Eu sou o produto de um acidente, provocado como tantos outros pelo álcool, na noite de natal.
Sobrenome: Santos.
Pais: Cristina e Adaílton Santos.
Signo: Extra Virgem.
A explicação para meu signo incomum: o perfeccionismo, traço característico do signo de virgem, está em mim muito mais presente. Nunca fui de aplicá-los apenas nas minhas atividades escolares, nos trabalhos e nos projetos de cunho mais pessoal, como os seguintes relatos do meu relacionamento com Cristiana Rizzo; meu perfeccionismo se estendia para toda minha vida: o sabão, no momento do meu banho, era sempre passado de maneira uniforme, de modo a não negligenciar e nem favorecer muito nenhuma área do meu corpo.
Minhas amizades eram escolhidas a dedo – isto hoje me causa imenso desgosto, admito –, com base numa série de critérios, que iam do desempenho escolar passado de meus amigos a seus relacionamentos a seu gosto musical a possibilidade de que um dos pais deles pudesse me fazer favores na minha – há muito fracassada – carreira de músico.
Esta objetificação, felizmente, não se estendia às mulheres; pois desde o dia do meu nascimento eu tive uma namorada: Cristiana Rizzo.
Pais: Paola e Paolo Rizzo.
Signo: Virgem (não sei se Extra, como eu.)
Origem: Outro acidente na noite de natal.
Comecemos do começo;
Mamãe era amiga de Paola. Papai era amigo de Paolo. Ocorreu que, na noite de natal do ano 1999, esses quatro encontravam-se no mesmo lugar: um chalé situado num parque de Esqui em Gramado, no Rio Grande do Sul. Haviam muitas coisas em comum;
Os quatro gostavam de beber pela manhã,
Os quatro vieram de Salvador,
Os quatro não foram esquiar por medo, preferindo ficar no chalé enquanto os outros divertiam-se,
Os quatro, que eram solteiros, estavam desesperadamente sedentos por um pouco de romance e, por último:
Os quatro haviam decidido, antes mesmo de pôr os pés no avião que os levaria para o Rio Grande do Sul, que naquele natal iriam para a cama com alguém, e foi exatamente isso que aconteceu.
Mantiveram o contato, e quando voltaram à Salvador, os quatro participaram de muitos jantares e outras atividades para casais, e foram surpreendidos, mais ou menos ao mesmo tempo, pela notícia de que seriam pais.
Mamãe e papai teriam um menino. Paolo e Paola teriam uma menina.
A promessa foi feita por meu pai, brincalhão: Eu, que me chamaria Paulo em homenagem a Paolo, seria o namorado de Cristiana, a filha dos Rizzo, que receberia este nome em homenagem à minha mãe, Cristina.
A amizade dos quatro acabou por volta desta mesma época; Papai e Mamãe, extremamente cristãos, foram surpreendidos quando, num jantar na casa dos Rizzo, Paolo assumiu um tom grave para anunciar que Cristiana Rizzo nunca viria ao mundo.
Os Rizzo explicaram suas razões: eram ainda muito jovens, a gravidez era arriscada à saúde de Paola e da bebê, e o casal de namorados – que nunca nem pensaram em se casar – queria estar com a vida feita, a carreira já segura, antes mesmo de cogitar a possibilidade alteradora de vidas de se ter um bebê.
As consequências:
Não me chamo Paulo;
A amizade – que pelas fotos que mamãe me mostrou, era belíssima – acabou aí para nunca mais voltar. Papai e Mamãe nunca conseguiram ser tão amigos de alguém como foram de Paolo e Paola.
Nas fotos, os Rizzo são extremamente semelhantes; possuem o mesmo fenótipo, a mesma cor de cabelo liso, levemente cacheado, a mesma pele mediterrânea, bronzeada. E imagino que Cristiana Rizzo seria uma bebê, criança, adolescente e mulher lindíssima, se ao menos tivesse vindo ao mundo.
Mas já lhes revelei que tivemos um relacionamento, e é dele que quero lhes falar.
Papai e Mamãe, quando eu nasci, moravam na casa de minha avó paterna e materna, respectivamente. Como eu estava para chegar, decidiram se mudar para uma casa só deles, mas faltava o dinheiro, e por isso acabamos indo morar num apartamento alugado, o mais barato que conseguiram encontrar na cidade, numa das regiões mais assoladas pelo crime.
Não havia playground ou parque recreativo ou piscina no condomínio, e as poucas crianças que lá moravam ou ficavam em casa – seus pais tinham medo do tráfico de drogas, que naquela área era pesadíssimo – ou saíam para brincar e nunca mais voltavam. Como já disse, Papai e Mamãe nunca conseguiram fazer amizade com outro casal novamente, e portanto tive poucos amigos em minha infância, sendo que todos eles eu via apenas no curto tempo em que eu estava na escola. Nenhum deles morava em meu condomínio.
Eu brincava sozinho, quando Mamãe ia trabalhar e Papai, que era segurança no turno da madrugada, dormia durante a tarde. Sem muitos brinquedos, minha principal diversão era proveniente de minha imaginação; com os mesmos três bonecos e o mesmo pacote de peças falsificadas de Lego, eu criava inúmeras cenas, mergulhava em infinitos universos inspirados em seja lá qual tinha sido o último desenho que me encantou.
Foi numa destas brincadeiras, quando eu tinha seis anos, que conheci Cristiana Rizzo.
A luz do Sol entrava por uma abertura entre as cortinas da sala, que nunca se fechavam por completo, e iluminava timidamente a parede onde estava pendurada a fotografia de meus pais, no dia em que se conheceram, com os Rizzo. Abaixo dela, estava uma garota, com um fenótipo familiar, o tom de pele mediterrâneo, os cabelos lisos e longos, levemente cacheados. Um vestido modesto, mas com leves ares de pretensiosidade, como era de se esperar da filha de um casal moderno – na época, naturalmente, não pensei nisto; pensei apenas que ela era belíssima, e que tinha encontrado, enfim, uma parceira para brincadeiras.
Tinha um rosto simples, extremamente simples, mas memorável. Chamei-a para brincar comigo, e ela perguntou:
– Você tem uma boneca?
– Não.
– Só brinco com você se você tiver uma boneca.
– E se eu colocar uma peruca no Max Steel? Serve?
– Sim.
E então peguei uma tesoura sem pontas que carregava em meu estojo para as atividades escolares e fui procurando pela casa os cabelos que fariam do boneco uma boneca.
– O cabelo da vassoura serve? – Eu ainda não sabia o que era o “cabelo” da vassoura.
– Não. – Ela respondeu, rígida.
– E os do tapete?
– Também não.
– E esse saquinho?
– Não, não e não. Quer saber? Depois você me arruma uma boneca.
Brincamos de teatro – ela sonhava em ser atriz e diretora, segundo me revelou mais tarde. Naquele dia o roteiro tratava-se de uma briga entre dois de meus bonecos – o terceiro ficava ali, apenas sentado, segundo ela, o terceiro boneco entraria em cena apenas quando a boneca entrasse.
A briga era verbal, acerca de algum ocorrido no passado, e um Max Steel – dublado por mim – gritava para o outro – dublado para ela:
– Você não podia ter feito aquilo, você prometeu!
E o Max Steel dela respondia:
– Não foi promessa nada! A gente não jurou de dedinho…
– Você é um grandíssimo idiota, um patife, um descarado!
As acusações continuavam, da parte dela:
– E você, você não é melhor que eu, só morre de medo de papai do céu!
E eles partiam para a briga física em seguida. Só muito tempo depois fui entender do que se tratava aquela cena improvisada, para a qual as palavras me vinham tão facilmente à cabeça, como se colocadas ali por uma força maior. Como boas crianças, descrevíamos o que um personagem fazia com o outro, começando sempre por “e aí”:
– E aí o meu Max Steel pega você pelo cabelo e joga você lá na parede.
– E aí que seu Max Steel erra e o meu consegue dar um tapa na cara dele. O seu cai.
E aí que meu pai acordou, assustado, e me perguntou:
– Está conversando com quem, filho?
– Com minha amiga.
Ele passou os olhos pela casa e, ao não ver ninguém, presumiu que eu tinha uma amiga imaginária. Segundo ele, já nessa época ele tentava ao máximo ser um bom pai, e sabia que esse tipo de coisa era normal, de modo que ele decidiu incentivar-me.
– Que interessante! – Ele falou, com um grande sorriso no rosto. – E qual o nome de sua amiga?
Neste momento, eu ainda não sabia do nome dela, e perguntei-lhe:
– Cristiana Rizzo. – Ela respondeu, e:
– Cristiana Rizzo. – Repeti para meu pai, que prontamente desmaiou.