O mundo era íngreme aos olhos de Ingrid. Não que ela o visse como uma eterna subida. Ela só preferia encarar o céu do que a superfície. Talvez tenha sido isso o que mais me chamou à atenção; o fato dela acreditar que as nuvens são mais cheias do que muitas pessoas.
— O que você vê? — ela perguntou.
— Uma nuvem — respondi.
— Não, não. Olha de novo. O que você vê? — ela insistiu.
— Uma nuvem... — persisti.
Ela revirou os olhos e resmungou:
— Não, não é uma nuvem. Ok... Talvez seja uma nuvem. Mas com o que ela se parece?
— Uma nuvem... — repeti.
— NÃO! Aquela ali se parece com um pássaro, e aquela outra com uma cadeira, e aquela com um piano.
Mesmo vendo apenas uma nuvem, concordei. Mesmo sendo tarde de domingo, eu dormi. Apaguei. E quando acordei a encontrei ainda encarando o céu. E o tempo fez cara de chuva, mas não choveu. E o vento passou por ali, mas nem ficou.
— O que você vê? — perguntei.
— Vejo bem mais do que branco e cinza — ela começou - Vejo aquela nuvem se arrumando e passando batom vermelho. Vejo aquelas duas nuvens se entreolhando, acho que algo está rolando entre elas. Vejo aquela nuvem de cabelos brancos e aquela nuvem de cabelos grisalhos sentadas em cadeiras de balanço. Vejo aquela nuvem meio triste, com cara de quem quer sorvete... — até que ela parou e respirou fundo — Mas elas não são só aparência. Por trás delas se esconde todo um infinito inexplorado. Um universo de sensações que ninguém pode entender, porque vai além do que qualquer pessoa se permite ir — e então terminou.
E é ai que eu volto para o início, onde eu disse que o que mais me chamou à atenção em Ingrid, foi o fato de ela acreditar que nuvens são mais cheias do que muitas pessoas.
— E agora, o que você vê? — ela perguntou.
— Um sorvete — me esforcei, e ela sorriu.