Clarisse. Aproveita que esses bofes estão correndo atrás de ti e se joga nos braços deles.

Clarisse achou a ideia sensacional e parou na frente dos seguranças, querendo beijá-los. Inocentemente, novamente foi usada pela amiga, que acabou tendo êxito em sua fuga. Em um taxi destinado a qualquer lugar, Amanda festejava o sucesso da operação. Pegou o colar de ouro, o qual brilhava como olhos de uma criança ao ganhar um doce, e o pôs em seu pescoço para desfrutar do prêmio que alcançara.

— Belo colar, madame.

— Querido taxista, nada melhor que liquidações de verão.

❖❖❖
Apreciadores (4)
Comentários (3)
Comentário Favorito
Postado 27/06/16 22:33

Num instante achei que fosse rica, depois é esclarecido que é um disfarce. Um tanto estranho na minha opinião essas partes, mas de resto, está ótimo, pois ela me parece super ousada no que faz.

Postado 04/07/16 18:15

Te digo que não é evidente em minha mente como fazer essa transição. Obrigado por me alertar e por elogiar ao texto.

Postado 26/02/16 16:16

Que mina bobona é essa Clarisse! hahaha Como pôde ser tão facilmente enganada? xD

Adorei o conto! Sério, muito divertido. Entrou pra minha lista de favoritos! :)

Postado 26/02/16 16:44

Hehehe. Pobre da Clarisse. Tão ingênua e amiga de uma pessoa que só se aproveita disso. É triste como as pessoas são, hehehe.

E que coisa bacana ler que o conto entrou na lista de favoritos de alguém. E principalmente se esse alguém é alguém de tão bom gosto e de muitas habilidades na escrita.

Muito obrigado pelas palavras!

Postado 09/08/20 11:39

Nossa, eu tô de boca aberta com esse conto, foi tão legal, e vc soube disfarçar muito bem a sua ladra kkkkk, dona Amanda toda estratégica kkkkkk parabéns pelo texto viu, tá ótimo *_*

Postado 13/08/20 18:26

=D

Saber que esse conto em especial te agradou me deixa muito feliz. Ele fará parte de um livro que estou escrevendo.

Muito obrigado pelo comentário!